Quase que diariamente, um grupo se reúne nos confins de uma sala para jantar e põe o assunto em dia: o andamento da segunda guerra, o novo albúm de Louis Armstrong, o último livro de Sartre ou até mesmo as implicações da física quântica, recém-criada, no pensamento moderno.
Claro que o que importa é que eles alimentam-se com bastante requinte. Bebem arte, comem filosofia e sobra um pouco de ciência pra sobremesa. Tudo regado com algumas gotas de bom-humor e existencialismo.
"Tudo aconteceu numa terra distante, no tempo em que os bichos falavam... Os urubus, aves por natureza becadas, mas sem grandes dotes para o canto, decidiram que, mesmo contra a natureza eles haveriam de se tornar grandes cantores. E para isto fundaram escolas e importaram professores, gargarejaram dó-ré-mi-fá, mandaram imprimir diplomas, e fizeram competições entre si, para ver quais deles seriam os mais importantes e teriam a permissão para mandar nos outros. Foi assim que eles organizaram concursos e se deram nomes pomposos, e o sonho de cada urubuzinho, instrutor em início de carreira, era se tornar um respeitável urubu titular, a quem todos chamam de Vossa Excelência. Tudo ia muito bem até que a doce tranqüilidade da hierarquia dos urubus foi estremecida. A floresta foi invadida por bandos de pintassilgos tagarelas, que brincavam com os canários e faziam serenatas para os sabiás... Os velhos urubus entortaram o bico, o rancor encrespou a testa , e eles convocaram pintassilgos, sabiás e canários para um inquérito.
— Onde estão os documentos dos seus concursos? E as pobres aves se olharam perplexas, porque nunca haviam imaginado que tais coisas houvessem. Não haviam passado por escolas de canto, porque o canto nascera com elas. E nunca apresentaram um diploma para provar que sabiam cantar, mas cantavam simplesmente...
— Não, assim não pode ser. Cantar sem a titulação devida é um desrespeito à ordem.
E os urubus, em uníssono, expulsaram da floresta os passarinhos que cantavam sem alvarás...
MORAL: Em terra de urubus diplomados não se houve canto de sabiá."
("Estórias de quem gosta de ensinar — O fim dos Vestibulares", editora Ars Poetica — São Paulo, 1995, pág. 81.)
A palavra "felicidade" é curiosa. Certa feita me pediram para escrever uma mensagem para uma recém-nascida num livro que ela só poderia ler quando alcançasse certa idade. "Não escreva nada que vá nos envergonhar", disseram os pais. Que seja.
Quiçá eu não seja assim tão espontâneo. Quiçá não desse certo para fazer repentes mesmo. Diferentemente de outras pessoas que escrevem o que lhes sai na cabeça e agradam a gregos e troianos, eu torço, aprimoro, alteio e limo até que saia o texto cristalino, e só consigo agradar a Agamenon ou Príamo. Mas tive que escrever. E escrevi.Fui simples e fui direto. "Desde o momento em que você nasceu, pequena das bochechas mais rosadas, torci por você - e o faço e o farei desde então. Voto por sua felicidade, e todos os fatores que sejam necessários para que ela exista". Pela escassez de linhas (por que nunca pensam que poderíamos querer escrever mais?), foi isso que consegui extrair da minha mente com aquela caneta da Padaria Do Seu Manoel e o urso Pooh me encarando.
Muitos cartões de nascimento, aniversário, 15 anos, formatura, dia das mães e morte têm como 'emblema', em letras garrafais, "Felicidades!". É frase clichê, e poucos se dão ao trabalho de deixar as coisas como estão e tecem intermináveis termos elogiosos que ninguém vai ler ou acreditar. Espere. Clichê? Expressões viram clichê por algum motivo. Ou são boas ou causam impacto. Quer algo mais sublime que ser feliz? Ora, não dizem que é para sermos felizes que vivemos? Quem em sã consciência trocaria real felicidade por qualquer outra coisa? O sincero desejo de felicidades ao próximo virou clichê. Era simples, fácil, bom e impactante. Conveniente. Bem moderno. Por causa disso, todos os "felicidades!" ao redor do mundo foram perdendo a força, e agora ninguém sabe mais o que isso é.No campo etimológico, a palavra italiana “felicità”, a palavra espanhola “felicidad” e a portuguesa “felicidade”, todas vêm do latim “felix” – afortunado – e “felicitas” – sorte, fortuna.Contudo, "se queres compreender a palavra 'felicidade', indispensável se torna entendê-la como recompensa e não como fim", disse Exupéry.
Somente desejei felicidades. Entreguei minha fortuna a alguém, querendo que fosse feliz, ou que chegasse o mais próximo disso. Não agradei àqueles pais da história - espero que não os tenha envergonhado. A mensagem anterior, por outro lado, foi muito mais convincente. Dizia que era protegida por orações e deus, que era linda e que a amava. Pois eu não impus valores. Não impus crenças, direita ou esquerda, trabalho, estilo de vida, meio, dinheiro, falta dele... Quis algo muito mais simples. Dei a liberdade para que ela escolhesse seu caminho e seus valores. Quis só que, dentro do que ela pediu para si mesma, conseguisse o que fosse necessário para estampar-lhe um sorriso na face - que, espero, conserve por algum tempo as lindas bochechas róseas; um sorriso sincero deve lhes cair muito bem.
Mas eu não consegui ser tão frio. Ainda zelo por minhas palavras. Palavras são fortes e belas. Como "felicidade".
("O maior problema e o único que nos deve preocupar é vivermos felizes", disse Voltaire, embora só me tivesse lembrado disso depois).
No muro do cemitério ao lado do portão, com letras negras e desordenadas, estava escrito EU VOLTAREI!
Pergunto agora: será esta uma época propícia para os mortos voltarem? A cidade tão tumultuada, tanta poluição, tantas greves e os assaltos e seqüestros se multiplicando, nas penitenciárias há comandos do crime. Vulgaridade e violência num galope livre nas zonas da burguesia e da periferia onde os rios morrem e as árvores agonizam. EU VOLTAREI! aquele lá avisou, e agora me ocorre que ainda existem ameaças de guerrilhas, mas não foi suficiente tanta matança na guerra maior? Pelo visto não, porque os anos de guerra superaram e muito os tempos da pomba branca com o ramo verde no bico. Os jovens estão fugindo para outros países, sim, aqui tem aquele céu estrelado, a paisagem e o mar mas é lá longe que eles esperam realizar seus sonhos.
Um momento, eu falei no mar? Pois o mar em transe subiu e avançou enfurecido, Estou recuperando o que era meu! Vejo a natureza perdendo a paciência com o reinado do ser humano, o que fez Dom Policarpo, um santo da antiguidade, cair de joelhos lá em Smyrna e exclamar, Meu deus, em que século me fizeste nascer!
E a máquina de consumismo a todo vapor, difícil escapar da engrenagem infernal dos shoppings e das galerias, comprar, comprar, comprar... Nos intervalos, comer para voltar a comprar porque tudo é ali mesmo por perto, não perder o ritmo. Tempo é dinheiro! repete o funcionário de um banco que batizou o filho com o nome de Dólar, mas quando o Dólar está em baixa fica o apelido, Dodô.
A moda é não resistir às três palavras soberanas, Denúncia, Evento e Imperdível. A fúria das denúncias políticas cresceu tanto que elas já quase perderam a importância, o povo acabou ficando assim anestesiado, lê, escuta e esquece porque depois não acontece mesmo nada, denunciantes e denunciados afundam no buraco negro da memória nacional.
Evento é outra palavra flutuando na ventania, tudo é evento, a festa e o espetáculo, o batizado e a morte, até a morte? A morte sim, não esquecer a jovem conversando com a amiga no elevador, Hoje não vou ao cinema porque surgiu um evento, morreu meu tio e o enterro é agora.
Imperdível, eis aí outra palavra que reina na máquina publicitária, é imperdível aquele carro, qual? O carro que vem com um terapeuta embutido, o motorista entra, fecha a porta e ouve a voz que vem do painel aceso, O problema é de origem real ou existencial? Se for real, de natureza física, aperte no painel o botão vermelho.
EU VOLTAREI! ele escreveu no muro do cemitério. Pergunto agora se por acaso esse desertor é negro. Se for negro quero lembrar que ainda vigora o preconceito, disfarçado mas atuante, onde o emprego? Onde a escola? E não adianta tingir o cabelo de louro porque o preconceituoso tem olho vivo, Todo brasileiro é mestiço senão no sangue nas idéias, escreveu Silvio Romero há cem anos.
O desertor mulher também não irá encontrar um clima ideal porque os homens perderam o respeito pelo sexo considerado inferior apesar das conquistas, algumas reais e outras ilusórias. Casadas, amasiadas e solteiras andam levando bordoada por dá cá aquela palha. Repletas as delegacias da mulher com olho roxo e nariz quebrado. Tirante aquelas que não dão queixa, segundo o noticiário uma mulher no Brasil é espancada a cada quinze segundos.
Esperar pelo Natal que seria uma época ideal para essa volta anunciada? Mas o Natal já vem se misturando ao Carnaval, os viciados consumistas não podem pensar em meditação ou recolhimento com todas as lojas fazendo ofertas extraordinárias.
Um chefe de família da classe média que escapou de um recente assalto chega em casa e respira tão aliviado, a penumbra da sala com o gato cochilando na almofada com seu mistério e o cachorro sorridente e sem mistério pedindo um afago. Então o homem afunda na poltrona e sonha com uma música singela do tipo das toadas sertanejas, que não exigem maior atenção, ou quem sabe a leitura de um livro não solicitante, daqueles que a gente lê pulando as páginas sem remorso. Fecha os olhos, a trégua. Então entra a mulher aos gritos, A festa já começou e você desse jeito, já fez a barba? E vem o filho adolescente, liga a televisão no volume máximo e lembra, E o dinheiro, pai? Hoje tem balada!
EU VOLTAREI! o futuro desertor avisou no muro. Preciso ainda lembrar que um conceituado vereador já entrou com um importante projeto de lei, acabar com os cemitérios! Com tempos assim tão difíceis e esse desperdício de terra, tudo anti-higiênico e antiquado, lamenta o político interessado numa transação imobiliária. Chega de sentimentalismo! ele queixou-se a uma jornalista. Meu plano é construir nessas terras esvaziadas um espaço cultural ou estacionamento, qual a sua opinião? O jornalista sacudiu a cabeça e pensou com seus botões, Nesse andar, antes que venha a ordem de despejo é aconselhável que os falecidos comecem a sair desde já levando o próprio caixão na cabeça.
Refletindo melhor creio que vivos e mortos não devem se preocupar, afinal, são tão numerosas as pilhas de processos urgentes aguardando solução, montanhas de processos, montanhas! E esse projeto de lei é tão polêmico, certamente alguém recorrerá ao Poder Judiciário, mais tempo paralisando a papelada, e daí? Então é esperar que a montanha vá baixando, baixando e quem sabe daqui a mil anos?...
EU VOLTAREI! ameaçou o desertor mas quem passar hoje por aquele muro já não lerá mais nada.
Lygia Fagundes Telles,no livro Conspiração de Nuvens.
Free variation in linguistics is the phenomenon of two (or more) sounds or forms appearing in the same environment without a change in meaning and without being considered incorrect by native speakers. Examples from English include:
• the word economics may be pronounced with /i/ or /ɛ/ in the first syllable; although individual speakers may prefer one or the other, and although one may be more common in some dialects than others, both forms are encountered within a single dialect and sometimes even within a single idiolect;
• the comparative of many disyllabic adjectives can be formed either with the word more or with the suffix -er, for example more stupid or stupider.
When phonemes are in free variation, speakers are strongly aware of the fact, and will note, for example, that tomato is pronounced differently in British and American English, or that either has two pronunciations which are fairly randomly distributed, but only a very small proportion of English words show such variations.
However, we still have the case of the allophones. In phonetics, an allophone is a phenomenon of several similar phones that belong to the same phoneme. A phone is a sound that has a definite shape as a sound wave, while a phoneme is a basic group of sounds that can distinguish words (e.g. changing one phoneme in a word can produce another word); speakers of a particular language perceive a phoneme as a single distinctive sound in that language. Thus an allophone is a phone considered as a member of one phoneme.
We may distinguish complementary allophones, which are distributed regularly within the idiolect of the same speaker according to phonetic environment, from free variants, which are a matter of personal habit or regional accent.
For example, [pʰ] as in pin and [p] as in spin are allophones for the phoneme /p/ in the English language because they occur in complementary distribution. English speakers generally treat these as the same sound, but they are different; the first is aspirated and the second is unaspirated (plain).
In the case of allophones, free variation is exceedingly common and along with differing intonation patterns is the most important single feature in the characterizing of regional accents.
When about other language acquisitions, free variation plays a quite considerable part. Free variation is itself highly variable from one learner to another. To some extent it may indicate different learning styles and communicative strategies. Learners that favor high-risk communicative strategies and have an other-directed cognitive style are more likely to show substantial free variation, as they experiment freely with different forms.
To exemplify, here it goes a song by Ella Fitzgerald and Louis Armstrong, 'Let's call the whole thing off'. Follow the lyrics.
Things have come to a pretty pass
Our romance is growing flat
For you like this and the other
While I go for this and that
Goodness knows what the end will be
Oh, I don't know where I'm at
It looks as if we two will never be one
Something must be done...
You say either and I say either
You say neither and I say neither
Either, either, a neither, a neither
Let's call the whole thing off
You like potato and I like potato
You like tomato and I like tomato
Potato, potato, tomato, tomato
Let's call the whole thing off
But, oh, if we call the whole thing off
Then we must part
And, oh, if we ever part
Then that might break my heart
So if you like pajamas and I like pyjamas
I'll wear pyjamas and give up pyjamas
For we know we need each other, so we
Better call the whole thing off
Let's call the whole thing off
You laughter and I say laughter
You say after and I say after
Laughter, laughter, after, after
Let's call the whole thing off
You like vanilla and I like vanilla
You saspirilla, and I sarsaparilla *
Vanilla, vanilla, oh, chocolate strawberry
Let's call the whole thing off
But, oh, if we call the whole thing off
Then we must part
And, oh, if we ever part
Then that might break my heart
So if you go for oyster and I go for oysters
I'll order oysters and cancel the oyster
For we know we need each other, so we
Better call the calling off off
Let's call the whole thing off
You say either - and you say either
You say neither - and you say neither
Either, either, a neither, a neither
Let's call the whole thing off
You like potato - and you like potato
You like tomato - and you like tomato
Potato, potato, tomato, tomato
Let's call the whole thing off
But, oh, if we call the whole thing off
Then we must part
And, oh, if we ever part
Then that might break my heart
So if you like pyjamas - I like pyjamas
I'll wear pyjamas - You've got pyjamas!
For we know we need each other, so we
Better call the whole thing off (the calliing off off)
Quiçá o título já seja suficientemente auto-explicativo e intrigante, resolvi ser democrático e agradar a todos os gostos. Aqueles que gostam de submúsicas do subgênero que é o baiano, poderão deleitar-se com a devida interpretação de uma das letras que marcou uma geração aí que não sei qual foi. Aqueles que não............................. haverão de esperar por novos conteúdos sobre a arte. (Entendam que precisamos vender nosso peixe também, não podemos deixar este recinto abandonado às traças, por isso temos de nos utilizar, vez ou outra, de assuntos que atraiam a atenção massiva).
A música é “Moranguinho”.
Pra te espiar
Eu dou a volta no seu mundo
Eu pulo seu muro
Pra te encontrar
Eu dou a volta no seu mundo
Eu pulo seu muro
Faço o que quiser de brincadeira
Carrossel no céu, selva branca
E nascer em cada estrela a novidade
Que o muro do seu mundo era saudade
Por que não dizer? Posso derreter...
Moranguinho no copinho esperando por você
Quanto mais sorvete, quer o meu amor
Muito mais desejos de amor
Quanto mais desejos, quer o meu calor
Muito mais sorvete de amor
A música, como se pode nitidamente perceber, aborda um tema com que bastante convivemos hoje. É uma reflexão crítica sobre a sexualidade exacerbada e sem princípios, resultado da proposta destruidora da sociedade moderna. Há símbolos claros no texto. O morango, por exemplo, propositalmente flexionado no diminutivo para conferir impressão de proximidade e sensualidade, nada mais é que o corpo desnudo da mulher, pois é um fruto vermelho - cor que simboliza a atração física - de formas sinuosas, tal qual o corpo feminino. É seguido da expressão “no copinho” para enfatizar a frieza mecânica e até mesmo capitalista-industrial com que é tratado o relacionamento amoroso entre homem e mulher.
Em seu lado mais direto, a letra menciona uma série de fetiches sexuais, tais quais voyerism (“pra te espiar”, “eu pulo seu muro”), sadomasoquismo (“faço o que quiser de brincadeira”), bissexualismo (“e nascer em cada estrela a novidade”) - sem falar em outros como “selva branca” e “posso derreter” –, de modo a ironizar o anti-moralismo libertino da nova ordem social de aceitar a quebra de tabus e a banalização do ato sexual, mas conferindo-o ao sujeito enunciador. Em outras palavras, em busca de obter o máximo de saciedade para o ego no que diz respeito ao prazer carnal humano, aceita-se tudo até que aquele seja encontrado. Entende-se a expressão “eu dou a volta no seu mundo” como explorar o corpo do cônjuge, a exemplo, como a uma caverna, podendo ser, ainda, um eufemismo para o orgasmo.
Notável é a sonoridade do trecho: “Carrossel no céu, selva branca”. A repetição do fonema /s/, constituindo uma aliteração, simboliza claramente o conjunto sonoro de uma relação sexual. De maneira proposital, as conotações que podemos obter do trecho são puramente relativas aos movimentos sexuais e, novamente, ao orgasmo, enfatizando ainda mais o desespero do eu-lírico em busca da satisfação própria.
Como pudemos ver, o sujeito enunciador do texto vive em contradição: ao mesmo tempo em que quer saciar as vontades de seu próprio ego acima de tudo, percebe que a única forma de fazê-lo é através da relação com outro ser, do qual ele se torna dependente, colocando-o numa situação de completo entreguismo amoroso, como se percebe nos trechos em que ele explicita a necessidade de ir atrás do objeto amado (“pra te espiar...”, “pra te encontrar...”, “faço o que quiser”, “... esperando por você”).
O sorvete, por sua vez, aparece como elemento contrastante da relação sexual, vez que é frio e conota distância quando aplicado ao caso, e é jogado de forma irônica junto com o ato de desejar o calor do parceiro. É como um sadomasoquismo atuante na idéia abstrata que é o relacionamento em que se é cruel com o cônjuge e este ainda deseja estar cada vez mais próximo do outro, precisando, ironicamente, mais dele.
Ainda, o vocábulo “desejo” está disposto de modo que possa transparecer esta tendência dialética do ser humano mencionada nos parágrafos acima de querer saciar apenas a vontade própria, mas de necessitar de outro ser, explicitando mais uma das contradições do homem e do mundo moderno.
Ao final, o amor é oferecido e tratado como produto, quando posto na expressão “sorvete de amor”. Tendo em vista que as sociedades, e, cada vez mais, seus componentes, separadamente, têm se transformado em função da economia, e, como vivemos numa sociedade capitalista, do capital. Enquanto o concreto já foi transformado em produto, como, por exemplo, uma caneta, o abstrato vem sofrendo o mesmo processo ao longo dos anos, como, por exemplo, as idéias sobre uma caneta, e, na música, o próprio amor, tanto idealizado e feito-sublime pelas sociedades de muitas épocas, e até a atual, hipocritamente.
Para concluir, este trabalho musical aborda a questão da “coisificação” ou reificação em razão de satisfazer o próprio eu, mas, sem perceber a impossibilidade de tal acontecimento, o eu se põe em situação de entregar-se completamente ao ato de amar (sujeito), transformando o amado (objeto) em essencial. Aproveita para ironizar e criticar a sociedade libertina de hoje, representada pelo microcosmo em que vive o sujeito enunciador.
Segunda Guerra Mundial. A humanidade está assombrada pelo número de mortos que aumenta de boca em boca, e circula o mundo inteiro várias vezes. O homem transpassa duas grandes chacinas; junto com ele, o poeta, que, vendo-se perdido em meio a tantas balas – também perdidas –, questionava a necessidade de fazer poesia em tão macabra hora – muitos morriam no tempo de cada palavra escrita.
(C.R.W. Nevinson - Machine Gun)
Na primeira fase do modernismo no Brasil (1922 – 1930) foi quando começou a se questionar o academicismo literário, as convenções da escrita poética. O movimento propunha que todos estavam perdidos, e que deveriam achar uma nova maneira de ser. Bandeira acha-se em uma notícia de jornal.
“João Gostoso era carregador de feira livre e morava no morro da Babilônia num barracão sem número Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro Bebeu Cantou Dançou Depois se atirou na Lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado.”
Fernando Pessoa também questionava o fazer poético, e ainda acusava os poetas.
“O poeta é um fingidor Finge tão completamente Que chega a fingir que é dor A dor que deveras sente”;
A arte teve de resistir a tais mudanças. Não é o homem que decide o futuro da arte, sendo a arte um reflexo dos sentimentos – ou da falta deles – nos homens? A arte teve de resistir às quebras gramaticais (“Uma noite ele chegou NO bar Vinte de Novembro”), ao anti-convencionalismo, a Pablo Picasso e a Salvador Dali. O sujeito muda, e, sendo o sujeito o responsável pela transformação do objeto, muda o objeto.
(Pablo Picasso - Gunner Guillaume de Kostrowitzky)
(Salvador Dali - Premonição da Guerra Civil)
(Salvador Dali - Guerra Civil)
(Fernand Léger - Soldiers playing at cards)
A arte vinha também resistindo às guerras, embora enfraquecendo lentamente. A segunda fase do modernismo no Brasil (1930 – 1945) está aí – documentada – para provar. Conforme o artigo de Fábio D. P. Rodrigues, publicado pela Unicamp:
“Drummond (...) dedicou sempre alguns poemas sobre o fazer poético, sobre a função da poesia. (...) Carlos Drummond de Andrade nos deu belíssimos poemas que comportam uma poética própria que, na análise cronológica de seus livros, ora se transforma com alguns nuances ou mais dramaticamente, ora conserva outros conceitos e idéias.” Alguns trechos de poesias de Carlos Drummond são, por Rodrigues, destacadas neste aspecto.
“Mundo mundo vasto mundo mais vasto é meu coração”;
“A mão que escreve este poema não sabe que está escrevendo”;
“Gastei uma hora pensando um verso que a pena não quer escrever”;
Pode-se reparar que o poeta sempre se encontra em solidão, ou muitas vezes nem aparece, escondido na metonímia de sua mão, ou da inconsciência mecânica no fazer poético. Quando aparece, aparece moderno: um poeta em seu cotidiano. Não há romantismo na vida patética que se vive. Até o sentimentalismo poético é tratado com descaso, e o poeta é tido como mais um no meio da multidão, irrelevante para o futuro da humanidade – que, na época, estava a ser decidido pelo maior poderio militar.
“O poeta chega na estação. O poeta desembarca. O poeta toma um auto. O poeta vai para o hotel. E enquanto ele faz isso como qualquer homem da terra, uma ovação o persegue feito vaia,
Bandeirolas abrem alas. Bandas de música. Foguetes. Discursos. Povo de chapéu de palha. Máquinas fotográficas assestadas. Automóveis imóveis. Bravos... O poeta está melancólico.”;
Drummond retrata bem a agonia de ser poeta a época. Todos tinham consciência de que poderiam estar salvando a humanidade, e não escrevendo. Ainda bem que continuaram escrevendo.
“É preciso salvar o país, é preciso crer em Deus, é preciso pagar as dívidas, é preciso comprar um rádio, é preciso esquecer fulana.”
Ainda sobre a arte de escrever, talvez seja este o mais direto texto de Drummond sobre o assunto:
“Procura da poesia
Não faças versos sobre acontecimentos. Não há criação nem morte perante a poesia. Diante dela, a vida é um sol estático, não aquece nem ilumina. As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam. Não faças poesia com o corpo, esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica. Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro são indiferentes. Nem me reveles teus sentimentos, que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem. O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.
Não cantes tua cidade, deixa-a em paz. O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas. Não é música ouvida de passagem; rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma. O canto não é a natureza nem os homens em sociedade. Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam. A poesia (não tires poesia das coisas) elide sujeito e objeto.
Não dramatizes, não invoques, não indagues. Não percas tempo em mentir. Não te aborreças. Teu iate de marfim, teu sapato de diamante, vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.
Não recomponhas tua sepultada e merencória infância. Não osciles entre o espelho e a memória em dissipação. Que se dissipou, não era poesia. Que se partiu, cristal não era.
Penetra surdamente no reino das palavras. Lá estão os poemas que esperam ser escritos. Estão paralisados, mas não há desespero, há calma e frescura na superfície intata. Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário. Convive com teus poemas, antes de escrevê-los. Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam. Espera que cada um se realize e consuma com seu poder de palavra e seu poder de silêncio. Não forces o poema a desprender-se do limbo. Não colhas no chão o poema que se perdeu. Não adules o poema. Aceita-o como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada no espaço.
Chega mais perto e contempla as palavras. Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra e te pergunta, sem interesse pela resposta, pobre ou terrível, que lhe deres: Trouxeste a chave?
Repara: ermas de melodia e conceito elas se refugiaram na noite, as palavras. Ainda úmidas e impregnadas de sono, rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.
(ANDRADE, Carlos Drummond de. Obra completa. 2. ed. Rio de Janeiro, Aguilar, 1967.) “
(A arte vira meio de protesto político)
A Segunda Guerra acaba. Os aliados detêm a “vitória”. Paz. Paz? A arte está cansada de ser maltratada, destruída – não se sabe quantos livros foram queimados por Hitler, quantas obras foram perdidas na marcha devastadora dos exércitos-, e fraqueja. Como uma flor que nasce no asfalto de uma rua movimentada, os artistas ainda vivos tentam fazê-la renascer. Ainda por Drummond:
“Uma flor nasceu na rua! Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego. Uma flor ainda desbotada ilude a polícia, rompe o asfalto. Façam completo silêncio, paralisem os negócios, garanto que uma flor nasceu. (...) Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde e lentamente passo a mão nessa forma insegura. Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se. Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico. É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.”
O mundo agora está na paz caricata da guerra fria, preparado para começar do zero a concepção do fazer poético. O modernismo já havia sido criado, mas precisava ser renovado.
Na continuação, sairemos da América e iremos para os Estados Unidos da América e para a Europa.
Pisterovix saúda os visitantes, estas idéias perambulando pela internet, expandindo seu campo eletromagnético de conhecimento. É a primeira vez que ele posta, e seria recomendável, sob análise das duras regras da etiqueta, que fosse cortês com os convidados. Etiqueta esta, por sinal, lembra-me que a educação – parte menos exagerada daquela – morreu, o que me faz voltar ao título do texto (para os preguiçosos, “A Morte e a Morte (e a morte)”).
Uma das temáticas sugeridas num dos encontros foi a morte, o que inspira poetas, pintores e demais mestres nas diversas formas de manifestação da arte. Não sou poeta, pintor, muito menos músico ou até dançarino (dançar algo com inspiração na morte talvez não fosse uma tarefa fácil, por sinal). Pode-se pensar que não se deve haver muito a se falar sobre a morte, supondo, de modo a concordar com a ciência, que as pessoas que dizem ter conversado com os mortos mentiram ou sonharam, e que apenas se sabe que acontece, ou até porque acontece. Nada mais que isso. Nada depois disso - ao menos, nada que misture religião.
(Baglione - A morte de São Sebastião)
(Caravaggio - A incredulidade de São Tomé)
Há várias maneiras de se trabalhar a morte.
(James Ensor - The masks and Death)
“Quando a Indesejada das gentes chegar (Não sei se dura ou caroável), Talvez eu tenha medo. Talvez sorria, ou diga: - Alô, iniludível! O meu dia foi bom, pode a noite descer. (A noite com seus sortilégios.) Encontrará lavrado o campo, a casa limpa, A mesa posta, Com cada coisa em seu lugar.”
Essa é uma das maneiras que Bandeira, que intensamente conviveu com a morte desde seus dezessete anos, escolheu para mencionar o tema. Desprezo, frio. A morte vem... Estou à sua espera. A mesa está posta, jante comigo. (Isso daria uma ótima crônica para um bom cronista). Há para quem a morte é sagrada, seja porque há vida eterna depois dela, seja porque ela marca o fim da única jornada que temos, ou seja porque ela mesma é representada por um deus ou deusa. Como para os astecas. “MICTLANTECUHTLE, também denominado Micli ou Mictlantecuhtli (senhor do reino dos mortos, na língua asteca), é um deus que é o governante de Mictlan, a camada mais profunda do submundo asteca. É representado por uma pessoa vestindo uma caveira com dentes salientes, ou como um esqueleto. Sua esposa é Mictecacihuatl. Seus animais simbólicos são a aranha, a coruja e o morcego. É o deus regente do signo do Cão no horóscopo asteca.” (extraído da Wikipedia). Encontramos nas mitologias, assim como no texto de Manuel Bandeira acima disposto, a morte personificada. Nos quadrinhos de Hellblazer, talvez mais famoso pelo nome de John Constantine (quem não assistiu à mega-produção cinematográfica?), Mictlantecuhtole aparece como antagonista.
No livro “As intermitências da morte”, do escritor José Saramago, ganhador do Nobel, a morte aparece cômica, simpática, até mais humana. Em sua visão, a morte não é mais que, ironicamente, um funcionário do poder máximo, como se se encarregasse da faxina.
(Osíris) (Tribunal de Osíris)
Os egípcios gastavam a vida preparando-se para a morte – daí a importância dada à mumificação dos faraós. Acreditavam que, passada a morte, o deus Osíris, da vida e da morte, julgá-los-ia em seu tribunal. O coração do infeliz era pesado, e, para que pudesse alcançar a glória, deveria ser mais leve que uma pena. Além dos mutilados pela chegada dos assírios, cujo coração deveria encontrar-se em estado de leves fatias, poucos devem ter alcançado a salvação.
Há, também, os cépticos, como os mesopotâmicos, que acreditavam no pó após a morte. Não há vida. Viramos espíritos que vagam e alimentam-se de pó – fosse verdade, as casas mal-assombradas seriam lugares limpos o suficiente para você comer na mesa sem precisar passar "um paninho" antes. E há os mais cépticos. Morreu, vai comer capim pela raiz, ficar a sete palmos, dormir com os peixes, e não terá como criar mais eufemismos envolvendo aspectos naturais – naturais como a morte é natural.
“Morrer. Morrer de corpo e de alma. Completamente.
Morrer sem deixar o triste despojo da carne, A exangue máscara de cera, Cercada de flores, Que apodrecerão — felizes! — num dia, Banhada de lágrimas Nascidas menos da saudade do que do espanto da morte.
Morrer sem deixar porventura uma alma errante... A caminho do céu? Mas que céu pode satisfazer teu sonho de céu?
Morrer sem deixar um sulco, um risco, uma sombra, A lembrança de uma sombra Em nenhum coração, em nenhum pensamento, Em nenhuma epiderme.
Morrer tão completamente Que um dia ao lerem o teu nome num papel Perguntem: “Quem foi?...”
Morrer mais completamente ainda, — Sem deixar sequer esse nome.”
Novamente por Bandeira, em cuja obra, já se pode ter percebido, a temática da morte é constante. Pode ter sido o caso dele descrito em sua própria frase: “A vida inteira que poderia ter sido e que não foi.”, o caso dos que olham para trás com desespero, uma amargura de insatisfação, e, agora, de impotência – nada pode ser feito em relação ao próprio passado. É mais um tipo de morte, costuma acontecer antes das demais: a morte psicológica.
(A morte do Ego)
Quincas Berro-D’Água, cujo nome foi dado pelo grito ouvido por toda a Bahia, ao confundir água e sua inconfundível bebida, nomeou, sem pretender, meu texto. O livro em que aparece é “A morte e a morte de Quincas Berro-D’Água”, do baiano Jorge Amado. O escritor foi mais esperto que seu personagem, pois a confusão que fez foi proposital. Por que “a morte e a morte”? Ora, Quincas não foi presenteado com a sorte. Não agüentava viver em casa. Fugiu, foi viver na boemia. Fê-lo até quando pôde. Quincas morre fisicamente. Mas há toda uma figura social de Quincas preservada. Depois Quincas iria morrer socialmente (como Bandeira descreve nos versos: “Morrer mais completamente ainda, / — Sem deixar sequer esse nome.”). E ainda há uma terceira que Jorge Amado, sabiamente, não expôs no título do livro, deixando a percepção dela à atenção e crítica de leitor avisado. Antes de tudo isso, Quincas morre psicologicamente. É quando decide abandonar a consciência e viver em função do ego.
Morremos. Fato. Será que não deixamos nada para trás? Há uma frase que diz que uma vida é bem vivida quando fazemos algo que mereça ser escrito ou quando escrevermos algo que mereça ser lido. Todos os povos e artistas citados aqui hoje cumpriram seu papel. E você, o que já fez?
O amigo informa que a cidade tem mais um sebo. Exulto com a boa-nova e corro ao endereço indicado. Ressalvada a resistência heróica de um Carlos Ribeiro, de um Roberto Cunha e poucos mais, os sebos cariocas foram-se acabando, cedendo lugar a lojas sofisticadas, onde o livro é exposto como artigo da moda, e há volumes mais chamativos do que as mais doidas gravatas, antes objeto de decoração de interior, do que de leitura.
Para onde foram os livros usados, os que tinham na capa esse visgo publicitário, as brochuras encardidas, as encadernações de pobre, os folhetos, as revistas do tempo de Rodrigues Alves? Tudo isso também é gente, na cidade das letras, e. como gente, ninho de surpresas: no mar de obras condenadas ao esquecimento, pesca-se às vezes o livrinho raro, não digo raro de todo, pois o faro do mercador arguto o escondeu atrás do balcão, e destina-o a Plínio Doyle, ao Mindlin paulista ou à Library of Congress, que não dorme no ponto... mas, pelo menos, o relativamente raro, sobretudo aquele volumeco imprevisto, que não andávamos catando, e que nos pede para tirá-lo dali, pois está ligado a circunstâncias de nossa vida: operação de resgate, a que procedemos com alguma ternura. Vem para a minha estante, Marcelo Gama, amigo velho, ou antes, volta para ela, de onde não devias ter saído; sumiste porque naqueles tempos me faltou dinheiro para levar a namorada ao cinema, e tive de sacrificar-te, ou foi um pilantra que te pediu emprestado e não te devolveu? Perdão, Marcelo, mas por 5 cruzeiros terei de novo tua companhia.
Matutando no desaparecimento de tantos sebos ilustres, inclusive o do Brasielas, chego a este novo. É agradavelmente desarrumado, como convém ao gênero de comércio, para deixar o freguês à vontade. Os fregueses, mesmo não se dando a conhecer uns aos outros, são todos conhecidos como freqüentadores crônicos de sebo. Caras peculiares. Em geral usam roupas escuras, de certo uso (como os livros), falam baixo, andam devagar. Uns têm a ponta dos dedos ressecada e gretada pela alergia à poeira, mas que remédio, se a poeira é o preço de uma alegria bibliográfica?
Formam uma confraria silenciosa, que procura sempre e infatigavelmente uma pérola ou um diamante setecentista, elzeviriano, sabendo que não o encontrará nunca entre aqueles restos de literatura, mas qualquer encontro a satisfaz. Procurar, mesmo não achando, é ótimo. Não há a primeira edição dos Lusíadas, mas há a do Eu, e cumpre negociá-la com discrição, para que o vizinho não desconfie do achado e nos suplante com o seu poder econômico. A falta da primeira, encontra-se a segunda, ou outro livro qualquer, cujo preço já é uma sugestão: "Me leva". Lá em casa não cabe mais nem um aviso de conta de luz, tanto mais que as listas telefônicas estão ocupando o lugar dos dicionários, mas o freqüentador de sebo leva assim mesmo o volume, que não irá folhear. A mulher espera-o zangada: "Trouxe mais uma porcaria pra casa! "Porcaria? Tem um verso que nos comoveu, quando a gente se comovia fácil, tem uma vinheta, um traço particular, um agrado só para nós, e basta.
A inenarrável promiscuidade dos sebos! Dante em contubérnio com o relatório do Ministro da Fazenda, os eleatas junto do almanaque de palavras cruzadas, Tolstoi e Cornélio Pires, Mandrake e Sóror Juana Inés de la Cruz... Nenhum deles reclama. A paz é absoluta. O sebo é a verdadeira democracia, para não dizer: uma igreja de todos os santos, inclusive os demônios, confraternizados e humildes. Saio dele com um pacote de novidades velhas, e a sensação de que visitei, não um cemitério de papel, mas o território livre do espírito, contra o qual não prevalecerá nenhuma forma de opressão.
(Carlos Drummond de Andrade)
Ler: uma experiência fantástica! Ler informa, diverte, aproxima, esclarece e mais que tudo - ler emociona. Não podemos deixar de falar na importância dos livros para nossos encontros e conversas. Pequeno texto de Drummond para abrir com classe o nosso sarau. E esses, mesmo os mais velhos, empoeirados, esquecidos nos sebos da vida merecem nossa atenção. Sejam bem-vindos e que comecem os debates.