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quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Um Bilhete


Voltava apressado para casa, correndo no meio da rua como se fosse tirar o pai da forca – aliás, estava indo tirar o pai da forca. Recebera um telefonema do pai enquanto estava no trabalho.
“Vou me matar”
Não questionou motivos – não tinha tempo – nem parou pra se perguntar se era verdade – vai que era – simplesmente pulou da cadeira chutou tudo no caminho e começou a correr para tirar o pai da forca. Seu pai tinha uma predileção por forcas. Em jantares em família sempre comentava alegremente que se fosse se matar se enforcaria; dizia que um suicídio por enforcamento era uma obra de arte: não só você tinha um método eficaz de cessar a atividade cerebral como ainda tinha toda aquela coisa do impacto visual: chegar em casa e ver o cadáver de um parente se balançando na penumbra inerte com os olhos arregalados. Ninguém precisa de Goya com um enforcado por perto. “Se parente meu se enforcasse” ele dizia “eu deixava o cadáver lá, pincelava formol e passava bom-ar todo dia de manhã”.
Ele se imaginou fazendo tudo isso enquanto corria pela avenida, e começou a pensar se seu pai combinava com um quadro que tinha na sala, e que se ele tivesse se enforcado no quarto ia ter que mudar ele de lugar. Depois se lembrou que ia tirar o pai da forca, não decorar a casa.
Chegando lá seu pai tinha se enforcado (no quarto), e preso em suas mãos no seu rigor mortis estava um bilhete. O bilhete, escrito com o próprio sangue do pai, dizia, em letras grandes:

BOINA

“Porréisso, taquepariu”, pensou. Seu pai nunca usou uma (pelo menos não que ele lembrasse), nem teve uma em casa, nem nunca falou sobre elas, e sempre preferiu cartolas. O que era meio ridículo. Leu de novo.

BOINA

Intrigado, saiu para passear num parque ali perto. O que aquela palavra queria dizer? Por que seu último pensamento antes de se tornar uma obra de arte foi o de uma peça de vestuário? Por que ele se matou? Ontem mesmo ele estava tão feliz conversando sobre o novo cilindro de cera da orquestra de jazz de Harry Raderman. Talvez ele não tenha gostado. Ou talvez o cilindro tenha derretido. Talvez a orquestra não tenha um trombonista – instrumento preferido de seu pai. Pensou em tudo isso, mas não chegou a um consenso, não chegou a se conformar, não chegou a compreender, não conseguiu parar de repassar mentalmente o bilhete com o último pensamento de seu pai.

BOINA

Então compreendeu. Foi à Riachuelo, comprou uma boina e colocou-a na cabeça do pai morto, mudou o corpo do quarto para a sala e a obra de arte estava completa, finalizada com o acessório no alto de sua cabeça pálida. Constatou alegremente que combinava com o quadro.

Parabéns a Matteo Ciacchi, vencedor da V Competição Literária do Sarau! Parabéns também aos demais parcipantes pelos excelentes contos!

terça-feira, 22 de julho de 2008

Todos os olhos


Acordou-se numa bela manhã de domingo e quando olhou pela janela viu um enorme machado de pedra, de pelo menos dez metros de altura, fincado no chão bem em frente à sua casa. Morava com os pais, e foi para a cozinha onde eles tomavam café.

“O que é aquilo?”

“Aquilo o quê?”

“Aquele machado lá fora”

“O que tem ele?”

“O que é ele?”

Sua mãe fez uma cara de preocupada.

“O que você quer saber exatamente?”

“O que aquela coisa está fazendo ali!”

“Sempre esteve ali. Querido, você está bem?”

Decidiu que era melhor deixar pra lá, e continuou o dia normalmente.

Acordou no outro dia com um barulho alto e forte. Vários barulhos altos e fortes depois, ele se levantou e foi para a cozinha. Lá encontrou seus pais na mesa com panquecas em cima de tábuas de carne. Estavam usando machados para cortar pedaços da panqueca, como se fosse um talher, e levavam os pedaços à boca com as mãos. Era um processo barulhento.

“O que é isso?”

“Isso o quê?”

“Que vocês estão fazendo?”

“Tomando café – fiz panquecas, quer uma? Pegue um machado, acabei de lavar”

Decidiu que era melhor deixar pra lá, e continuou o dia meio desconfiado.

Dormiu mal e acordou mal. Quando se decidiu por abrir os olhos, viu um grande olho olhando para ele – e não conteve um grito. O teto agora tinha um olho. Não um olho pintado, nem esculpido. Um verdadeiro grande olho, com veias, dutos lacrimais, pupilas, córneas e uma pálpebra, que piscou. Olhava fixamente para ele. Levantou-se e viu que na ponta da maçaneta da porta havia outro pequeno olho, e aos poucos notou que quase tudo no seu quarto tinha um olho que o observava. Enquanto o criado-mudo o seguia com o olhar, foi para a cozinha. Àquela altura ele não sabia se devia se surpreender ao ver que seus pais não tinham olhos. Olharam para ele, ou pelo menos essa era a impressão.

“Meu filho, o que é isso na sua cara?”

“O quê?”

“Tem duas coisinhas aqui, espera” pegou um lenço e esfregou os olhos do filho. “Não quer sair”

“Mãe, meus olhos!”

“Seus o quê? Meu filho, você está bem? Eu e seu pai estamos preocupados com você, você tem se comportado estranhamente nos últimos dias”

“Não tenho nada”

Quando olhou pela janela na manhã seguinte, sob o olhar vigilante do gigantesco machado, viu que o céu estava verde-limão. Antes que pudesse se espantar, sua mãe apareceu do outro lado da janela, pulando e rindo histericamente, brandindo um machado e com pedaços de panqueca mal mastigada escorrendo da boca. Pouco depois seu pai se juntou à coisa que estava acontecendo, o que quer que fosse, e em cinco minutos ele viu cinco mães suas e quatro pessoas iguais ao seu pai dançando numa espécie de ciranda no jardim, em frente ao machado, brandindo machados, enquanto saboreavam os olhos das panquecas, que davam seus últimos suspiros olhando tristemente para o céu, agora laranja.

Teve medo. Não tinha medo de esculturas inesperadas ou de gente sem olhos, mas sentiu quase um pânico por aquilo que não conseguia explicar. Qualquer coisa que ele tentasse pensar não fazia o menor sentido; perguntou-se se as coisas que ele achava que sabia não teriam mudado também, se ele realmente sabia alguma coisa ou se tudo não era simplesmente uma alucinação; estava num estado em que não sabia se estava louco ou se era louco antes e agora estava aos poucos vendo a realidade. Isso tudo o fez ter medo. Foi na cozinha, pegou um machado meio cego – em qual sentido? – destruiu tudo, matou seus nove pais e partiu sua própria cabeça em dois. O sangue que jorrou era roxo.



Parabéns a Matteo Ciacchi, vencedor da IV Competição Literária do Sarau! Parabéns também aos demais participantes!

domingo, 13 de julho de 2008

Nierika

Em tempos imemoriais, viviam dentro de uma caverna. Um grupo de animais, andavam parcialmente sobre duas patas, e possuíam menos pêlos que os demais. Ademais, seguiam a sua natureza: selvagens inatos.
Suas vidas eram guiadas por dois momentos. No verão a fartura no litoral, onde eram abundantes os peixes e as aves. No inverno deslocavam-se para o interior do continente, onde ainda havia alimento, escasso, mas havia.
Seguia-se a vida, passavam-se as eras. Um dia, igual a tantos outros que viriam, mas diferente de todos que já passaram, um deles, numa de suas andanças, encontra seres como ele. “Como” pois não eram iguais, não. Havia diferenças, sutis. Algo na estatura e na constituição, um tom no olhar, algo assim. Teve medo, ocultou-se atrás de uma rocha. Mas o outro havia percebido a sua presença.
Ele se aproximou, lenta e cautelosamente. O primeiro ficou estático, sem reação. Não sabia como reagir. Atacar? Fugir? As conseqüências de ambas atitudes eram por demais complexas para a sua mente. Mas ele entendia que havia conseqüências. Graças ao outro, surgia ali o que viria a ser chamado de “consciência”.
O outro levantou a mão, e deixou cair na mão semi-aberta dele um pequeno objeto. Não passava de um círculo pequeno, feito de algum material branco e resistente, embora não muito. Possuía um furo no meio, e ao primeiro olhar, ele percebera que aquilo era diferente de tudo que já vira. Havia algo que estava presente naquilo, algo que denotava a sua “não natureza”. Sabia de modo inato que aquilo não poderia ser encontrado no habitat como estava ali.
Sem grunhir ou fazer mais nada, os dois deram as costas e foram cada um para o seu lado.


Era o inverno, e a escassez de alimentos atingia a tribo severamente. Os animais vinham mudando de comportamento, e já se tornava extremamente difícil conseguir alimento. Não sabiam se iam sobreviver àquela temporada. Ao longe, um deles avista algo se aproximando do lugar onde se abrigavam.
Eram três sombras, um pouco maiores que um deles seria, mas, por algum motivo, não podiam deixar de pensar que era um igual. Quando chegaram mais perto, viu-se que o tamanho extra devia-se as duas pesadas trouxas que carregavam, cada um, nas costas. Eles pararam, e pousaram-nas no chão, revelando uma incrível fartura de alimentos. Alguns olharam ansiosos para aquilo, outros com desconfiança e medo, vários com raiva.
Mas o que reconhecia um dos recém chegados soltou um som alto e grave eliminando a ansiedade de seus iguais. Aproximou-se daquele que reconhecera, e balançou a cabeça. “Linguagem”. Então, pegou o objeto que ele entregara, meses atrás, embora nem os meses existissem ainda, e que estava cuidadosamente guardado. Pousou-o na mão semi-aberta daquele que agora podia entender, mas não ainda chamar, como “amigo”. O outro compreendeu, e junto com os seus virou-se e saiu dali.
“Sociedade”. “Humanidade”. “Filosofia”. “Ciência”. “Estudo”. “Conhecimento”. “Idéias”. “Palavras”. Mas antes, um simples “Sentimento”.



Parabéns a Augusto Tavares, vencedor da III Competição Literária do Sarau. Parabéns também aos demais competidores!

segunda-feira, 16 de junho de 2008

De areia

Província portuguesa e uma casa simples, hereditária, de cor pastel e muro baixo. Era a representação mística da harmonia daquele casal. História conhecida e, supostamente, apagada.
Uma mesa bem posta, redonda, no meio da enorme sala e o seu desejo pelo mistério. Há dias suas palavras eram monossilábicas, respondia o que achava necessário. Seus olhos fitavam letras bem desenhadas e um papel um pouco amarelado. Precisava guardar tudo, as folhas de papel, o cheiro, a essência que restou da existência. Apenas e sempre, as palavras tão mais importantes nesse momento. Mundo mágico, violento e prazeroso.
- O que tanto olhas nesses cadernos velhos de tua bisavó, João Antônio? – indagou a mãe curiosa.
- Palavras. - ele responde com indiferença.
- Que palavras, menino? Preciso que desocupe esta sala.
-Mas... – ele a olha indeciso e exalando clamor para permanecer onde estava.
- O quê, João Antônio?
-Preciso do quadro.
-E que importa para ti, esse quadro? Não estás lendo? Estás a me enganar.
-Não.
-Seja mais claro, filho. – Estando agora tão mais indecisa que o pequeno filho.
- Minha mãe, não vês este quadro? Tão levemente pincelado e cheio de história. Esse casal, a praça que já não existe, no fundo a nossa casa.
Indiferente, a mãe responde:
- Sim, João, não há nada de impressionante nessa pintura.
-Perceba as cores, o fundo é incrível e a figura também; Sem falar nas palavras que estão aí sem que possamos ver.
Como quem não entende nada ela faz um sinal negativo com o rosto. Sabia que seu filho tinha um gosto excêntrico, João Antônio em si era um mistério por ser tão monossilábico e, aproveitando-se do momento pediu que continuasse.
- É a sua avó, mãe. E esse que está ao seu lado não é seu avô, mas sim um general que ela conheceu no período da Segunda Grande Guerra, eles namoraram alguns meses e a figura deles foi esquecida.
Aquela senhora nada entendia, não sabia o que havia se passado por entre as parreiras enquanto o mundo estava em guerra, dois corações pareciam em paz, às escondidas, cartas de saudade, beijos de adeus.
- Pois, meu filho, como soubeste?
- É, minha mãe, como as memórias são finas, como um pó que escapa a nossas mãos, imperceptivelmente; e olhando para esse mar salgado é que eu te digo como as palavras são fortes, tão fortes que eu não te direi mais nada.

Ingrid Brasilino
Esse foi o conto vencedor da II Competição Literária do Sarau. Parabéns à autora e aos demais competidores!
Terceira edição da Competição Literária do Sarau em breve!

domingo, 1 de junho de 2008

Julgamento

“Afinal, o que eu estou fazendo aqui?”
O senhor era austero, gentil, bem vestido. Ar de quem sabia muito. Além disso, era bonito e rico. Ela? Uma moça de uma família de comerciantes. Não possuía dinheiro suficiente para ser rica, nem beleza o bastante para ser cobiçada. Alguns minutos de conversa, palavras complexas, agradáveis aos ouvidos. Ela aceitou um café. Por que não? Estavam num pequeno estabelecimento, discreto, e aqueles não eram mais outros tempos, onde uma moça e um homem sozinhos seriam mal-vistos. Mas havia algo estranho.
- Bem, como eu ia dizendo, o livro de Sir James George Frazer... – Ela pigarreou, sem saber bem o que fazia. Estava inquieta, e olhou fixamente para o homem.
- Hm... Senhor... – Agora que tinha começado, as palavras pareciam fugir-lhe a boca. Mas abanou a cabeça e decidiu ir em frente.
- Eu gostaria de saber quais são as suas intenções me trazendo para cá. – Ele pareceu surpreso com a pergunta, mas apenas pareceu, ela não podia confirmar sinceridade ali.
- Como assim, senhorita? Eu apenas quero conversar... – Ela levantou uma sobrancelha.
- E em que existência você pensa que eu vou acreditar que um homem quer “apenas conversar”? – Ele riu.
- Ah, mas eu quero apenas conversar. Embora, se você pensar bem, conversar jamais seja “apenas”. Conversas mudam vidas, sabia? – Ela relaxou um pouco, pelo modo incisivo como ele falou, talvez esse tenha sido o seu erro.
- E sobre o que você quer falar?
- É um passatempo meu passar a cultura adiante para os jovens. Veja bem, este quadro, atrás de você... – Ela se virou quase que instantaneamente, para se deparar com um enorme quadro em uma moldura dourada. Predominantemente composto de tons escuros, ele representava vários indivíduos sentados em volta de uma mesa. Sentiu arrepios, ao perceber que não o vira mesmo antes de sentar ali. – Ele representa uma passagem muito interessante.
- E qual seria?
- Antigamente, quando não havia liberdade como hoje, era comum a criação de ordens secretas. Sociedades de pessoas com interesses em comum, que se encontravam na calada da noite, para trabalhar em prol de seus objetivos.
- Esta era uma deles?
- Sim, era. Uma muito interessante, por sinal. – Ela inclinou-se um pouco para frente, curiosa.
- Eles possuíam um código moral e ético muito rígido. Mas o engraçado é que os membros não eram obrigados a cumpri-lo. Não, eles o usavam para julgar. Mesmo perante a mais leve suspeita de que uma pessoa estava de algum modo ferindo o seu código, seqüestravam-na e a levavam a julgamento.
- Como assim?
- Simples, eles sentavam-se numa mesa, junto com o indivíduo a ser julgado. Só que é uma piada falar nesses termos. O julgamento era sumário, ninguém escapava.
- E o que eles faziam quando consideravam alguém culpado?
- Torturavam por horas e horas a fio, e depois tocavam fogo, ou enforcavam.
- Mas isso não faz o menor sentido, senhor. Eles inventaram algo que não seguiam, mas julgavam e matavam os outros por isso?
- Resumindo, é.
- Mas... Por quê?
- Isso não é fácil de responder. Talvez fosse uma maneira de zombarem dos outros, mostrando como a bondade é na verdade inexistente, e aqueles que tentam segui-la cegamente não passam de iludidos sendo conduzidos ao abatedouro. – Nessa última sentença, o tom dele mudara em algo. Antes, parecia um professor lecionando uma matéria qualquer, agora, era mais complexo, mais profundo. Ele parecia se importar mais com o que falava.
Ela não percebeu que alguns outros homens sentaram-se à mesa. Um a um. Ela estava entretida demais com o homem que a levara ali.
- E quanto tempo faz que isso acontecia?
- Tempo é algo relativo, querida. Muito ou pouco, depende de como você encarar os fatos.
- Você poderia me contar mais alguns detalhes sobre eles?
- Bem, normalmente, os encontros sucediam-se em locais na penumbra, e a maioria dos membros da confraria já possuía alguma idade. – Ele parou um pouco. Foi o suficiente para que o encantamento dela por ele terminasse. Ela percebeu os demais indivíduos sentados à mesa. Senhores, bem vestidos, respeitáveis. Contou rapidamente o seu número e viu...
- Se você pesquisar bem, verá que eles se reuniam em um número específico. Claro, a vítima acrescentava mais um. – Ela escutou isso, e ficou estática. Não entrou em pânico, ousou apenas olhar aquele que a trouxera ali. A atenção de todos à mesa se concentrava nela. Não fez nenhum movimento no intuito de levantar-se. Tinha escutado um clique na porta quando entraram, mas não prestara atenção. Outro erro.
A essa altura, o homem já sorria, e perguntou, com toda a ironia que podia na voz:
- Querida, poderia me fazer um favor?
- O que seria? – A voz era trêmula, amedrontada.
- Poderia contar quantas pessoas estão representadas no quadro atrás de você?
Já sabendo o que a esperava, virou-se e contou rapidamente. Lógico que o resultado era igual ao outro que vira ainda pouco.
- São doze homens, sentados, e, além disso... – Uma jovem de cabelos castanhos e vestido azul, como ela.
- Treze, e em círculo.
Augusto Tavares
Esse foi o conto vencedor da I Competição Literária do Sarau. Parabéns ao autor!