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sábado, 26 de setembro de 2009

Cotidiano [2]

Fui acordado mais pelo calor que pela claridade. Chutei um canto vazio da cama à procura de companhia. Não vi quando ela saíra, ou como se desprendera dos meus braços. Procurei sem grande entusiamo o celular para descobrir as horas. Estava por cima dos lençóis jogado, e havia nele uma mensagem: "Não quis te acordar, você está só em casa". Não parecia que estava. Todos aqueles clarões que se misturavam ao silêncio... e eu tinha o dia inteiro para encontrá-la entre eles. A melancolia me prendia ao passado imediato por um presente que me escapou aos sentidos.
Só acreditara no que tinha se passado e estava prestes a se passar quando, antes de desligar, dissera: "beijo" - e ela respondera. Não parecia que dormira na casa dela - ela, eu nem sabia direito quem.
Ela não me chamou, eu não me impus, mas ambos sabíamos que eu dormiria lá de novo. Cidade nova, fui fazer quaisquer outras coisas. Nem de turista. Fui andar - não totalmente sem rumo, estava na certeza de onde meus caminhos me levariam à noite. Apareci à porta. Ela me esperava. Chamou-me para dentro com o beijo que prometera ao telefone.
O turbilhão-de-tudo-novo da cidade grande me atordoava; o cansaço de dias que não viram uma noite me vencia. Meu estado, apesar de pouco álcool, era de ebriedade - mais moral e lírica que etílica. Não recordo de todos os detalhes. Mas a tatuagem que ela tinha e que tomava boa parte das costas... Me intrigava. Parecia se mexer quando ela se contorcia; parecia gritar junto com ela. Não sei como terminou, mas, numa hora, estávamos abraçados.
Ela dormia com os cabelos longos sobre meu rosto, tomando meus olhos e minhas narinas. Me viro e tateio a mesa de cabeceira em busca de algo - qualquer coisa, já que não queria nada. Acho e puxo um livro. Depois os óculos; leio algo sobre a teoria da relatividade - sorri pensando que aquilo tudo estava há muito no passado para mim. O tempo alternava entre se arrastar e correr - sem lógica, sem padrão, sem ampulheta, sem observador: eu havia voltado a dormir.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Conversa com deus [5]

- Eu sou o maior megalômano do mundo!
- Oi, Deus.
- Não vi você chegando, MEU filho.
- Não vejo grau de parentesco.
- Eu sou possessivo.
- Achei que tinha megalomania.
- Eu sou o homem mais possessivo do mundo!
- Homem?
- Deus. Mas é que não faria sentido falar no deus mais possessivo de todos.
- Nem Alá?
- Ele dá 72 virgens.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Covinhas

- Como na primeira vez em que nos encontramos.
- No aniversário de Carlos?
- É. Você estava sentado e ele te chamou para te apresentar a mim, e, quando você virou a cabeça para cima, sei lá, teu cabelo “coisou” bem rápido.
- Então você gostou disso?
- Acho que sim.
- É algum tipo de charme. Vou acrescentar à lista.
- Não seja convencido.
- Calma, linda. Foi você quem falou.
- Linda, é? Continue.
- Foi assim que eu te ganhei?
- E desde quando você acha que me ganhou?
- Desde ontem à noite.
- Não conta. Eu tinha bebido.
- Bebeu porque quis.
- Se lembro direito, você me pagou seis doses e outras coisas.
- Mas foi porque você me ganhou.
- Nem tínhamos conversado direito.
- É que tem essa cova.
- Como?
- Você. Essa cova. Aí. É, aí, no cantinho da boca. Dos dois lados.
- Que tem?
- É muito charmoso.
- Você acha?
- Demais. É bonito e charmoso.
- Hmm.
- Instigante.
- Mesmo?
- Claro. Aceita um drink?
- Por favor.
- Aqui. Bom... Você, por acaso... Não teria mais nenhuma, né?
- Nenhuma o quê?
- Cova.
- Fale no diminutivo. Soa menos mal.
- Covinha?
- É.
- Que seja. Você não teria nenhuma, né?
- Fora essa?
- Sim.
- Talvez.
- Posso ver? Antes, quer aceita outra dose?
- Quero sim. E eu não falei que tenho. Só que talvez tenha.
- Onde?
- A covinha?
- A cova. Onde fica?
- Outra dose e eu mostro.
- Onde? Nas costas?
- No banheiro.

domingo, 2 de agosto de 2009

Sétimo dia


Mentiu quem disse que o sábado era o sétimo dia e foi tolo quem acreditou. Alguém precisava, afinal, justificar o fato de um primeiro dia se chamar “segunda”. Ou podem ser culpadas por isso as trevas de um espírito preso. O domingo costuma ser um dia essencialmente contemplativo. Esse dia fatídico, que não parece se diferir de outro qualquer além do fato de preceder um dia de trabalho e não ser, a priori, um dia para labutar, está cercado de certa mística impossível de desvendar. Nesse dia, os espíritos livres, as almas de papel e os cérebros de esponja estão perturbados ou constrangidos por força indescritível. E isso vem de muito longe. No sétimo dia, um domingo não diferente do de hoje, deus, depois de desistir de uma pedra grande demais, sentou sobre um banco em frente ao mar. Abriu os olhos e contemplou o mundo, a absorvê-lo na mais magnânima e sinestésica apreciação estética. E então chorou: havia criado um mundo que unia, sem paradoxos, uma contradição: beleza e dor. E o que fizera não tinha mais como desfazer.


terça-feira, 28 de julho de 2009

Pontos de vista

Seu Silva tinha muitos amigos naquela pracinha. Conheciam-se há algum tempo, isto é, desde suas aposentadorias, quando se tornou possível freqüentar a pacata e decadente praça naquele antigo bairro próximo da praia. Lá, faziam coisas da idade: jogavam damas, conversavam potoca. Contavam as histórias das maiores aventuras passadas ou sofridas na juventude, de como eram sagazes e escapavam, muitas vezes, ilesos. Bebiam ocasionalmente uma cervejinha - Seu Ferreira lembra que, para quem trabalhou 40 anos e um dia pára, todo dia parece sexta-feira. Olhavam as moças novas passarem e não deixavam de fazer suas gracinhas e estrupulias para chamar atenção e, quem sabe, ganhar um olhar ou piscadela. Isso e tudo o mais, faziam-no para evitar pensar ou reconhecer que envelheciam. Mesmo com as marcas no rosto, mesmo com os costumes e roupas que mantinham - ninguém era tão vaidoso assim. Seu Barbosa fazia questão de pagar passagem inteira no ônibus; Seu Almir jura que nunca pagou meia entrada no cinema; Seu Antônio ia no bar e discutia com quem não acreditava quando ele alegava ter só 54. Diziam que, assim, não se sentiam velhos, e se misturavam às pessoas maduras alguns anos mais novas. Bobagem, pensava Seu Silva. Há anos ele se locomovia de graça em transporte público, que pagava meia entrada no cinema ou 50% das diárias de hotéis - mesmo antes de completar a idade permitida para tanto. Assim, dizia ele, pensava voltar à tenra época em que era estudante e o mundo se abria em oportunidades e conhecimento. Achava que era mais feliz assim.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Moedinhas



Algumas pessoas que me conhecem meio de longe costumam me chamar de Moedinha. Ganhei o apelido quando tive a oportunidade de assistir um vídeo que mudou minha vida. Ele chamava atenção para tudo que me impedia de progredir nesse mundo e que estava ali, na minha frente, esperando para ser visto. Hoje eu trabalho no caixa de uma enorme rede de supermercados. Esta é minha primeira nota antes de ficar rico e famoso; faço-a como um lembrete de todos os meus passos, para que as gerações futuras tenham no que se inspirar.
O vídeo que eu assisti falava sobre a importância das moedas. Porque guardá-las, porque não as guardar por tempo demais. Como a moeda é importante no dia-a-dia das pessoas. Distribuíram também um planfeto falando sobre os custos de produção de moeda que me arregalou os olhos.



Um centavo custava 9 centavos? Cinco centavos custavam 12? Tinha algum erro de cálculo sim. E essas moedas circulavam. Trabalhando no comércio, já vi de 1 centavo circulando por aí. Comecei a trabalhar e fui percebendo que as lojas, especialmente o supermercado onde eu trabalhava, sempre fazia anúncios de promoções que terminavam com 99, e às vezes, 95 centavos. Os clientes compravam muita coisa e nem reparavam na nota da feira. Tomavam 5,99 por 6,00. Eu também já acreditei nisso. Os clientes não fazem questão desse 1 centavo; esse dinheiro também não é da loja, não consta no preço. Preferi achar que cada centavo adquirido desse modo era uma bonificação pelo meu trabalho. De fato, fui eleito funcionário do mês desde que comecei a trabalhar aqui. Minha teoria funcionava bem. Os clientes não ligavam se eu fechava a conta com os centavos arrendondados para mais; se eu dizia não ter troco. Só queriam sair dali e entupir as artérias. Eu pensava mais à frente. Nas transações a cartão, para "simplificar", eu também arredondava o cálculo. Um centavo pode não parecer muito; mas 10 centavos já compram um chiclete. A cada 100 transações eu tenho um real. Mil transações, 10 reais. A dedução é lógica: a cada cem mil vendas, mil reais voltavam para mim!

Comecei a juntar meu dinheiro, e passei a perceber o quanto eu deixava de economizar com centavos nas compras que eu fazia. A solução não tardou a vir: andava com moedas de todos os tamanhos nos bolsos, o tilintar suave de cada uma delas me fazia reconhecer o valor e o ano. Tornou-se, de longe, minha marca registrada. E já estava juntando valores que superavam meu salário em muitas vezes.

Promovi essas mudanças significativas na minha vida. Aos poucos, vou juntando. Quando obtiver meu primeiro milhão, vou chamar a imprensa e sair no Jornal Nacional. O Banco Central vai ligar querendo me contratar. Mas isso é o de menos. Meu grande plano começa aqui. Como ficarei nacionalmente conhecido, serei chamado para dar palestras em bancos, demais empresas, encontros, seminários, congressos. Exporei minha idéia inovadora e virarei fenômeno, provavelmente "o Imperador das Moedas", decerto como a mídia sensasionalista haverá de me chamar. Em seguida, escreverei um livro, cujo título já até escolhi: "Lidando Com Um Trilhão De Moedas". Eu vou aparecer na capa sentado num trono de moedas. O livro virará best-seller internacional e rapidamente receberei convites para palestras internacionais.

A essa altura, já terei juntado alguns bons milhões. Eu, então, fundarei uma empresa realmente grande. Todos os produtos que ela oferecer poderão ser adquiridos pela bagatela de um valor dois centavos abaixo de toda a concorrência. R$10,98, R$20,98, R$100,98... Será lucro dobrado. Aí é que eu vou ser rico de fato.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Paradoxo do bom sono

Que sono. Há anos que não durmo. Dormir, de repor as energias, renovar-se - preciso conferir se ainda lembro do significado. Alcançando o arquivo de minhas memórias relativas ao fato de dormir, para mim, mais luxo que necessidade ou hábito, lembro-me de que não havia melhor lugar no mundo que um colo aquecido pela paixão movendo o sangue. Não recordo a última vez que sonhei; gostaria de fazê-lo, mas não vejo como. Dadas as minhas condições, estar cercado de ligas gélidas de metal, o melhor que poderia fazer seria procurar um colo desses no sonho. Como, porém, sonhar, se não terei sono? Como ter o sono se não poderei sonhar com o que me levaria a ele? Fico, como ser imortal, na impaciência das Eras a refletir sobre o sono que tenho e o sonho que não terei.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Claustrofobia


Um dia, como de repente, deu-se conta de que tinha um campo de visão que abrangia 30 graus, assim estipulou. Pensou que, perante os trezentos e sessenta, poderia aumentar em 330º seu campo de visão, o que, ora, parecia, além de lógico, ótimo. Apenas em se questionar isso, notou ligeira diferença. Sorriu, meio sem acreditar. Assistindo o noticiário, duvidou de uma notícia que parecia absurda demais. Na manhã do dia seguinte, lembrou a si que não era preciso seguir o mesmo procedimento rotineiro: tomou café sem açúcar. Por que com açúcar? Não via resposta. Discordou dos procedimentos no trabalho – tudo aquilo poderia ser feito de outro modo. Ouviu um boato na hora do almoço e desacreditou. Quando notou significativo aumento da área ao alcance da vista, assimilou os fatos: era disso que falavam ao dizer “expandir os horizontes”; questionar o pré-estabelecido. E de fato via mais, e melhor – era conveniente trabalhar sem virar o rosto para olhar o relógio na parede um pouco à esquerda. Estava gostando. Chegou em casa, procurou aquele livro de contos enorme e velho, abriu-o e leu algo de Lucas: quem me prova que foi assim mesmo? A leitura proporcionou uma série de dúvidas, que procurou sanar nos livros. Passou a freqüentar bibliotecas, livrarias, sebos. Lia para ver que não era o único a duvidar, e como os outros faziam isso. A felicidade era iminente e os questionamentos, incontáveis. Devorou toda sorte de cultura... para vomitar tudo depois, mastigado e com aquele sabor acre. Aprendeu, ou melhor, quis aprender, mas se deparava cada vez mais com o desconhecido e o incerto. Lia mais, e terminava apreendendo mais interrogações. Haveria quem lhe dissesse ser a pergunta mais importante que a resposta; já tinha visão completa nessa altura, enxergando os 360 graus que desejava, o que está à frente e atrás, embora reconhecesse que frente e trás existissem unicamente com finalidades de facilitar a compreensão. Comparava o que antes via, clara diferenciação entre chão e horizonte, e agora, como se estivesse no centro de uma esfera; podia ver tudo, não era, porém, suficiente. Se visse mais, cria satisfazer às perguntas. Assim mergulhou e foi até onde não pôde. Sua visão transcendeu aos 360º, e passou a questionar a linha que separa seu chão e o horizonte; era tudo muito simples. A linha recuava a cada nova pergunta. Mas era tudo tão óbvio! Que se pode provar? Que se pode dizer? Novas dimensões, mais espaço – menos espaço ao seu redor. Tudo traria uma interrogação em sua semente, bastava achá-la e reduzir a coisa germinada a espaço vazio a ser tragado pelo que julgava ser um desconhecimento esclarecido, que é ser tragado a admitir o não-saber depois de buscar o saber. Assim, quase tudo foi engolido. Refém, numa ilha envolta por nada, da própria pretensão de liberdade; enclausurado pelo horizonte da dúvida expandindo ao infinito, prestes a engolir seu criador. Imprensado nas paredes – por sinal, muito sólidas – da incerteza, cometeu a ironia de perguntar se antigamente realmente via só os trinta graus que calculara.

sábado, 29 de novembro de 2008

Nirvana


Andando na rua com seus próprios pensamentos, idéias, concepções, verdades, alguém esbarra no braço dele. Seus sentidos, agora aguçados, voltam-se para ver, e, durante alguns segundos, focam somente nisso. Ele crê que voltou a si. Mas não. Até aquele momento, ela era a si próprio e tudo - do asfalto ao horizonte. De repente, não mais. O choque nos seus sentidos o faz perceber algo além - aquilo que não é ele próprio; é o outro. Agora, assim, de repente, um mundo bipolar. A obrigação de reconhecer-se pisando no reino alheio - ainda que assim não fosse sua vontade. Dividir o poder do universo com o outro... é provocativo. O esbarrão foi claro. Surge uma terceira força, que mais parecia sempre ter existido: medos concorrentes. Sem asfalto, sem horizonte, o outro delimita o seu próprio poder de ser - funciona como a pele que antes não havia e que permitia a suas vísceras transitar livremente pelo espaço - como se antes houvesse espaço, se ele todo sempre fora ele mesmo. Neste instante, com pele, ele viu-se pelado e desenvolveu pêlos que filtrariam tudo o que chegaria às membranas, de modo a que o mundo externo, definido pelo que ele não é, não o fira. Ele deseja voltar a ser e estar em tudo, o deus em si mesmo. Ele procura o outro e o acha à sua frente. Atravessa-o com suas garras, a dilacerá-lo. Como uma hidra, ganha outra cabeça. Em desespero, sucessivos cortes geram cabeças sucessivas. O asfalto ganha várias formas, várias curvas. E ele passa a viver enclausurado em sua condição de solidão - que só existe quando há por quem se sentir só - e medo - de ter seu espaço novamente tomado - e a sonhar com o dia em que poderá reconhecer que são todas as faces uma só. E que todas estão nele próprio. A pele dele então rasgaria e ele voltaria a ser o horizonte e o asfalto.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Aviãozinho

Vivi ali uma vida livre, indispensável para formar o temperamento e o gosto pela aventura. Desde a infância eu tinha uma grande queda por coisas mecânicas e, como todos os que possuem ou pensam possuir uma vocação, eu cultivava a minha com cuidado e paixão. Eu sempre brincava de imaginar e construir pequenos engenhos mecânicos, que me distraíam e me valiam grande consideração na família. Minha maior alegria era me ocupar das instalações mecânicas de meu pai. Esse era o meu departamento, o que me deixava muito orgulhoso.
Ainda pequeno, lembro que era fastioso.
- Alberto, você não vai almoçar?
- Não quero!
- Coma, meu filho. Seu prato já está feito.
- Mas eu não quero!
- Então abre a boca, lá vai o aviãozinho...
Foi aí que eu comecei a pensar num.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Erro


Era uma vez uma pessoa. Aliás, algumas pessoas. Depois de muito tempo morando juntos, reconheceram-se como grupo. Depois de muito tempo como grupo, observeram algumas semelhanças entre si e passaram a se auto-denominar sociedade. Assim feito, perceberam que faltava um líder. Um homem como os outros da multidão virou para seu próximo e falou:

- Que tal uma teocracia?

- Boto fé.

- Obrigado.

Levantou a mão e disse a todos que tinha visto uma luz. Uma luz que chegou somente pra ele. Estava óbvio que era o Escolhido. Instituiu leis naturais e divinas, o que é bom e ruim. Muitos anos assim passaram. Ele foi feliz para sempre. Os outros, nem tanto. Só muitos anos depois, a sociedade se sentiu distante dos líderes que a guiavam; precisavam de um líder novo. Um homem como os outros da multidão virou para seu próximo e falou:

- Que tal a gente ir pro campo?

- Vamos plantar essa idéia.

Levantou a mão e semeou a mente de todos com belas melodias, poesia e várias invocações de fugere urbem, e é bom fugir mesmo, porque os bárbaros vêm aí. Estava óbvio que era o mais Belo. Ele e o que concordou com ele. Cada um instituiu regras de convivência e etiqueta, roupas elegantes e feias, mas manteve o esqueleto do poder anterior. Ambos diviriam a terra e o povo, que, no final das contas, era uma coisa só. Muitos anos assim passaram. Eles foram felizes pra sempre. Os outros, nem tanto. Só muitos anos depois, alguns que estavam distantes dos líderes julgaram precisar de um líder novo. Um homem como os outros da multidão virou para o seu próximo e falou:

- Que tal a gente ter poder?

- Pode ser.

Levantou a mão e pôs no coração de todos seus motivos. Eram motivos sinceros - para ele mesmo. Estava óbvio que ele era o mais Sábio. Foi eleito presidente. Instituiu leis, taxas, nomes bonitos, unificou a população separada, mas separou três poderes e manteve o esqueleto do poder anterior. Cada poder tinha uma função. Muitos anos assim passaram. Mas os poderes foram enfrequecendo ou ganhando poder demais, não se sabe. Certo é que não funcionavam. Criaram um quarto poder, o moderador. Não tardou a surgir também o mediador. Depois o efetivador e o cumpridor. E o compridor. Com o tempo, eram tantos poderes que não havia poder nenhum. A sociedade faliu. Aliás, a sociedade não. O guia. Cada parte da sociedade recolheu o que lhe pertencia e resolveu ir para seu lado, enfim.

Era mais uma vez uma pessoa. Aliás, algumas pessoas. Depois de muito tempo morando juntos, reconheceram-se como grupo. Depois de muito tempo como grupo, observeram algumas semelhanças entre si e passaram a se auto-denominar sociedade. Todos se entreolharam. Alguém quis levantar a mão. Foi espacando pelos outros. Assim feito, só assim feito, haviam entedido. Ninguém comete o mesmo erro tantas vezes.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Lógica circular

Uns dias depois da última conversa com Deus, o homem volta aos aposentos divinos e encontra Deus tricotando.
- Então, Deus, eu realmenta não sabia que você fazia tricô.
- Sabia sim. Eu contei como segredo pra você quando você tinha 3 anos. Ademais, toda a eternidade sem muita coisa pra fazer...
- Então o verbo certo era "lembrar".
- Não. O verbo era o princípio, e o princípio era Eu; logo, "Eu Deus, Tu Deus, Ele...".
- Mas, até onde sei, você nem existe.
- É pra isso que eu sou onisciente e você não.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

War




Em meio a uma trincheira, dois soldados jovens corriam. Ramirez e Olsen eram os seus nomes. Explosões arremessavam fragmentos em todas as direções, por vezes a poucos centímetros dos seus rostos. O espaço acima da fenda onde estavam tremulava, com um enxame de projetéis deslocando-se para levar sua mensagem de morte.
Uma granada explodiu perto dos dois, que saíram rolando. Olsen estava sangrando na perna, algo grave. Os dois se olharam, então, Ramirez perguntou:
- Olsen, por que estamos lutando mesmo?
- Sei lá.

terça-feira, 30 de setembro de 2008

A busca




As mais altas hierarquias dos poderes estadunidenses, juntas, declaram estado de emergência. Reunião com autoridades de vários setores privados e públicos do país e representantes de todo canto do mundo a portas fechadas. A imprensa não teve acesso ao conteúdo e foi recomendada a tentar abafar o caso. Não foi possível. No mesmo dia, foram convocadas CIA, FIB, SWAT, Scotland Yard, FBS, DGSE, BOPE e quem mais estivesse disponível a salvar a humanidade. Informação vazada dizia que a todas tinha sido encomendada uma busca; não deixava de ter um certo tom de ironia ou mesmo de piada de mau-gosto, mas, aparentemente, estavam todos à busca de uma mão invisível. Reviraram Wall Street de cabeça para baixo. Derrubaram alguns prédios, prenderam algumas pessoas. No resto do mundo, insegurança e medo. Mas, de mão, nada. Muitos outros prédios e pessoas caíram. Defunto há 125 anos, um senhor de barba assiste a tudo e ri. A mão que procuravam só foi achada muitos anos depois, silenciosa, nalgum lugar próximo à realidade pouco especulativa da Grande Muralha.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Alguma vez na Rússia


Num dia que parecia igual a qualquer outro do ano de 1991, o presidente levantou-se da cama. Como de costume, olhou o relógio e bebeu uma taça e um quarto de champanhe. Abotoou o pijama. Tomou mais uns goles. Expulsou com um peteleco a aranha gigante cor-de-rosa que subia em seu ombro, bocejou, tomou mais um gole e dirigiu-se ao local mais próximo que lhe permitesse ver a rua. Suspirou. Olhou o relógio. Deu um passo para trás, pigarreou, e jogou o corpo ligeiramente para frente, aproximando-se do parapeito, e gritou: "A partir de hoje, meu país será capitalista!". Deu meia-volta. Vestiu a roupa presidencial de frio intenso e entrou no veículo presidencial. "Olhe", falou para o chofer presidencial. "Aqui está". Pediu que o homem estendesse uma das mãos, abriu-a e lá deixou um rublo, fechando-a em seguida. "A partir de hoje, você é um empregado, parabéns. Este é seu salário".

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

A vida do homem-carrinho


A luz é obnubilada pela sujeira grafite. O concreto, com sua aspereza máxima, reflete mais concreto como uma sala de espelhos grotesca que tenta inutilmente mostrar uma prosperidade que não existe. No meio disso, meio que perdido, há um homem e um carrinho; fundidos num só, o homem-carrinho que encontramos aleatoriamente disposto entre paredões, veículos selvagens e cardumes de gente, espreme-se por oxigênio. Mas o homem-carrinho só pode ser pequeno demais, já que consegue escapar de Mão Enorme - ainda assim, muitos o vêem. Tudo controlando com mão de ferro, Mão Enorme possui dedos extremamente compridos que fazem cumprir Sua vontade - ainda assim, o homem-carrinho passa por entre eles. O homem-carrinho não segue as vontades; ele simplesmente é e simplesmente faz como se não existissem; Mão Enorme acaba com milhares como ele, mas não com ele, não agora. Mão Enorme nunca verdadeiramente conseguirá alcançar todos, e a vida do homem-carrinho - com suas práticas e a de outros como ele, fura e deixará sangrar até a morte os quase-tentáculos de Mão Enorme, o que certamente levará tempo demais, além da vida desse homem-carrinho. Outra coisa poderia ser feita - deixar-se acolher pela frialdade da palma, por exemplo; mas o homem-carrinho, com um um sorriso estampado na face que ele remove à medida que o dia cai junto com o suor, está no lugar de sempre: lá se vende um pouquinho de anarquia a cada mordida (ou somente um sujo e saboroso cachorro-quente).

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Scattered

Olha, meu caro senhor, desculpe incomodar, mas o senhor tá vendo aquelas caixas ali? Não? Elas estão lá. Parece que só eu as vejo mesmo. Noutro dia eu tava atravessando a ponte, olhei pro horizonte e vi uma caixa. Assim, meio branca, transparente, dava pra ver o conteúdo, que me parecia colorido. Então eu fui pra caixa e vi outro trabalho. Cheguei em caixa, casa. Olhava para a varanda da minha sala-quarto-cozinha no primeiro andar do prédio e tudo o que via eram caixas. Caixas pra todo lado. Se empilhando, ou jogadas, de cabeça pra baixo. Perguntei a todos que via - quando minha vista me permitia alternar visões de caixas - de onde vinham, porque lá estavam. Mas todos diziam que eu só podia estar louco. Hoje não discordo. Deixe-me agora pagar a conta a esse gentil homem-caixa. Preciso ir. Sim, depois eu entendi. Essas caixas, meu bom bêbado, são as em que, toda noite, involuntariamente, deposito a saudade que acumulo de cada dia - em todo último minuto da noite e todo primeiro minuto da manhã elas me escorrem dos olhos e caem, espalhadas e espatifadas, em qualquer lugar. Eu que falo sou caixa aberta do meu eu hoje que pranteia até momentos que não foram, foram, mas não foram, e também que hão de ser.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Pedaços

O deputado Doutor Feliciano Octávio Augusto da Cunha Menezes Alves Segundo havia desaparecido há 14 horas. Testemunhas alegam tê-lo visto sendo seqüestrado por um sujeito descrito apenas como engraçado ou diferente, que o colocara num Opala enferrujado. O motivo aparente era perseguição política. Havia se iniciado uma pesada operação policial encarregada pela procura do deputado Doutor Feliciano Octávio Augusto da Cunha Menezes Alves Segundo. Eis que senão, de madrugada, já nas saídas da cidade, uma patrulha pára um Opala velho como o descrito. O encarregado se aproxima do vidro do carro, forçado a parar, acende a lanterna e olha para o motorista. Bigode mal-feito, cabelos esbranquiçados, rosto fino e muito descuido.
- Boa noite.
- Boa, seu policial.
- Esse carro é seu?
- É sim, senhor.
O policial iluminou o espaço atrás, que era coberto com alguns mantos igualmente velhos.
- Tá transportando o quê?
- É fruta.
- Fruta? Uma hora dessas?
Fez que iria investigar para testar o homem, que prontamente se mostrou contrário e nervoso.
- Qu'é que o senhor vai fazer?
- Vou abrir a porta de trás do carro.
Ele saiu do carro. Encarou o policial. Pôs as mãos no bolso. Tentou impedir que a porta de trás fosse aberta posicionando seu corpo em frente ao trinco enquanto conversava. O guarda o afastou e abriu a porta.
- Encoste as mãos no carro e não se mova.
Foi levemente retirando os panos. Retirou o primeiro trapo devagar. Uma caixa de isopor velha. Abriu-a. Surpreendeu-se ao achar nada mais que morangos. Morangos? Recolocou no lugar a caixa. Puxou outro dos panos a esconder o volume. Uma caixa de madeira mal fechada. Abriu-a. Já não tão surpreso, encontrou bananas. Outro pano; outra caixa: laranjas. Pano; caixa: maçãs. O homem ria. Puxou rapidamente um pano e retirou mais uma caixa, arremessando-a, irritado, para fora do carro. Foi verificar o conteúdo. Acerolas, que fez questão de pisotear. Droga! Nem drogas? Tirou os tapetes, arrancou parte do estofado, molas, a mala, espaços dentro do motor, a roda. Nem maconha? Nem importados ilegais? Procurou em cada canto que pôde. Até no homem. Ele ria, ria freneticamente, um riso que alternava entre agudo e grave numa composição verdeiramente incomum.
Não podia ser. Por que ele ria? Por que se recusara a cooperar se não escondia nada? Provou as frutas. Não eram frescas, mas também não aparentavam portar contaminação. Checou a documentação, a identidade, a placa; nenhum problema que poderia culpar o senhor que coçava a barba grande que reunia um histórico de várias refeições. Não era o melhor sujeito, mas não podia ser dito um sujeito errado. Deixou que o homem tirasse as mãos do carro. Alinhou-o, coluna e pescoço, e olhou com um ar da insatisfação do médico que diagnostica errado. Recuou um pouco e, com mais vontade que força, atingiu na barriga o homem, que cambaleou, e depois chutou-lhe as pernas, para que caísse.
Os outros guardas observaram à toda a cena impassíveis. O homem cuspiu sangue e, com um sorriso amarelado, acendeu um cigarro, reuniu o que havia para ser reunido daquilo que ele transportava, subiu no carro e foi embora.
O deputado Doutor Feliciano Octávio Augusto da Cunha Menezes Alves Segundo continuou sumido. Acontece que o policial era normal demais. Acontece que ninguém acredita mais no poder de essência de frutas e serras de osso. Acontece que hoje ninguém mais acredita no poder de um bom feiticeiro, cuja praticidade faz lembrar, ainda que distante, um pouco do Magaiver que reside em toda coisa inusitada de pessoas inventivas. E o homem ri até hoje lembrando da cena.

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Cute Orc Story



The village was burning down. The Horde had succeeded. One of the Orc warriors had been watching that little girl for quite a while - maybe thirty seconds or a little less. He decides to approach, but notices a fellow of his getting closer to her.
- ====>. (I call dibs)
- URH? (Are you calling dibs?)
- ROAAAAR! (I wanna fuck 'er.)
- ROOOOOOAR? (To kill?)
- ROAAAAAAR! (To fuck!)
(Five, maybe six seconds later.)
- UAAAAARHHHHHHHHHH! (Shit! You killed 'er before I fucked!) **
- WROOOOOOOORRRLL! *

*Since we are sure there is no kind of apologizing in Orc idioms, we believe that was not any kind of "my bad", but some sort of expression without perfect translation and probably very offensive.

** A mistranslation is possible in the sense that he might have said "O shit! Now I gotta fuck 'er dead".

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Dois pés esquerdos


Limpei meus pés no carpete e fui dançar com a dama de vermelho. Neste dia eu fiquei com dois pés esquerdos; neste dia, então, eu tomei partido. Hoje, já velho, perdi um pé e a visão do vestido vermelho decotado. Definitivamente vou sair do partido.