segunda-feira, 16 de junho de 2008

De areia

Província portuguesa e uma casa simples, hereditária, de cor pastel e muro baixo. Era a representação mística da harmonia daquele casal. História conhecida e, supostamente, apagada.
Uma mesa bem posta, redonda, no meio da enorme sala e o seu desejo pelo mistério. Há dias suas palavras eram monossilábicas, respondia o que achava necessário. Seus olhos fitavam letras bem desenhadas e um papel um pouco amarelado. Precisava guardar tudo, as folhas de papel, o cheiro, a essência que restou da existência. Apenas e sempre, as palavras tão mais importantes nesse momento. Mundo mágico, violento e prazeroso.
- O que tanto olhas nesses cadernos velhos de tua bisavó, João Antônio? – indagou a mãe curiosa.
- Palavras. - ele responde com indiferença.
- Que palavras, menino? Preciso que desocupe esta sala.
-Mas... – ele a olha indeciso e exalando clamor para permanecer onde estava.
- O quê, João Antônio?
-Preciso do quadro.
-E que importa para ti, esse quadro? Não estás lendo? Estás a me enganar.
-Não.
-Seja mais claro, filho. – Estando agora tão mais indecisa que o pequeno filho.
- Minha mãe, não vês este quadro? Tão levemente pincelado e cheio de história. Esse casal, a praça que já não existe, no fundo a nossa casa.
Indiferente, a mãe responde:
- Sim, João, não há nada de impressionante nessa pintura.
-Perceba as cores, o fundo é incrível e a figura também; Sem falar nas palavras que estão aí sem que possamos ver.
Como quem não entende nada ela faz um sinal negativo com o rosto. Sabia que seu filho tinha um gosto excêntrico, João Antônio em si era um mistério por ser tão monossilábico e, aproveitando-se do momento pediu que continuasse.
- É a sua avó, mãe. E esse que está ao seu lado não é seu avô, mas sim um general que ela conheceu no período da Segunda Grande Guerra, eles namoraram alguns meses e a figura deles foi esquecida.
Aquela senhora nada entendia, não sabia o que havia se passado por entre as parreiras enquanto o mundo estava em guerra, dois corações pareciam em paz, às escondidas, cartas de saudade, beijos de adeus.
- Pois, meu filho, como soubeste?
- É, minha mãe, como as memórias são finas, como um pó que escapa a nossas mãos, imperceptivelmente; e olhando para esse mar salgado é que eu te digo como as palavras são fortes, tão fortes que eu não te direi mais nada.

Ingrid Brasilino
Esse foi o conto vencedor da II Competição Literária do Sarau. Parabéns à autora e aos demais competidores!
Terceira edição da Competição Literária do Sarau em breve!

Um comentário:

Engel disse...

Ii desu ne *-*