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terça-feira, 14 de outubro de 2008

Da perspectiva à desilusão

Ela não lhe levará a lugar algum.

As boas ações e o altruísmo são perspectivas individuais de manter-se vivo. Nisso, o pensamento cristão parece tão bonito, mas não quando observado pelo lado individual. Na verdade, a presença no outro não é uma mera concessão de lugar por parte do egoísmo. Fazendo isso, o eu se descobre como uma centelha viva, quando é lembrado ou comentado.
Entretanto, o poder que o pensamento sobre morte nos implica é tão grande, e maior que esta centelha, que por vaidade e luxo – da vontade de continuar – não se supera a idéia de cessar – simplesmente.
Imaginar o nada ainda parece ser bom se comparado ao estar no nada. Na verdade, deixa de ser um estado, uma localização ou uma característica, é uma descaracterização total. Por isso, como dito, esse poder de pré-cognição (do “fim do finito”) tende a ganhar vantagem, ao ponto de que, se não fossem os meios de escape, a exaustão cerebral certamente seria um fato seguro. E aí entra o pensamento cristão (e demais semelhantes): a da perspectiva individual de manter-se vivo, mesmo após o facto pré-conhecido, seja no espírito, no filho ou no pai. Mas isso também implica no não-mais-bonito pensamento cristão: o de exaltar-se no além, uma projeção de encontro ao ser, o estar indefinidamente.
Por fim, juntando-se o necessário ao desejável, surge um ser-no-nada, um não-ser para a tudo consolar: a idéia da finitude, da paralização, do estático e da inconsciência a partir de um ponto e tendendo ao infinito. Esse ser não passa de um consolo individual, uma prática mesquinha e uma forma de escape, uma forma de tentar enganar a consciência da consciência, da natureza da morte.
O vazio contínuo assusta quem não tem prévio conhecimento e não tem costume de associar um fim aos fatos. Por toda a natureza, é percebido um comportamento instintivo de perpetuação, mas não de continuação. Animais lutam por sobreviver, mas não por luxo, por questão social. Sua liberdade é uma função da espécie. A prova disso é que não existe suicídio entre a natureza não-humana. Esses seres desfrutam da vida em comum, ignoram o fato de uma parada brusca, uma transição para o nada, simplesmente estão a deriva naquele estado. Como uma criança que tem tanta consciência de que um pulo de um prédio será fatal, quanto um louco.
Aquele que reflete sobre sua vida – e por isso não deixa de refletir sobre a morte – está num patamar onde a idéia do vazio contínuo se torna presente, mas não tão assustadora, uma vez que o desfrute da vida é mais importante agora. O costume de conversar com ela, torna-lhe – a vida – mais atraente, torna-lhe mais urgente, como quem se descobre a beira da morte e desilude-se da idéia infantil e duvidosa de deus.
E, se for desprezado a cortezia egocentrista do pensamento religioso, aquele que torna a vida urgente apreciará melhor, assustar-se-á menos, e precirá tampouco de consolo da além-vida. Talvez nesse curto período de privilégio cedido pela natureza, seja possível estar vivo, sem se assegurar em um destino, uma meta-vida de encontro com o ser, ou seja, existir, sem necessidades de perspectiva do eu em outro local, senão na própria existência, tornando-se diferente das fraquezas e consolos religiosos, da inocência e loucura, da inconsciência animal, além de tornar-se livre do “inferno dos outros”.

quinta-feira, 27 de março de 2008

"Do pó vinhemos, do/ao pó voltaremos"

Se existisse um mundo metafísico, depois da vida terrena, onde os homens chegariam após ter alcançado sua complementação - a morte -, seria interessante, quem sabe até mesmo penoso (ao olhar humano) ver a decepção e a tristeza estampada nos rostos dos mesmos, ao saber que todas aquelas promessas foram mentiras absurdas e que esse "mundo do além" foi apenas uma forma de se iludirem durante todo o tempo e suprirem suas fraquezas mais incoscientes, dentre elas a necessidade de se prolongar em vida (uma forma de exercer seu narcisismo). Depois da tristeza primeira, cairiam lágrimas de tristeza misturadas à decepção de não encontrar tudo aquilo que sempre foram induzidos a acreditar (e depois de algum tempo, acreditavam independentemente - como já foi dito - para se satisfazerem); Após isso, a decepção iria cedendo lugar à revolta ou ao conformismo, dependendo da natureza do ser terreno, e então poderiam surgir grupos radicais e anárquicos ou pacifistas e liberais. Do segundo grupo nasceriam possíveis pregadores mais engajados, enquanto do primeiro, certamente surgiriam líderes com reinvidicações e motivos "justos" para protestarem (mais tarde, em nome de algo, ou Algo), e levarem seus "lacaios" à prosperidade.

Após tempos indeterminados, o mesmo mundo estaria à beira de um novo colapso, como a antiga vida terrrena. Alguns explicariam o fato de acordo com as pregações daquele grupo, que não foi devidamente escutado. Outros diriam que hereges e traidores dificultaram o objetivo (qual?). No final das contas, depois de algum tempo (como costuma acontecer aqui na Terra, orgulho e honra se misturariam), gerações entrariam em conflito e voltariam a viver no mesmo mundo mórbido de antes, sem perceberem. Suicidios seriam cometidos aos montes, na tentativa de se libertar desse mundo (com esperança em um outro melhor), mitos seriam criados para suprir as mesmas necessidades que se repetiriam, e esperariam mais épocas para poderem transcender a um admirável mundo novo, onde reinaria as profecias, a paz, "a igualdade, liberdade, fraternidade", como pregou alguma revolução aqui na Terra.

"Tudo o que era estável e sólido desmancha no ar; tudo o que era sagrado é profanado, e os homens são obrigados a encarar com olhos desiludidos seu lugar no mundo e suas relações recíprocas" (Marx).

segunda-feira, 30 de julho de 2007

Eletric Funeral



Ok, ok, os fãs de jazz vão gostar dessa. Quem está pronto para morrer levanta a mão!

É, quase ninguém levantou a mão. Na verdade, só aquele cara estranho que sempre está por ali quando você menos espera. Ainda assim, fiquem todos cientes: você pode ter um funeral regado a jazz! “You cry when you are born, so REJOICE WHEN YOU DIE!” é um dos lemas do jazz funeral de New Orleans.

O “jazz funeral” começou com a fusão de duas culturas, basicamente: a européia e a africana (assim como o próprio jazz, em si). A européia contribuiu no sentido de que sempre teve o costume de fazer marchas musicadas em funerais de militares (lembrar de ouvir Chopin, Mendelssohn e Beethoven), e a prática foi transmitida aos americanos, que continuaram a praticando até depois da guerra civil. Por coincidência, nessa época houve um surto de bandas de metais que se apresentavam em uma série de coisas como paradas, festivais de dança e casamentos. Como foram se tornando populares, foram cada vez mais sendo convidadas para tocar em eventos tais como funerais.

A cultura africana, por sua vez, teve outra contribuição peculiar e talvez mais importante. Antes, preciso dizer que nas culturas do oeste africano o sistema de crenças, de modo geral, é monoteísta, e prega uma estrutura hierárquica que põe deus acima de tudo, e, em seqüência, espíritos, homens, animais e plantas. Neste sistema, a morte não representa o fim de uma vida, mas a transição para um plano de espíritos ativos que providenciará almas para as gerações seguintes, e estes espíritos teriam maior autoridade que humanos e seriam capazes de ter controle sobre os vivos. A morte seria a triunfante redenção do status espiritual e liberação do ser de sua triste situação. Logo, ritos funerais simbolizam, para eles, o clímax da vida de um indivíduo. Além disso, quando os africanos foram levados para os EUA, eles passaram a acreditar que, com sua morte, seriam levados de volta à sua terra. Aquela também passou a ser vista como libertação da escravidão e opressão.

Enquanto os franceses nos EUA saíam às ruas tocando os metais, os africanos celebravam seus deuses escondidos. Não demorou para que as duas culturas se fundissem.

Num “jazz funeral” tradicional, a banda se encontra na igreja ou casa funerária de onde cerimônia será conduzida. Depois das obrigações da cerimônia, o caixão geralmente é transportado para o cemitério por uma carruagem e cavalos enfeitados com flores, seguido diretamente pela banda, familiares e demais amigos e colegas. Ao som de músicas e hinos, a “procissão segue”. Chegado ao local de enterro, todos se despedem, o finado é enterrado, a banda conduz a procissão para fora do cemitério sem tocar. Quando alcançam uma distância respeitável do lugar, o trompetista principal sopra um riff de duas notas preparatórias. Os percursionistas, então, começam a tocar uma marcha conhecida como “segunda fileira”, que tem o nome da fileira dos que ficam, na procissão, atrás das fileiras de amigos, familiares e outros celebrantes que seguem os membros da banda, que, por sua vez, estão produzindo um som mais alegre e comemorativo. O “mestre” da cerimônia, também conhecido como “grand marshal”, dá o tom para a banda e os membros da segunda fileira, que também dançam com guarda-chuvas coloridos abertos, anunciado a notícia: “uma alma voltou para casa”.







Há uma curiosidade. Muitas vezes, turistas pela região entram na festa: "OOH! A PARADE!". Quando vêem o caixão, muitos deles pensam "que horror!", outros apontam... E eles só respodem: "calma, é assim que nós nos despedimos dos nossos músicos".


Louis Armstrong (que também recebeu um jazz funeral) comenta sobre o prório (se não sabe inglês, aperte o botão de "skip"): " And, speaking of real beautiful music, if you ever witnessed a funeral in New Orleans and they have one of those brass bands playing this funeral, you really have a bunch of musicians playing from the heart, because as they go to the cemetery they play in a funeral march, they play "Flee As a Bird," "Nearer My God Today," and they express themselves in those instruments singing those notes the same as a singer would, you know. And, they take this body to the cemetery and they put this body in the ground. While he's doin' that the snare drummer takes the handkerchief from under the drum, from under the snare, and they say "Ashes to Ashes" and put him away and everything, and the drummer rolls up the drum real loud. And, outside the cemetery they form and they start swinging "Didn't He Ramble." And, all the members, the Oddfellows, whatever lodge it is, they are on this side. And on this (other) side is a bunch of raggedy guys, you know, old hustlers and cats and Good-time Charlies and everything. Well, they right with the parade too. And, when they get to wailin' this "Didn't He Ramble," and finish, seems as though they have more fun than anybody, because they applaud for Joe Oliver, and Manny Perez, with the brass band, to play it over again, so they got to give this second line, they call it, an encore. So, that makes them have a lot of fun too, and it's really something to see.".


Diz um site tradicional sobre o jazz funeral que é para aqueles que desejam ter um é mais uma questão de estar no lugar certo na hora certa. “Esperamos ver poucos desses no futuro. Nós precisamos guardar para os Grandes que ainda estão vivos”.



Para os que ficaram curiosos, aqui um vídeo-exemplo:

Jazz Funeral de Hellen Hill

quinta-feira, 5 de julho de 2007

A Morte e a Morte (e a morte)


Parte II – A poesia no Brasil durante as Guerras

Segunda Guerra Mundial. A humanidade está assombrada pelo número de mortos que aumenta de boca em boca, e circula o mundo inteiro várias vezes. O homem transpassa duas grandes chacinas; junto com ele, o poeta, que, vendo-se perdido em meio a tantas balas – também perdidas –, questionava a necessidade de fazer poesia em tão macabra hora – muitos morriam no tempo de cada palavra escrita.

(C.R.W. Nevinson - Machine Gun)

Na primeira fase do modernismo no Brasil (1922 – 1930) foi quando começou a se questionar o academicismo literário, as convenções da escrita poética. O movimento propunha que todos estavam perdidos, e que deveriam achar uma nova maneira de ser. Bandeira acha-se em uma notícia de jornal.

“João Gostoso era carregador de feira livre e morava no morro da Babilônia num barracão sem número
Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro
Bebeu
Cantou
Dançou
Depois se atirou na Lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado.”

Fernando Pessoa também questionava o fazer poético, e ainda acusava os poetas.

“O poeta é um fingidor
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente”;

A arte teve de resistir a tais mudanças. Não é o homem que decide o futuro da arte, sendo a arte um reflexo dos sentimentos – ou da falta deles – nos homens? A arte teve de resistir às quebras gramaticais (“Uma noite ele chegou NO bar Vinte de Novembro”), ao anti-convencionalismo, a Pablo Picasso e a Salvador Dali. O sujeito muda, e, sendo o sujeito o responsável pela transformação do objeto, muda o objeto.

(Pablo Picasso - Gunner Guillaume de Kostrowitzky)

(Salvador Dali - Premonição da Guerra Civil)

(Salvador Dali - Guerra Civil)

(Fernand Léger - Soldiers playing at cards)

A arte vinha também resistindo às guerras, embora enfraquecendo lentamente. A segunda fase do modernismo no Brasil (1930 – 1945) está aí – documentada – para provar. Conforme o artigo de Fábio D. P. Rodrigues, publicado pela Unicamp:

“Drummond (...) dedicou sempre alguns poemas sobre o fazer poético, sobre a função da poesia. (...) Carlos Drummond de Andrade nos deu belíssimos poemas que comportam uma poética própria que, na análise cronológica de seus livros, ora se transforma com alguns nuances ou mais dramaticamente, ora conserva outros conceitos e idéias.” Alguns trechos de poesias de Carlos Drummond são, por Rodrigues, destacadas neste aspecto.

“Mundo mundo vasto mundo
mais vasto é meu coração”;

“A mão que escreve este poema
não sabe que está escrevendo”;

“Gastei uma hora pensando um verso
que a pena não quer escrever”;

Pode-se reparar que o poeta sempre se encontra em solidão, ou muitas vezes nem aparece, escondido na metonímia de sua mão, ou da inconsciência mecânica no fazer poético. Quando aparece, aparece moderno: um poeta em seu cotidiano. Não há romantismo na vida patética que se vive. Até o sentimentalismo poético é tratado com descaso, e o poeta é tido como mais um no meio da multidão, irrelevante para o futuro da humanidade – que, na época, estava a ser decidido pelo maior poderio militar.

“O poeta chega na estação.
O poeta desembarca.
O poeta toma um auto.
O poeta vai para o hotel.
E enquanto ele faz isso
como qualquer homem da terra,
uma ovação o persegue
feito vaia,

Bandeirolas
abrem alas.
Bandas de música. Foguetes.
Discursos. Povo de chapéu de palha.
Máquinas fotográficas assestadas.
Automóveis imóveis.
Bravos...
O poeta está melancólico.”;

Drummond retrata bem a agonia de ser poeta a época. Todos tinham consciência de que poderiam estar salvando a humanidade, e não escrevendo. Ainda bem que continuaram escrevendo.

“É preciso salvar o país,
é preciso crer em Deus,
é preciso pagar as dívidas,
é preciso comprar um rádio,
é preciso esquecer fulana.”

Ainda sobre a arte de escrever, talvez seja este o mais direto texto de Drummond sobre o assunto:

Procura da poesia

Não faças versos sobre acontecimentos. Não há criação nem morte perante a poesia. Diante dela, a vida é um sol estático, não aquece nem ilumina. As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam. Não faças poesia com o corpo, esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica. Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro são indiferentes. Nem me reveles teus sentimentos, que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem. O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

Não cantes tua cidade, deixa-a em paz. O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas. Não é música ouvida de passagem; rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma. O canto não é a natureza nem os homens em sociedade. Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam. A poesia (não tires poesia das coisas) elide sujeito e objeto.

Não dramatizes, não invoques, não indagues. Não percas tempo em mentir. Não te aborreças. Teu iate de marfim, teu sapato de diamante, vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.

Não recomponhas tua sepultada e merencória infância. Não osciles entre o espelho e a memória em dissipação. Que se dissipou, não era poesia. Que se partiu, cristal não era.

Penetra surdamente no reino das palavras. Lá estão os poemas que esperam ser escritos. Estão paralisados, mas não há desespero, há calma e frescura na superfície intata. Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário. Convive com teus poemas, antes de escrevê-los. Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam. Espera que cada um se realize e consuma com seu poder de palavra e seu poder de silêncio. Não forces o poema a desprender-se do limbo. Não colhas no chão o poema que se perdeu. Não adules o poema. Aceita-o como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras. Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra e te pergunta, sem interesse pela resposta, pobre ou terrível, que lhe deres: Trouxeste a chave?

Repara: ermas de melodia e conceito elas se refugiaram na noite, as palavras. Ainda úmidas e impregnadas de sono, rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.

(ANDRADE, Carlos Drummond de. Obra completa. 2. ed. Rio de Janeiro, Aguilar, 1967.) “

(A arte vira meio de protesto político)

A Segunda Guerra acaba. Os aliados detêm a “vitória”. Paz. Paz? A arte está cansada de ser maltratada, destruída – não se sabe quantos livros foram queimados por Hitler, quantas obras foram perdidas na marcha devastadora dos exércitos-, e fraqueja. Como uma flor que nasce no asfalto de uma rua movimentada, os artistas ainda vivos tentam fazê-la renascer. Ainda por Drummond:

“Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.
(...)
Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.”

O mundo agora está na paz caricata da guerra fria, preparado para começar do zero a concepção do fazer poético. O modernismo já havia sido criado, mas precisava ser renovado.

Na continuação, sairemos da América e iremos para os Estados Unidos da América e para a Europa.

terça-feira, 3 de julho de 2007

A Morte e a Morte (e a morte)

(David, A morte de Sócrates)

Parte I – a Morte pela arte e mitologia

Pisterovix saúda os visitantes, estas idéias perambulando pela internet, expandindo seu campo eletromagnético de conhecimento. É a primeira vez que ele posta, e seria recomendável, sob análise das duras regras da etiqueta, que fosse cortês com os convidados. Etiqueta esta, por sinal, lembra-me que a educação – parte menos exagerada daquela – morreu, o que me faz voltar ao título do texto (para os preguiçosos, “A Morte e a Morte (e a morte)”).

Uma das temáticas sugeridas num dos encontros foi a morte, o que inspira poetas, pintores e demais mestres nas diversas formas de manifestação da arte. Não sou poeta, pintor, muito menos músico ou até dançarino (dançar algo com inspiração na morte talvez não fosse uma tarefa fácil, por sinal). Pode-se pensar que não se deve haver muito a se falar sobre a morte, supondo, de modo a concordar com a ciência, que as pessoas que dizem ter conversado com os mortos mentiram ou sonharam, e que apenas se sabe que acontece, ou até porque acontece. Nada mais que isso. Nada depois disso - ao menos, nada que misture religião.

(Baglione - A morte de São Sebastião)

(Caravaggio - A incredulidade de São Tomé)

Há várias maneiras de se trabalhar a morte.


(James Ensor - The masks and Death)

Quando a Indesejada das gentes chegar
(Não sei se dura ou caroável),
Talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
- Alô, iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com seus sortilégios.)
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.”

Essa é uma das maneiras que Bandeira, que intensamente conviveu com a morte desde seus dezessete anos, escolheu para mencionar o tema. Desprezo, frio. A morte vem... Estou à sua espera. A mesa está posta, jante comigo. (Isso daria uma ótima crônica para um bom cronista). Há para quem a morte é sagrada, seja porque há vida eterna depois dela, seja porque ela marca o fim da única jornada que temos, ou seja porque ela mesma é representada por um deus ou deusa. Como para os astecas. “MICTLANTECUHTLE, também denominado Micli ou Mictlantecuhtli (senhor do reino dos mortos, na língua asteca), é um deus que é o governante de Mictlan, a camada mais profunda do submundo asteca. É representado por uma pessoa vestindo uma caveira com dentes salientes, ou como um esqueleto. Sua esposa é Mictecacihuatl. Seus animais simbólicos são a aranha, a coruja e o morcego. É o deus regente do signo do Cão no horóscopo asteca.” (extraído da Wikipedia). Encontramos nas mitologias, assim como no texto de Manuel Bandeira acima disposto, a morte personificada. Nos quadrinhos de Hellblazer, talvez mais famoso pelo nome de John Constantine (quem não assistiu à mega-produção cinematográfica?), Mictlantecuhtole aparece como antagonista.



No livro “As intermitências da morte”, do escritor José Saramago, ganhador do Nobel, a morte aparece cômica, simpática, até mais humana. Em sua visão, a morte não é mais que, ironicamente, um funcionário do poder máximo, como se se encarregasse da faxina.

(Osíris) (Tribunal de Osíris)

Os egípcios gastavam a vida preparando-se para a morte – daí a importância dada à mumificação dos faraós. Acreditavam que, passada a morte, o deus Osíris, da vida e da morte, julgá-los-ia em seu tribunal. O coração do infeliz era pesado, e, para que pudesse alcançar a glória, deveria ser mais leve que uma pena. Além dos mutilados pela chegada dos assírios, cujo coração deveria encontrar-se em estado de leves fatias, poucos devem ter alcançado a salvação.

Há, também, os cépticos, como os mesopotâmicos, que acreditavam no pó após a morte. Não há vida. Viramos espíritos que vagam e alimentam-se de pó – fosse verdade, as casas mal-assombradas seriam lugares limpos o suficiente para você comer na mesa sem precisar passar "um paninho" antes. E há os mais cépticos. Morreu, vai comer capim pela raiz, ficar a sete palmos, dormir com os peixes, e não terá como criar mais eufemismos envolvendo aspectos naturais – naturais como a morte é natural.

“Morrer.
Morrer de corpo e de alma.
Completamente.

Morrer sem deixar o triste despojo da carne,
A exangue máscara de cera,
Cercada de flores,
Que apodrecerão — felizes! — num dia,
Banhada de lágrimas
Nascidas menos da saudade do que do espanto da morte.

Morrer sem deixar porventura uma alma errante...
A caminho do céu?
Mas que céu pode satisfazer teu sonho de céu?

Morrer sem deixar um sulco, um risco, uma sombra,
A lembrança de uma sombra
Em nenhum coração, em nenhum pensamento,
Em nenhuma epiderme.

Morrer tão completamente
Que um dia ao lerem o teu nome num papel
Perguntem: “Quem foi?...”

Morrer mais completamente ainda,
— Sem deixar sequer esse nome.”

Novamente por Bandeira, em cuja obra, já se pode ter percebido, a temática da morte é constante. Pode ter sido o caso dele descrito em sua própria frase: “A vida inteira que poderia ter sido e que não foi.”, o caso dos que olham para trás com desespero, uma amargura de insatisfação, e, agora, de impotência – nada pode ser feito em relação ao próprio passado. É mais um tipo de morte, costuma acontecer antes das demais: a morte psicológica.

(A morte do Ego)

Quincas Berro-D’Água, cujo nome foi dado pelo grito ouvido por toda a Bahia, ao confundir água e sua inconfundível bebida, nomeou, sem pretender, meu texto. O livro em que aparece é “A morte e a morte de Quincas Berro-D’Água”, do baiano Jorge Amado. O escritor foi mais esperto que seu personagem, pois a confusão que fez foi proposital. Por que “a morte e a morte”? Ora, Quincas não foi presenteado com a sorte. Não agüentava viver em casa. Fugiu, foi viver na boemia. Fê-lo até quando pôde. Quincas morre fisicamente. Mas há toda uma figura social de Quincas preservada. Depois Quincas iria morrer socialmente (como Bandeira descreve nos versos: “Morrer mais completamente ainda, / — Sem deixar sequer esse nome.”). E ainda há uma terceira que Jorge Amado, sabiamente, não expôs no título do livro, deixando a percepção dela à atenção e crítica de leitor avisado. Antes de tudo isso, Quincas morre psicologicamente. É quando decide abandonar a consciência e viver em função do ego.

Morremos. Fato. Será que não deixamos nada para trás? Há uma frase que diz que uma vida é bem vivida quando fazemos algo que mereça ser escrito ou quando escrevermos algo que mereça ser lido. Todos os povos e artistas citados aqui hoje cumpriram seu papel. E você, o que já fez?

(Jacques-Louis David - Marat Assassinated)