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segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Sentir, essência do sentido

Na agonia da existência,
faculta devotar-se
- à capacidade de sentir
e apreciar as sensações.

No inexorável passar do tempo,
a memória aquece o sentido longíquo.
Não é impossível poder
sentir latente controle da realidade
apreensível.

No vórtex de impressões
- que traga a estados contemplativos -
Cabe destruir os meios e sentir,
ou recriá-los para o mesmo fim,
seja no particular
ou no todo.

Expressar é provocar a uma resposta,
que será entendida como estímulo.
Forma um ciclo:
começa e termina na auto-ampliação do sentir
- parece ser essa a ilógica do sentido, causa-em-si.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Nu colo

Ah!, simplesmente um dia

Sem tempos!
Em que não se tivesse que,

Não precisasse nem devesse.
Um dia em que simplesmente se pudesse.

Eu simplesmente estaria na sua casa até tarde - se tarde é sempre
Só deitado no
Seu colo
Adormecendo

A contar as estrelas dos céus olhos.

domingo, 17 de agosto de 2008

Conclusão Lógica

Veja veja veja veja veja
Al veja al veja al veja al veja
Em veja em veja em veja em veja
Inveja
veja veja inveja
Me veja veja veja me
A vej a vej a vej a vej
Ru inveja ru inveja ru inveja
Inveja de ru inveja
Veja ruim.

(Se até a poesia concreta demonstra...)

quarta-feira, 16 de julho de 2008

A piscina do Palácio da Alvorada

Muito grande e bonita, um azulão:
Um pulo na água, outro na prisão.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Ouro de Tolo


Tudo que tu tocas se faz pó
Se pó feito, vai varrendo o vento
E a vida.
Teu toque tempestuoso, Midas
Desintegra sem discernimento
Faz-te só.

segunda-feira, 16 de julho de 2007

Análise filosófico-literária de Chiclete com Banana


Quiçá o título já seja suficientemente auto-explicativo e intrigante, resolvi ser democrático e agradar a todos os gostos. Aqueles que gostam de submúsicas do subgênero que é o baiano, poderão deleitar-se com a devida interpretação de uma das letras que marcou uma geração aí que não sei qual foi. Aqueles que não............................. haverão de esperar por novos conteúdos sobre a arte. (Entendam que precisamos vender nosso peixe também, não podemos deixar este recinto abandonado às traças, por isso temos de nos utilizar, vez ou outra, de assuntos que atraiam a atenção massiva).

A música é “Moranguinho”.

Pra te espiar
Eu dou a volta no seu mundo
Eu pulo seu muro
Pra te encontrar
Eu dou a volta no seu mundo
Eu pulo seu muro
Faço o que quiser de brincadeira
Carrossel no céu, selva branca
E nascer em cada estrela a novidade
Que o muro do seu mundo era saudade
Por que não dizer? Posso derreter...
Moranguinho no copinho esperando por você
 
Quanto mais sorvete, quer o meu amor
Muito mais desejos de amor
Quanto mais desejos, quer o meu calor
Muito mais sorvete de amor

A música, como se pode nitidamente perceber, aborda um tema com que bastante convivemos hoje. É uma reflexão crítica sobre a sexualidade exacerbada e sem princípios, resultado da proposta destruidora da sociedade moderna. Há símbolos claros no texto. O morango, por exemplo, propositalmente flexionado no diminutivo para conferir impressão de proximidade e sensualidade, nada mais é que o corpo desnudo da mulher, pois é um fruto vermelho - cor que simboliza a atração física - de formas sinuosas, tal qual o corpo feminino. É seguido da expressão “no copinho” para enfatizar a frieza mecânica e até mesmo capitalista-industrial com que é tratado o relacionamento amoroso entre homem e mulher.


Em seu lado mais direto, a letra menciona uma série de fetiches sexuais, tais quais voyerism (“pra te espiar”, “eu pulo seu muro”), sadomasoquismo (“faço o que quiser de brincadeira”), bissexualismo (“e nascer em cada estrela a novidade”) - sem falar em outros como “selva branca” e “posso derreter” –, de modo a ironizar o anti-moralismo libertino da nova ordem social de aceitar a quebra de tabus e a banalização do ato sexual, mas conferindo-o ao sujeito enunciador. Em outras palavras, em busca de obter o máximo de saciedade para o ego no que diz respeito ao prazer carnal humano, aceita-se tudo até que aquele seja encontrado. Entende-se a expressão “eu dou a volta no seu mundo” como explorar o corpo do cônjuge, a exemplo, como a uma caverna, podendo ser, ainda, um eufemismo para o orgasmo.


Notável é a sonoridade do trecho: “Carrossel no céu, selva branca”. A repetição do fonema /s/, constituindo uma aliteração, simboliza claramente o conjunto sonoro de uma relação sexual. De maneira proposital, as conotações que podemos obter do trecho são puramente relativas aos movimentos sexuais e, novamente, ao orgasmo, enfatizando ainda mais o desespero do eu-lírico em busca da satisfação própria.


Como pudemos ver, o sujeito enunciador do texto vive em contradição: ao mesmo tempo em que quer saciar as vontades de seu próprio ego acima de tudo, percebe que a única forma de fazê-lo é através da relação com outro ser, do qual ele se torna dependente, colocando-o numa situação de completo entreguismo amoroso, como se percebe nos trechos em que ele explicita a necessidade de ir atrás do objeto amado (“pra te espiar...”, “pra te encontrar...”, “faço o que quiser”, “... esperando por você”).


O sorvete, por sua vez, aparece como elemento contrastante da relação sexual, vez que é frio e conota distância quando aplicado ao caso, e é jogado de forma irônica junto com o ato de desejar o calor do parceiro. É como um sadomasoquismo atuante na idéia abstrata que é o relacionamento em que se é cruel com o cônjuge e este ainda deseja estar cada vez mais próximo do outro, precisando, ironicamente, mais dele.


Ainda, o vocábulo “desejo” está disposto de modo que possa transparecer esta tendência dialética do ser humano mencionada nos parágrafos acima de querer saciar apenas a vontade própria, mas de necessitar de outro ser, explicitando mais uma das contradições do homem e do mundo moderno.


Ao final, o amor é oferecido e tratado como produto, quando posto na expressão “sorvete de amor”. Tendo em vista que as sociedades, e, cada vez mais, seus componentes, separadamente, têm se transformado em função da economia, e, como vivemos numa sociedade capitalista, do capital. Enquanto o concreto já foi transformado em produto, como, por exemplo, uma caneta, o abstrato vem sofrendo o mesmo processo ao longo dos anos, como, por exemplo, as idéias sobre uma caneta, e, na música, o próprio amor, tanto idealizado e feito-sublime pelas sociedades de muitas épocas, e até a atual, hipocritamente.


Para concluir, este trabalho musical aborda a questão da “coisificação” ou reificação em razão de satisfazer o próprio eu, mas, sem perceber a impossibilidade de tal acontecimento, o eu se põe em situação de entregar-se completamente ao ato de amar (sujeito), transformando o amado (objeto) em essencial. Aproveita para ironizar e criticar a sociedade libertina de hoje, representada pelo microcosmo em que vive o sujeito enunciador.

quinta-feira, 5 de julho de 2007

A Morte e a Morte (e a morte)


Parte II – A poesia no Brasil durante as Guerras

Segunda Guerra Mundial. A humanidade está assombrada pelo número de mortos que aumenta de boca em boca, e circula o mundo inteiro várias vezes. O homem transpassa duas grandes chacinas; junto com ele, o poeta, que, vendo-se perdido em meio a tantas balas – também perdidas –, questionava a necessidade de fazer poesia em tão macabra hora – muitos morriam no tempo de cada palavra escrita.

(C.R.W. Nevinson - Machine Gun)

Na primeira fase do modernismo no Brasil (1922 – 1930) foi quando começou a se questionar o academicismo literário, as convenções da escrita poética. O movimento propunha que todos estavam perdidos, e que deveriam achar uma nova maneira de ser. Bandeira acha-se em uma notícia de jornal.

“João Gostoso era carregador de feira livre e morava no morro da Babilônia num barracão sem número
Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro
Bebeu
Cantou
Dançou
Depois se atirou na Lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado.”

Fernando Pessoa também questionava o fazer poético, e ainda acusava os poetas.

“O poeta é um fingidor
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente”;

A arte teve de resistir a tais mudanças. Não é o homem que decide o futuro da arte, sendo a arte um reflexo dos sentimentos – ou da falta deles – nos homens? A arte teve de resistir às quebras gramaticais (“Uma noite ele chegou NO bar Vinte de Novembro”), ao anti-convencionalismo, a Pablo Picasso e a Salvador Dali. O sujeito muda, e, sendo o sujeito o responsável pela transformação do objeto, muda o objeto.

(Pablo Picasso - Gunner Guillaume de Kostrowitzky)

(Salvador Dali - Premonição da Guerra Civil)

(Salvador Dali - Guerra Civil)

(Fernand Léger - Soldiers playing at cards)

A arte vinha também resistindo às guerras, embora enfraquecendo lentamente. A segunda fase do modernismo no Brasil (1930 – 1945) está aí – documentada – para provar. Conforme o artigo de Fábio D. P. Rodrigues, publicado pela Unicamp:

“Drummond (...) dedicou sempre alguns poemas sobre o fazer poético, sobre a função da poesia. (...) Carlos Drummond de Andrade nos deu belíssimos poemas que comportam uma poética própria que, na análise cronológica de seus livros, ora se transforma com alguns nuances ou mais dramaticamente, ora conserva outros conceitos e idéias.” Alguns trechos de poesias de Carlos Drummond são, por Rodrigues, destacadas neste aspecto.

“Mundo mundo vasto mundo
mais vasto é meu coração”;

“A mão que escreve este poema
não sabe que está escrevendo”;

“Gastei uma hora pensando um verso
que a pena não quer escrever”;

Pode-se reparar que o poeta sempre se encontra em solidão, ou muitas vezes nem aparece, escondido na metonímia de sua mão, ou da inconsciência mecânica no fazer poético. Quando aparece, aparece moderno: um poeta em seu cotidiano. Não há romantismo na vida patética que se vive. Até o sentimentalismo poético é tratado com descaso, e o poeta é tido como mais um no meio da multidão, irrelevante para o futuro da humanidade – que, na época, estava a ser decidido pelo maior poderio militar.

“O poeta chega na estação.
O poeta desembarca.
O poeta toma um auto.
O poeta vai para o hotel.
E enquanto ele faz isso
como qualquer homem da terra,
uma ovação o persegue
feito vaia,

Bandeirolas
abrem alas.
Bandas de música. Foguetes.
Discursos. Povo de chapéu de palha.
Máquinas fotográficas assestadas.
Automóveis imóveis.
Bravos...
O poeta está melancólico.”;

Drummond retrata bem a agonia de ser poeta a época. Todos tinham consciência de que poderiam estar salvando a humanidade, e não escrevendo. Ainda bem que continuaram escrevendo.

“É preciso salvar o país,
é preciso crer em Deus,
é preciso pagar as dívidas,
é preciso comprar um rádio,
é preciso esquecer fulana.”

Ainda sobre a arte de escrever, talvez seja este o mais direto texto de Drummond sobre o assunto:

Procura da poesia

Não faças versos sobre acontecimentos. Não há criação nem morte perante a poesia. Diante dela, a vida é um sol estático, não aquece nem ilumina. As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam. Não faças poesia com o corpo, esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica. Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro são indiferentes. Nem me reveles teus sentimentos, que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem. O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

Não cantes tua cidade, deixa-a em paz. O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas. Não é música ouvida de passagem; rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma. O canto não é a natureza nem os homens em sociedade. Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam. A poesia (não tires poesia das coisas) elide sujeito e objeto.

Não dramatizes, não invoques, não indagues. Não percas tempo em mentir. Não te aborreças. Teu iate de marfim, teu sapato de diamante, vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.

Não recomponhas tua sepultada e merencória infância. Não osciles entre o espelho e a memória em dissipação. Que se dissipou, não era poesia. Que se partiu, cristal não era.

Penetra surdamente no reino das palavras. Lá estão os poemas que esperam ser escritos. Estão paralisados, mas não há desespero, há calma e frescura na superfície intata. Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário. Convive com teus poemas, antes de escrevê-los. Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam. Espera que cada um se realize e consuma com seu poder de palavra e seu poder de silêncio. Não forces o poema a desprender-se do limbo. Não colhas no chão o poema que se perdeu. Não adules o poema. Aceita-o como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras. Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra e te pergunta, sem interesse pela resposta, pobre ou terrível, que lhe deres: Trouxeste a chave?

Repara: ermas de melodia e conceito elas se refugiaram na noite, as palavras. Ainda úmidas e impregnadas de sono, rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.

(ANDRADE, Carlos Drummond de. Obra completa. 2. ed. Rio de Janeiro, Aguilar, 1967.) “

(A arte vira meio de protesto político)

A Segunda Guerra acaba. Os aliados detêm a “vitória”. Paz. Paz? A arte está cansada de ser maltratada, destruída – não se sabe quantos livros foram queimados por Hitler, quantas obras foram perdidas na marcha devastadora dos exércitos-, e fraqueja. Como uma flor que nasce no asfalto de uma rua movimentada, os artistas ainda vivos tentam fazê-la renascer. Ainda por Drummond:

“Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.
(...)
Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.”

O mundo agora está na paz caricata da guerra fria, preparado para começar do zero a concepção do fazer poético. O modernismo já havia sido criado, mas precisava ser renovado.

Na continuação, sairemos da América e iremos para os Estados Unidos da América e para a Europa.