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sexta-feira, 25 de julho de 2008

Guimarães Rosa


"Minha língua é a arma com a qual defendo a dignidade do homem"

"Somente renovado a língua é que se pode renovar o mundo. Devemos conservar o sentido da vida, devolver-lhe esse sentido, vivendo com a língua. (...) O que chamamos hoje linguagem corrente expressa apenas clichês e não idéias; por isso está morta, e o que está morto não pode engendrar idéias".

A linguagem restaurada significa restauração da vida individual, interna e externa, e, portanto, também em comunidade. É uma ética, um compromisso. A linguagem, para Guimarães Rosa, é vida que engendra idéias, sentido, mundo.

Tal atitude de renovação, de volta à origem, de busca de um ideal de saúde, beleza, ordem e unidade - de busca do perfeito - é facilmente reconhecível: é a atitude platônica daquele que se deixa guiar, em todas as circunstâncias, pela contemplação do modelo único, unificador, do Bem. Este paradigma é o
logos, no seu duplo sentido de "palavra" e "razão".

Ao ter sua vida orientada por este ideal único, o homem torna-se, igualmente, uno: um indivíduo - uma personalidade unificada, integrada, íntegra. Disperso pelos sentidos do corpo, o homem recolhe-se numa alma singular, numa vida específica. Adquire uma identidade, um nome, uma fala própria.

Esta é a atitude do
homem justo de Platão, o homem dotado de virtude (arete) e de pensamento (fronesis), guiado pela inteligência (nous) e pela razão (logos) na aquisição do conhecimento (episteme): o homem cuja alma está ordenada - kosmiai - e integrada sob o princípio da razão. Esta é a atitude do homem aristocrático, do filósofo, do "filólogo", que, tanto na vida privada quando na vida pública, se deixa guiar pelo modelo divino do Bem - pelo organon da palavra (logos) - que tem em sua alma.

(...)

Assim, homem justo - inteiro, íntegro -, Guimarães Rosa cumpre seu compromisso ético da maneira mais pontual e aplicada, no mundo diário, sem tirar a vista do modelo ideal a que aspira, com o sentido de transformar esse mundo, ao realizar "sua obra própria", ao tentar devolvê-lo à sua pureza original. Como a alma platônica que, tal o deus marinho Glauco, emerge das águas coberta de algas e impurezas que não permitem perceber sua natureza original, o mundo também está escondido por impurezas que velam seu modelo, o
logos. O mundo é linguagem original, viva, a linguagem que diz a verdade, que tem sentido.


***


"... um diplomata é um sonhador e por isso pude exercer bem essa profissão. O diplomata acredita que pode remediar o que os políticos arruinaram. (...) e também por isso mesmo gosto muito de ser diplomata. (...) Mas eu jamais poderia ser político com toda essa constante charlatanice da realidade".

"Mas quero ainda ressaltar que credo e poética são uma mesma coisa. Não deve haver nenhuma diferença entre homens e escritores; essa é apenas uma maldita invenção dos cientistas, que querem fazer deles duas pessoas totalmente distintas. Acho isso ridículo. A vida deve fazer justiça à obra, e a obra, à vida."




Araújo, Heloísa Vilhena de.
Guimarães Rosa: Diplomata/Heloísa Vilhena de Araújo. - Brasília: Fundação Alexandre Gusmão, 2007.

Heloísa Vilhena de Araújo, Embaixadora, é Doutora em Literatura Brasileira pela Universidade de Londres (o que, devo dizer, além de uma grande titulação, é uma ironia ainda maior).

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Camus

Há alguns anos, eu era advogado em Paris, e - juro - um advogado bastante conhecido. É claro, não lhe disse meu verdadeiro nome. Eu tinha uma especialidade: as causas nobres. A viúva e o órfão, como se diz, não sei por que, já que, enfim, há viúvas abusivas e órfãos ferozes. Bastava-me, no entanto, farejar num réu o mais leve cheiro de vítima para que minhas mangas entrassem em ação. E que ação! Uma tempestade! Eu tinha o coração nas mangas. Podia-se pensar que a justiça dormia comigo todas as noites. Tenho certeza de que o senhor admiraria a exatidão do meu tom, a justeza da minha emoção, a persuasão e o calor, a indignação controlada das minhas defesas. A natureza favoreceu-me quanto ao físico, a atitude nobre me vem sem esforço. Além disso, eu era alimentado por dois sentimentos sinceros: a satisfação de me encontrar do lado certo do tribunal e um desprezo instintivo pelos juízes em geral. Este desprezo, afinal, talvez não fosse tão instintivo. Sei agora que ele tinha lá suas razões. Mas, visto de fora, parecia mais uma paixão. Não se pode negar que, pelo menos, por ora, os juízes eram necessários, não acha? No entanto, eu não conseguia compreender por que um homem designava a si próprio para exercer esta surpreendente função. Admitia-o, já que o via, mas um pouco como eu admitia os gafanhotos. Com a diferença de que as invasões desses ortópteros nunca me renderam um centavo, ao passo que eu ganhava a vida dialogando com pessoas que desprezava.

Mas, enfim, estava do lado certo, isso bastava para a paz da minha consciência. O sentimento do direito, a satisfação de ter razão, a alegria de nos estimarmos a nós próprios são, meu caro senhor, impulsos poderosos para nos manter de pé ou nos fazer avançar. Pelo contrário, privar os homens desses impulsos é transformá-los em cães raivosos. Quantos crimes cometidos, simplesmente porque seu autor não podia suportar o fato de estar errado! Conheci, em outros tempos, um industrial que tinha uma mulher perfeita, admirada por todos e que, no entanto, ele traía. Este homem ficava literalmente raivoso ao se descobrir culpado, na impossibilidade de receber, ou de passar a si próprio uma certidão de virtude. Quanto mais a mulher se mostrava perfeita, mais ele se enraivecia. Finalmente, seu erro se tornou insuportável. Que pensa que fez, então? Parou de enganá-la? Não. Matou-a. Foi deste modo que travei conhecimento com ele.





Albert Camus, em trecho de La Chute, 1956.