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segunda-feira, 30 de março de 2009

Monoteísmo e sentido da vida



Vejo como sendo muito mais provável, no caso em que se prove a existência de forças acima da humana, que estas sejam organizadas de várias formas, que sejam vários deuses, ao invés de um só. Sim, pois que, já lembra Epicuro, "deus deseja impedir o mal, mas não pode? Então ele não é onipotente. Ele é capaz, mas não deseja? Então ele é malevolente. Ele tanto é capaz como deseja impedir? E por que há mal? Ele não é nem capaz nem deseja impedir? Então por que chamá-lo deus?". Que, então, fosse uma espécie de Câmara, um Congresso, uma Assembléia-Geral, em que todos os deuses sentassem em suas cadeiras confortáveis e discutissem, eternidade afora, o futuro da humanidade. Cada deus, por sua própria natureza de divindade, teria a faculdade de vetar uma proposta, idéia, ação com relação à humanidade e o universo; entretanto, com seus egos milenares, nenhum deixaria que uma proposta de outro fosse aceita, por não ser sua própria; o mecanismo decisório ficaria travado até o fim dos tempos e o universo estaria, portanto, à própria sorte. Uma espécie de céu democrático que não funciona.



A crença acima, prefiro tachá-la de saudável. Havia pensadores gregos se perguntando "não teriam sido os deuses apenas uma criação para legitimação do poder?". Sagaz, é preciso reconhecer, foi a junção de todos os deuses num só. É claro: o poder divino sendo federativo, dividido entre terra, submundo, água, céus..., fragmentado, pois, em várias partes, dava a faculdade do uso da liberdade (posso seguir a quem eu quiser dentre as várias opções), e, ao mesmo tempo, reduzia a fé a vários grupos (sacerdotes de um deus, seguidores de outro...); enquanto a suposta existência de apenas um congregava os mediadores e os fiéis, declarava posse de todo o universo, exercendo, assim, poder imperial. Já que só ele existe, não há escolha: ele deve ser obedecido; a submissão é imposta. Os mecanismos coercitivos já existiam, mas passam a ser exercidos por um poder unitário, monolítico: não há como escapar. A pergunta acima feita sobre legitimação cai especialmente bem neste momento - tudo passa a ser uma questão de exercício de vontade de dominação.


Nem tudo ia tão mal até quando o bispo de Hipona, também identificado por Agostinho, vê a necessidade de unificar e clarificar a doutrina da igreja. Se o pensamento anterior, grego, previa um modelo de temporalidade um ciclo infinito do cosmos, (e futuramente vai-se conceber a idéia de um eterno retorno), o filósofo cristão defende a noção de um tempo linear - há um começo e um fim. O começo fica estabelecido pelos contos da Mitologia, e o fim, embora não se saiba quando, haverá de chegar, como também previsto nessa Mitologia. O conceito de linearidade traz conseqüências de toda sorte até os dias de hoje; sem linearidade, não haveria conceito de evolução, que tanto atrasa os conhecimentos de Ciência e História. Tudo gira como se fosse a história de um homem só, constituída por eventos ímpares, e que possui um sentido e uma orientação. Ora, a pretensão do homem em sua magnânima tolice fê-lo crer ser algo perante o magnânimo (de fato) universo (conceito de responsabilidade histórica), frente ao qual sua mísera existência nada significa - existiu antes de dele, continuará existindo após ele. É de entender, não obstante, a procura por atribuir à linha histórica um sentido; ele parece cessar de existir quando é desvinculado do Eu, tendo que se vincular a outras estruturas ditas onipotentes: aí que são os deuses legitimados. Em templos de reflexão como os existentes na Índia e na China, encontram-se ocidentais peregrinando em busca do sentido da vida. Os indianos e os chineses, então, se perguntam: "e por que, se não o acharam lá, acreditam que vão encontrá-lo aqui?".



A vida humana é um fenômeno supervalorizado. Se, por um lado, de nada vale o ser humano, e sua existência não tem sentido ( tem a visão temporal limitada, distinguindo presente de passado e futuro, é incapaz de alterar a rota universal, é frágil ), a reconhecer que o homem é nada; por outro, o Eu é tudo, inclusive o próprio sentido, e tudo começa com o Eu. Não pode haver nada antes nem depois do Eu, apenas durante. A apreensão da História é falsa, a comprovação da Ciência nada comprova, todo o legitimamente confiável é apenas o conjunto de sentidos e sensações. Quando aparece a consciência do Eu, tudo surge a partir e emana dele; Ciência, História, Arte; aquilo que reconhecidamente é o Eu, aquilo que não parece ser (ainda que seja) e aquilo que o Eu aparenta desconhecer, os dois últimos se dando de forma latente. O sentido não está fora - quiçá não há sentido, mas, se há, haverá de ser encontrado no e pelo Eu. Reconhece outros deuses se quiseres, eles valem apenas para os homens; mas deixe que teu Eu seja senhor do teu destino; sê teu próprio deus.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Dislexia

Toda vez que eu ia escrever "mão" eu escrevia "mãe" sem querer, e sempre acabava falando de "mãe esquerda" e "mãe direita". Os médicos me disseram que eu tinha dislexia, e tentaram trabalhar nesse sentido por um tempo. Depois descobriram que eu não estava errado, porque minha mãe era esquizofrênica.

sábado, 25 de outubro de 2008

Meios Escritos ou da pseudo experimentação da desconstrução

Utilização práticas de métodos matemáticos

Talvez o post não seja dotado de um método científico propriamente dito, mas as relações matemáticas, elaborações de provas e teoremas através de cálculos e o "matematicamente provado", as experiêcias científicas e as provas "cientificamente provadas",

Experimentação e conhecimento da verdade

além das reflexões acerca de coisas a fim de se conhecer a verdade, todas essas são meios de tentar obter verdades.

Reflexão e especulação de verdades

E é sobre a praticidade e a utilidade dessas nas convivências socio-banais e do dia-a-dia comum que tento explanar algumas abrangências.

Engraçado como as verdades são sempre fundamentadas, no senso comum, por um "alguém disse", um "foi cientificamente provado", um "fulano fez isso, é assim mesmo", e como o tempo só torna essas verdades mais sólidas. A aceitação e a comodidade mental de aceitar causalidades traz esse fato cômico. No fundo, as pessoas tendem a querer aceitar, desde que não vá de contra sua moral primeira - se é que "filosoficamente" isso existe -, ou seja, um terreiro de candomblé é tão igualmente conhecedor de verdades quanto um laboratório científico-experimental. Mais uma vez, a causalidade de experimentos, o uso da matemática, dos recursos lógicos, torna mais claro demonstrá-los - e ainda tem mais, até que consigam refutá-los (talvez usando os mesmos métodos), está valendo -, entretanto, fisica quântica e teoria do caos estão aí para quebrar paradigmas científicos: as coisas não são bem assim. Além disso, também existe a crença, não só no que "fulano me contou", mas no que algum livro ou história - concebido mais superiormente - pregue. Surge outro meio de se obter o conhecimento e a verdade. No meio epistemológico, quase tudo é válido: há quem diga que o supernatural revela, há quem prefere apontar a experimentação, ou ainda, o ceticismo cético - "nada é verdade, na verdade, nem mesmo existe uma verdade".
Por fim, só relembrando, nada do que foi dito é provado (racional, idealógica, reflexiva ou filosoficamente)... Ah... tem mais, nem ciência nem fantasia, há quem acredite que a prova para as questões "mundo", "vida" e "morte" é deus, sem métodos ou sequências lógicas, é o autoritarismo teocrático.

Acredite ou acredite!

Mas na “prática”, qual seria a utilidade de um método? O que um senhor com seus oitenta anos ganharia em seguir modelos empiristas? Ou seria melhor se ele observasse a história em seus ombros, e começasse a racionalizá-la? A fim de entendê-la melhor ou projetá-la no futuro?
Fico devendo a resposta... talvez aos oitenta eu possa encontrá-la.

Idéias: frutos de experiência ou da razão?

O fundamento desse post, muito provavelmente, é a criticidade, a comicidade e a desconstrução dos fundamentos, o que nos leva a uma inutilização do mesmo... mas torná-lo aceitável fica à critério de cada um.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Da perspectiva à desilusão

Ela não lhe levará a lugar algum.

As boas ações e o altruísmo são perspectivas individuais de manter-se vivo. Nisso, o pensamento cristão parece tão bonito, mas não quando observado pelo lado individual. Na verdade, a presença no outro não é uma mera concessão de lugar por parte do egoísmo. Fazendo isso, o eu se descobre como uma centelha viva, quando é lembrado ou comentado.
Entretanto, o poder que o pensamento sobre morte nos implica é tão grande, e maior que esta centelha, que por vaidade e luxo – da vontade de continuar – não se supera a idéia de cessar – simplesmente.
Imaginar o nada ainda parece ser bom se comparado ao estar no nada. Na verdade, deixa de ser um estado, uma localização ou uma característica, é uma descaracterização total. Por isso, como dito, esse poder de pré-cognição (do “fim do finito”) tende a ganhar vantagem, ao ponto de que, se não fossem os meios de escape, a exaustão cerebral certamente seria um fato seguro. E aí entra o pensamento cristão (e demais semelhantes): a da perspectiva individual de manter-se vivo, mesmo após o facto pré-conhecido, seja no espírito, no filho ou no pai. Mas isso também implica no não-mais-bonito pensamento cristão: o de exaltar-se no além, uma projeção de encontro ao ser, o estar indefinidamente.
Por fim, juntando-se o necessário ao desejável, surge um ser-no-nada, um não-ser para a tudo consolar: a idéia da finitude, da paralização, do estático e da inconsciência a partir de um ponto e tendendo ao infinito. Esse ser não passa de um consolo individual, uma prática mesquinha e uma forma de escape, uma forma de tentar enganar a consciência da consciência, da natureza da morte.
O vazio contínuo assusta quem não tem prévio conhecimento e não tem costume de associar um fim aos fatos. Por toda a natureza, é percebido um comportamento instintivo de perpetuação, mas não de continuação. Animais lutam por sobreviver, mas não por luxo, por questão social. Sua liberdade é uma função da espécie. A prova disso é que não existe suicídio entre a natureza não-humana. Esses seres desfrutam da vida em comum, ignoram o fato de uma parada brusca, uma transição para o nada, simplesmente estão a deriva naquele estado. Como uma criança que tem tanta consciência de que um pulo de um prédio será fatal, quanto um louco.
Aquele que reflete sobre sua vida – e por isso não deixa de refletir sobre a morte – está num patamar onde a idéia do vazio contínuo se torna presente, mas não tão assustadora, uma vez que o desfrute da vida é mais importante agora. O costume de conversar com ela, torna-lhe – a vida – mais atraente, torna-lhe mais urgente, como quem se descobre a beira da morte e desilude-se da idéia infantil e duvidosa de deus.
E, se for desprezado a cortezia egocentrista do pensamento religioso, aquele que torna a vida urgente apreciará melhor, assustar-se-á menos, e precirá tampouco de consolo da além-vida. Talvez nesse curto período de privilégio cedido pela natureza, seja possível estar vivo, sem se assegurar em um destino, uma meta-vida de encontro com o ser, ou seja, existir, sem necessidades de perspectiva do eu em outro local, senão na própria existência, tornando-se diferente das fraquezas e consolos religiosos, da inocência e loucura, da inconsciência animal, além de tornar-se livre do “inferno dos outros”.

sábado, 16 de agosto de 2008

A necessidade de reconhecimento do outro

O direito de cada um termina onde o do vizinho começa. Certamente não foi baseado nesse princípio que o Novo Mundo foi colonizado pelo Velho Continente. Mas é baseado num princípio de filosofia da história que afirmo que a lógica de funcionamento de todo sistema social enquadrado numa era difere completamente de outro somente por estar num contexto de outra era; e vivendo hoje numa era da vitória da democracia liberal, princípios kantianos e direitos humanos, não deveríamos cogitar o genocídio cultural. Se é função do Estado Logístico [1], além de outras coisas, que os acordos sejam cumpridos, voltamos ao primeiro princípio desse texto. Sendo assim, já não estamos sós: passa a nos ser obrigatório conhecer os limites dos direitos alheios - que, em conjunto, definirão o nosso próprio.

Cada ser vive, contudo, em busca de satisfação própria; não se pode nem deve crer que se possa viver em busca de um ideal de satisfação geral. Até a busca pela concretização do comunismo como ele é pra ser é uma busca de cada um por todos, mas, novamente, de cada um pra si, no sentido de que esse sistema visa a propiciar a cada um tudo aquilo que lhe é necessário e lhe apraz, permitindo a todos - mas principalmente a cada um - que possam ser quem são de fato. E não é esse, afinal, o princípio e o fim da existência em sociedade, garantir que possamos, individualmente, viver melhor e ter mais acesso ao conjunto das nossas satisfações? Para isso, vivemos num universo de concessões: só podemos ter ou fazer ou ser algo se deixarmos isso ou aquilo de lado.

Os tempos são de razão, ainda que positiva. Não cabe aqui julgar, cada um pode - e não seria mal que o fizesse - conceber suas idéias de justiça, contanto que não a execute por sobre as justiças alheias. É assim que a idéia de justiça - bem como outras idéias que permeiam, mesmo que não de maneira clara, a nossa (con)vivência - deixa de ser teoria (universal em essência e prática; visa ao bem geral; positivo) e vira conceito (particular; vinculado a um meio; assumidamente visando ao bem desse meio)[2]. A existência e, talvez e principalmente, o embate entre teorias e uniões de conceitos é inevitável, e útil no sentido de produzir conhecimento voltado para a prática. Assim, não é aceitável para a Lógica[3] que alguém, em busca de um ideal que é seu, dizendo-o maior e universal, romantizado, busque a realização dessa proposta, porque ela inevitavelmente passará por cima de outras propostas. As forças sociais respondem negativamente a toda tentativa similar. Idealizaram o Contrato Social, em que cada indivíduo cede direitos pela esperança de receber o que ele precisa de volta; e é o Estado, beneficiado das cessões de cada um, quem vai definir, em cada caso, o que é teoria, o que é conceito individual e o que é conceito de Estado, sendo a diferença entre os dois que o de Estado, por supostamente representar a sociedade, vale para todos e consegue abranger todo o universo do contexto em que foi produzido, e o individual, se fugir aos ditames do outro, é passível de punição.

Considerando o que já foi dito, não podemos falar que vivemos plenamente em sociedade ou plenamente em estado natural; esses são apenas - o que já é muito - dois níveis de análise; e, tomando um pouco de cada, somos seres aparentemente onipotentes, mas que, posto dessa maneira, dependemos da onipotência alheia - e que ambas estão sobre a onipotência real do Estado. Não é mais somente questão de força - na Lógica, somos aparentementes detentores de poder semelhante-, mas passa a ser uma questão de legitimidade, o que requer, antes de tudo, que respeitemos a questão do espaço de atuação de cada força[4]. Requer também, em seguida, que os demais poderes (demais pessoas; também representam o Estado) concordem com o que se propõe fazer (ou tenham concordado previamente). Deve-se lembrar que cada vez em que se legitima um ato, perde-se espaço no espaço de atuação do poder próprio, o que é feito em busca de um bem maior - a satisfação própria.

Tendo tudo isso em vista, o que sobra para cada um? Não tanto, mas o interesse inicial - o da auto-satisfação - permanece inteiro. Podemos dizer, então, que caminhar nesse sentido pode tornar-se uma corrida num campo minado no sentido de que é uma estrada que se deve seguir com bastante cautela; fica comparável a um jogo de xadrez pelo que requer de estratégia e concentração. Jogamos com essas forças - dos indivíduos que definem nosso direito, com a sociedade como um todo e como o Estado, força acima de tudo. Um ser que busca a plenitude própria não pode deixar de agir com ponderação e capacidade crítico-reflexiva porque ele está em constante clima de ameaça com as forças que o cercam - já que ele também contribui para definir os limites das outras forças - para poder aproveitar da melhor maneira possível o seu campo de possibilidades. Por fim, neste raciocínio, a Lógica não aceita exceções: tudo aquilo que foge ao que é estabelecido será posto à margem dos bens proporcionados pela vida em sociedade / sob um Estado. As forças sociais garantem que aquele que se marginalizar dos mecanismos sociais inevitavelmente perderá.

Fazendo rápida menção a outro ponto de vista, que também devemos tratar não como total, único ou certo, e sim como nível de análise, e se entendêssemos que nós, realmente, não nos sentimos atraídos por todas essas propostas? É algo que nos é passado desde a educação primária - saber se encaixar na sociedade para aproveitar o que ela tem a oferecer, ou que não o fazer nos traria prejuízos. É um raciocínio que se reproduz e enraíza. Percebe-se que a base de conhecimento de cada um advém da infância: desde o contato que tem com os pais até a influência (não absoluta) do meio em que viveu; se não fosse, entretanto, esse contato, o que seríamos? Como as duas meninas que, jogadas na selva, criadas no meio lupino, passaram a comportar-se como lobas. Podemos, também, então, dizer que vivemos em sociedade porque é a partir dela que não viramos um um com o mundo natural, e podemos passar a nos distinguir de maneira tripla: do meio natural, da sociedade e de nós mesmos, que passamos a ser capazes de nos reconhecer e repensar. A proposta, à medida que vamos envelhecendo, é que aumentemos esses graus de diferenciação, em movimentos especializadores, de modo a que aumenta, também, a nossa definição partindo da definição dos outros, em que tomamos para nós elementos dos vários outros para que sejamos um só. Nessa perspectiva, definimo-nos nos outros, ao menos parte de nossos traços, por interesse - que poderíamos até caracterizar como fetiche.

Para exemplificar, voltemos ao caso da colonização européia da América Latina. Isso será, em algum grau de intensidade, um processo de desconstrução de uma idéia que se defendeu até agora - o que me faz reforçar a idéia da não-completude de cada teoria, mas no seu bom encaixe como nível de análise - : não há, na verdade, um maniqueísmo em nenhum dos pares antitéticos levantados anteriormente; um se define e se completa no outro. Na historiografia, costuma se falar em uma sociedade conquistadora, marcada pelo massacre, e outra, indígena, marcada pelo sangue do sacrifício. Para esta, era aceitável fazer um sacrifício diário de um ser humano para que o sol nascesse no outro dia, o que é uma prática (reiterada) de reafirmação dessa sociedade específica enquanto diferente das outras. Para aquela, fazer sacrifícios para deuses era uma monstruosidade (auto-definição pela diferenciação), mas cometer genocídios físicos (matar pessoas) e genocídios culturais nos diversos povos (reafirmação) era o aceitável, o normal. Ainda assim, mesmo que não vejamos, nas narrativas tradicionais, nenhuma história de português que tenha passado a adorar Tupã, são inúmeras as histórias de europeus que largaram o que tinham pra tentar a vida na América Latina, sentindo-se atraídos pelo que a "nova" terra tinha a oferecer e chegaram a ajudar na criação de nações, aprendendo o idioma local e interagindo com os indígenas, como o caso de Inés de Suarez. No outro sentido, também os americanos (nascidos na América) que se interessavam pelo bens, pelos animais, enfim, pelo novo. É um jogo de sedução que tem mão-dupla. Dessa forma, passa a ser do interesse individual o relacionamento com o outro porque isso traz coisas novas para as partes. E, ainda no exemplo dado, são discursos de laços fortes que se repetem, de europeus que manifestam pulsante vontade de vir à América Latina (se) conhecer.

De maneira similar a tudo o que foi demonstado, funciona o jogo de relações entre os Estados. Consideramos apenas que os níveis de análise (chamemos de imagens) passam a ser o de anarquia e sociedade internacional e que não são regidos por um órgão supraestatal[5]mas concessões são feitas entre os Estados para a criação de normas de direitos humanos, direito internacional e o bom funcionamento de influentes organizações internacionais (sem querer mencionar o Conselho de Segurança da ONU). As teorias procuram fundamentar aspectos que deveriam funcionar para todas as realidades, e os conceitos são os formuladores de políticas exteriores e externas; os Estados têm de respeitar os acordos firmados e, enquanto soberanos interna e externamente, têm, teoricamente, o mesmo peso em decisões, de modo a que um não possa se sobrepor aos conceitos dos outros. Tendo todos esses percalços em vista, a diplomacia - que falta nas relações interpessoais - existe pra ,entre outras coisas, diminuir os atritos do lado do seu país-mãe (que ajuda a definir quem ele próprio é). Os Estados precisam fazer planos pela busca dos seus interesses que levem em consideração todos os outros Estados, que ajudam a definir seu próprio espaço de atuação. Que nem a Rússia, que não considerou a soberania (garantia de autonomia) da Geórgia, e dos EUA, que aspiram à delegacia do mundo. E do mesmo modo que atuam as forças sociais para punir os que fogem ao sistema, todos os Estados com pretensões hegemônicas começam a juntar inimigos demais, o que, inevitavelmente, levaria a seu fim. É por isso que dizem que todo império perecerá. É isso.



[1] Estado Logístico é, dentro do paradigma neoliberal, aquele que não funciona exatamente como um welfare state, gerenciando mais fortemente e provendo serviços, mas aquele que deve conduzir (auxiliar) a sociedade na busca de seus interesses e satisfação, o que justifica, dentro dessa corrente, a existência de um Estado que não seja nem mínimo nem interventor demais.
[2] A existência e, talvez e principalmente, o embate entre teorias e uniões de conceitos é inevitável, e útil no sentido de produzir conhecimento voltado para a prática.
[3] Entende-se Lógica, com a maiúscula alegorizante, nesse texto, como a lógica de funcionamento do atual sistema.
[4]Devemos entender espaço de atuação de cada força como a amplitude do direito de cada um.
[5] Essas relações interestatais estariam, no equivalente humano, na fase de organização social anterior à criação de um Estado, já que estão ainda engatinhando, de tão jovens (têm como marco inicial o ano de 1648).

terça-feira, 29 de julho de 2008

Somos zumbis?

No Haiti, eles são parte do folclore. Em Hollywood, ficaram famosos em comédias de humor negro pelo grito "Miooolos!". Há, no entanto, ciestistas que os levam a sério: psicólogos e filósofos discutem se é possível um humano ser um zumbi. A "teoria zumbi" é um inusitado tema de debates apaixonados entre estudiosos da consciência humana. Mas o morto-vivo filosófico ("philosofical zombie" ou "p-zombie") é diferente dos esfarrapados personagens dos filmes de George Romero. Trata-se de uma criatura hipotética, igual a um ser humano, exceto pela consciência. Se existisse, ao tropeçar numa pedra, por exemplo, não sentiria dor. Para senti-la, o cérebro humano, como uma máquina, precisa primeiro da informação do que é a dor. E essa informação depende da consciência.

O precusor na área é o inglês Robert Kirk. Em 1974, no artigo "Zumbis x Materialistas", ele propôs uma versão de "As Aventuras de Gulliver", de Jonathan Swift, em que os habitantes de Liliput dominam a mente do visitante e o transformam em Zulliver, um morto-vivo com a mesma aparência e funções coportais mas suas sensações e emoções dependem das ordens das minúsculas criaturas em sua cabeça. Ainda poderia ser considerado humano?

David Chalmers, vai além no livro "The Conscious Mind" (não traduzido no Brasil), de 1996, no qual descreve um mundo onde todos são zumbis. Desde então, defensores e críticos da hipótese discutem se tais criaturas seriam ou não possíveis.
Os títulos de alguns trabalhos dão a medida da polêmica. "Conversas com Zumbis", "Sim, Nós Somos Zumbis" e "O Ataque Zumbi".

Parece perda de tempo discutir os mortos-vivos a sério, mas as implicações justificam o debate. "Se eles não são possíveis, então a mente é o cérebro e nada mais. Isso abre a possibilidade para a noção de que um computador pode ter uma mente", diz Gustavo Leal Toledo, da PUC-RJ, autor de trabalhos sobre zumbis filosóficos. Um robô ou androide a princípio seria um morto-vivo. "Mas, se criarmos um robô complexo, ele terá consciência em algum momento", diz João Texeira, professor de ciência cognitiva da Universidade Federal de São Carlos. Além de inteligência artificial, as especulações envolvem clonagem e - caso a teoria esteja errada (e a consciência for mesmo parte do cérebro) - a possibilidade de a pscicologia ser substituída por uma neurociência capaz de criar remédios ou cirurgias que mudem o modo como as pessoas percebem o mundo.

No fundo, discute-se a noção de humanidade. Se somos únicos ou se no futuro poderemos ser reproduzidos numa máquina. Mesmo que em algum momento, de brincadeira, ela seja capaz de dizer "Miooolos".

(Alexandre Rodrigues - Revista Galileu - Abril/2008)

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Leitura interessante, só para constar algo sobre diversos temas que nos esperam no futuro. Muito embora não concorde com tudo que esteja escrito aí em cima, vale à pena, refletir um pouco sobre nossa sociedade e a maneira como estamos intimamentes ligados à tecnologia, mas, paradoxal e totalmente desligados de uma consciência acerca das mudanças.

Segue um outro post, do pisterovix, com uma excelente explanação dos temas.
http://saraugourmet.blogspot.com/2008/07/revolues-paradigmas-futuro.html

quinta-feira, 27 de março de 2008

"Do pó vinhemos, do/ao pó voltaremos"

Se existisse um mundo metafísico, depois da vida terrena, onde os homens chegariam após ter alcançado sua complementação - a morte -, seria interessante, quem sabe até mesmo penoso (ao olhar humano) ver a decepção e a tristeza estampada nos rostos dos mesmos, ao saber que todas aquelas promessas foram mentiras absurdas e que esse "mundo do além" foi apenas uma forma de se iludirem durante todo o tempo e suprirem suas fraquezas mais incoscientes, dentre elas a necessidade de se prolongar em vida (uma forma de exercer seu narcisismo). Depois da tristeza primeira, cairiam lágrimas de tristeza misturadas à decepção de não encontrar tudo aquilo que sempre foram induzidos a acreditar (e depois de algum tempo, acreditavam independentemente - como já foi dito - para se satisfazerem); Após isso, a decepção iria cedendo lugar à revolta ou ao conformismo, dependendo da natureza do ser terreno, e então poderiam surgir grupos radicais e anárquicos ou pacifistas e liberais. Do segundo grupo nasceriam possíveis pregadores mais engajados, enquanto do primeiro, certamente surgiriam líderes com reinvidicações e motivos "justos" para protestarem (mais tarde, em nome de algo, ou Algo), e levarem seus "lacaios" à prosperidade.

Após tempos indeterminados, o mesmo mundo estaria à beira de um novo colapso, como a antiga vida terrrena. Alguns explicariam o fato de acordo com as pregações daquele grupo, que não foi devidamente escutado. Outros diriam que hereges e traidores dificultaram o objetivo (qual?). No final das contas, depois de algum tempo (como costuma acontecer aqui na Terra, orgulho e honra se misturariam), gerações entrariam em conflito e voltariam a viver no mesmo mundo mórbido de antes, sem perceberem. Suicidios seriam cometidos aos montes, na tentativa de se libertar desse mundo (com esperança em um outro melhor), mitos seriam criados para suprir as mesmas necessidades que se repetiriam, e esperariam mais épocas para poderem transcender a um admirável mundo novo, onde reinaria as profecias, a paz, "a igualdade, liberdade, fraternidade", como pregou alguma revolução aqui na Terra.

"Tudo o que era estável e sólido desmancha no ar; tudo o que era sagrado é profanado, e os homens são obrigados a encarar com olhos desiludidos seu lugar no mundo e suas relações recíprocas" (Marx).

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Vitória do conhecimento sobre o mal radical

Para aquele que quiser tornar-se sábio, é de grande proveito ter tido durante certo tempo a concepção do homem fundamentalmente mau e corrupto: é falsa a concepção oposta, mas, durante épocas inteiras, foi ela que dominou e suas raízes se ramificaram até dentro de nós e de nosso mundo. Para nos compreeendermos, temos de compreendê-la; mas para depois subir mais alto, temos de superá-la. Reconhecemos então que não há pecados no sentido metafísico; mas que, no mesmo sentido, tampoucou há virtudes; que todo esse domínbio de idéias morais está oscilando constantemente, que há conceitos mais elevados e mais baixos do bom e do mau, do moral e do imoral. Aquele que não requer das coisas mais do que conhecê-las chega facilmente a viver em paz com sua alma e é quando muito por ingnorância, mas dificilmente por concupiscência que vai errar (ou pecar, como diz o mundo). Não vai querer mais excomungar e extirpar os apetites; mas o objetivo único que o domina inteiramente, de conhecer a todo momento tão bem quanto possível, vai lhe dar sangue-frio e vai apaziguar tudo o que há de selvagem em sua natureza. Além disso, desembaraçou-se de uma multidão de idéias torturantes, já não se impressiona mais com as palavras sobre as penas do inferno, sobre o estado de pecado, sobre a incapacidade para o bem: apenas reconhece nisso as sombras evanescentes de concepções de mundo e de vida, que são falsas.

(Nietzsche, F., Humano, Demasiado Humano, Ed. Escala)

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Avanço do "intelecto"?

Substituto da Religião

Julga-se fazer honra à filosofia, ao propô-la como um substituto da religião para o povo. De fato, na economia espiritual é necessária ocasionalmente uma ordem transitória de pensamento; assim, a passagem da religião para a concepção científica é um salto violento, perigoso, algo a desaconselhar. Nesse sentido, há razão nessa recomendação. Mas, finalmente, dever-se-ia admitir também que as necessidades que a religião satisfez e que agora a filosofia deve satisfazer, não são imutáveis; essas necessidades podem ser enfraquecidas e extirpadas. Basta pensar, por exemplo, na miséria da alma cristã, nos gemidos diante da corrupção interior, na preocupação com a salvação - tudo noções que não derivam senão de erros da razão e que não merecem satisfação nenhuma, mas sua destruição. Uma filosofia pode servir em ambos os sentidos, tanto porque satisfaz essas necessidades como porque as elimina, pois são necessidades aprendidas, limitadas no tempo, que repousam em hipóteses contrárias às da ciência. Nesse caso, o que deveria servir de transição é muito pelo contrário a arte, a fim de aliviar a menos alimentados pela arte do que pela filosofia metafísica. A partir da arte, pode-se em seguida passar mais facilmente a uma ciência filosófica realmente libertadora.

(Nietzsche, F. - Humano, demasiado humano - ed. Escala)


Como Nietzsche descrevera há 130 anos, a filosofia seria o meio de "libertação" das necessidades religiosas que tanto criticara. Na sua época, o mundo se expandia fortemente com o avanço da indústria capistalista e a razão ganhava terreno.
Atualmente, com todo o avanço da ciência, as religiões tremem em suas bases quando são desmacarandos seus mistérios - alimentados durante toda a evolução humana, e "catequisado" por elas.

"De fato, na economia espiritual é necessária ocasionalmente uma ordem transitória de pensamento". Essa ordem incluiria a ciência - assumindo o papel de carrasco perante os religiosos, matando dogmas e mais dogmas a cada dia. Os religiosos, principalmente os ocidentais, não vêem que há muito já não conseguem se manter e é só uma questão de tempo para que se torne verdade o que Nietzsche proferizou. Podemos ver essa liberdade no Velho Mundo - o mesmo que Nietzsche viveu -, atual, em que as sociedades estão cada vez mais "livres".

Entretanto, "dever-se-ia admitir também que as necessidades que a religião satisfez e que agora a filosofia deve satisfazer, não são imutáveis;". De fato, uma vez que a ordem de "libertação" deve obedecer a sequência de transição, algumas necessidades religiosas devem ser satisfeitas pela sua substituta - a filosofia -, até que essas já não sejam precisamente "necessidades". Os exemplos citados por Nietzsche são só alguns pontos que os seres que já tenham se libertado das correntes religiosas não sentirão mais.

Ao final do texto, ele cita a arte como uma auxiliar nessa transição, já que essa liberta a consciência sobrecarregada, ao invés de alimentá-la. Não determina limites ao homem, enquanto a filosofia metafísica o amedontra. Torna-o livre, enquanto a outra aprisiona em dogmas irracionais.

Obs.: A Encyclopædia Britannica estima que cerca de 2,5% da população mundial se classifica como ateísta. Parte considerável das pessoas, cerca de 12,8%, tende a se descrever como "não-religiosa". Enquanto boa parte desses 2,5% se encontra na Europa, é importante ressaltar que da população, o "povão" dos países em transição e de terceiro mundo - maioria da população, a exemplo da China, da Índia e do Brasil, que totalizam mais de 30% da população mundial - não tem um nível intelectual "necessário" para aderir à ciência, à arte e à filosofia. Talvez isso já seja uma estratégia política-administrativa dos governantes.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Onde está a liberdade tão alimentada pelo sonho humano?


"Liberdade, essa palavra

que o sonho humano alimenta

que não há ninguém que explique

e ninguém que não entenda.
"

(Cecília Meireles)

Para Bertrand Russell, filósofo e matemático inglês do séc. XX, em seus Ensaios Céticos, a liberdade é um valor que admite gradações. Como argumento, ele cita o exemplo de crianças que deixadas por conta própria, mais cedo ou mais tarde terminaram em maus caminhos, e que por isso a liberdade delas deve ser monitorada por adultos, os quais também lhes devem impor limites. Mas a grande questão levantada é: até que ponto a autoridade dos adultos sobre as crianças deve ser permitida e como deve ser imposto esse limite. Além disso, o homem também deve obedecer a certos limites ou aproveitar sua liberdade ao máximo?

Atualmente, as pessoas sentem-se ofendidas toda vez que a liberdade é colocada em risco ou sob ameaça. Esse limite sobre a liberdade infantil defendida por Russell, muitas vezes é mantido durante toda a vida, em situações “normais”, por exemplo, quando, em um condomínio, residencial ou empresarial, se criam e se aceitam leis e regras, ou um salário mínimo que um regime determina. Geralmente, um grupo de pessoas, por mais homogêneo que seja, tende a eleger um líder (como comentara Montesquieu, em suas Cartas Persas, que aos seres humanos sempre cai o jugo de serem submissos), e esse passa a exercer um cargo de autoridade, por mais democrático que seja o grupo. A autoridade é quem, geralmente, determina as regras e as leis que o grupo deve seguir, e às vezes, quando a autoridade é exercida demasiadamente, o grupo é proibido, perdendo parte de sua integridade, enquanto ser livre.

Seguindo-se essa linha, temos que a humanidade é contraditória em sua essência, pois ao passo que abole qualquer ato de escravidão (embora durante muito tempo essa tenha sido a forma mais comum de mão-de-obra), aceita pacificamente leis que, em determinadas situações são piores que a própria escravidão da Antiguidade. Por exemplo, trabalhadores assalariados que passam 12 horas numa jornada de trabalho para ganhar um salário sobrevivendo miseravelmente, e consumir o produto que eles mesmos produziram na fábrica de seu patrão – o burguês, que assume o papel de autoridade perante esse regime de escravidão travestida de liberdade.

Não só na relação de pessoas, mas também entre países, existe essa relação de senhor feudal e vassalo, em que o mais fraco sempre fica dependente do mais forte economicamente, (conseqüentemente autoritário, pois é detentor de um maior poder bélico, talvez, maior riqueza e, portanto, maior liberdade de expressão). Essa relação senhor feudal X vassalo começa entre os próprios governantes desses países e resultam em boas condições de vida (com direito a casas, carros) para os “livres”, ou mantenedores de poder opressivo – os dominadores –, e fome, desigualdade e escravidão aos segundos.

Teoricamente falando, a ética atual do ocidente descendente das três máximas da Revolução Francesa – Liberdade, Igualdade e Fraternidade –. Embora a Organização das Nações Unidas pregue que "Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade.”, a própria humanidade já fez questão de banir a igualdade, fechar os olhos à fraternidade e aos poucos tornar a liberdade um valor meramente figurativo, já que apenas no papel existe algo que mantenha os seres humanos livres e iguais.

Com isso, pode-se chegar à conclusão de que o homem (enquanto ser individual, mas sociável – e contraditório) certamente apóia a liberdade, mas pouco faz para manter a sua própria. À medida que é subjugado pela autoridade mais próxima, aceita que essa prevaleça e teça sobre ele limites, às vezes, tão banais, que mesmo sendo adultos e dotados de maturidade em relação às crianças, têm de aceitar, pois o poder tem a característica de corromper quem está sob e sobre o poder. Com isso, não é de se admirar que alguns países tentam, a todo custo, manter (des)informados a população de acordo com a melhor estratégia para se poder manipula-la, assim como os fazem, alguns pais quando criam seus filhos.

terça-feira, 18 de setembro de 2007

A Inutilidade da Teologia

Autor: Richard Dawkins
Tradução: Vinicius de Abreu Waldow
Fonte: Sociedade da Terra Redonda
Original: Free Inquiry magazine, Volume 18, Número 2.



Um editorial infeliz e ingênuo do jornal britânico Independent recentemente pediu uma reconciliação entre ciência e “teologia”. Dizia que “As pessoas querem saber o tanto quanto possível sobre suas origens”. Com certeza, espero que elas queiram, mas o que diabo faz alguém pensar que a teologia tem algo de útil para dizer sobre esse assunto?

A ciência é responsável pelas seguintes informações sobre nossas origens. Nós sabemos aproximadamente quando o Universo surgiu e porque ele é, em sua maioria, de hidrogênio. Nós sabemos por que as estrelas se formam e o que acontece no interior delas para converter hidrogênio em outros elementos, dando origem à química em um mundo físico. Nós sabemos os princípios fundamentais de como um mundo químico pode se transformar em biologia através do aparecimento de moléculas auto-reprodutoras. Nós sabemos como o princípio da auto-reprodução deu origem, através da seleção darwiniana, a toda a vida, incluindo os humanos.

Foi a ciência e apenas a ciência que nos ofereceu esse conhecimento e, além disso, o ofereceu em detalhes fascinantes, preponderantes e que se confirmam mutuamente. Em cada um desses aspectos, a teologia tem mantido uma visão que se mostrou definitivamente errônea. A ciência erradicou a varíola, pode imunizar contra a maioria dos vírus e matar a maioria das bactérias que anteriormente eram mortais. A teologia não tem feito nada a não ser falar das doenças como punições para nossos pecados. A ciência pode prever quando um cometa em particular irá reaparecer e, de quebra, quando o próximo eclipse irá ocorrer. A ciência colocou o homem na Lua e lançou foguetes de reconhecimento ao redor de Saturno e Júpiter. A ciência pode lhe dizer qual a idade de um fóssil específico e que o Santo Sudário de Turim é um embuste medieval. A ciência sabe as instruções precisas no DNA de vários vírus e irá, durante a vida de muitos leitores presentes, fazer o mesmo com o genoma humano.

O que a teologia já disse que teve qualquer valor para alguém? Quando a teologia disse algo que foi demonstrado como verdadeiro e que não seja óbvio? Tenho ouvido os teólogos, lido o que escrevem, debatido com eles. Nunca ouvi algum deles dizer algo que tivesse alguma utilidade, qualquer coisa que não fosse trivialmente óbvio ou categoricamente errado. Se todas as realizações dos cientistas forem apagadas do mapa no futuro, não haverá médicos, e sim xamãs; não haverá meio de transporte mais rápido que o cavalo; não haverá computadores, nem livros impressos e, muito menos, agricultura além das culturas de subsistência. Se todas as realizações dos teólogos forem apagadas do mapa no futuro, alguém perceberia a mínima diferença? Até mesmo as realizações negativas dos cientistas, como as bombas e navios baleeiros guiados por sonar funcionam! As realizações dos teólogos não fazem nada, não afetam nada, não significam nada. Afinal, o que faz alguém pensar que “teologia” é um campo do conhecimento?

Richard Dawkins é professor de entendimento público da ciência na Universidade de Oxford, e autor de "O Gene Egoísta", "A Escalada do Monte Improvável" e "Desvendando o Arco-Íris".

Fonte: http://www.ateus.net/artigos/critica/a_inutilidade_da_teologia.php

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Uma Breve História da Religião - Parte II

Depois de abordar de modo geral as culturas que deram origem às diversas religiões, abordaremos individualmente as principais religiões atuais:

1) Judaísmo

Moisés segurando a Tábua das Leis


Das grandes religiões monoteístas existentes no mundo, o judaísmo é a de raízes mais antigas. De seu seio surgiu o cristianismo, enquanto o islamismo adotou vários elementos judaicos e reconheceu Abraão e Moisés como profetas.
Judaísmo é, em sentido restrito, a religião dos antigos hebreus, hoje chamados judeus ou israelitas, e, num sentido mais amplo, compreende todo o acervo não só de crenças religiosas, como também de costumes, cultura e estilo de vida dessa comunidade étnica, mantido com constância e flexibilidade ao longo das vicissitudes de cerca de quarenta séculos de existência.

1.1 ) História dos judeus

A Bíblia é a referência para entendermos a história deste povo. De acordo com as escrituras sagradas, por volta de 1800 AC, Abraão recebeu uma sinal de Deus para abandonar o politeísmo e para viver em Canaã (atual Palestina). Isaque, filho de Abraão, tem um filho chamado Jacó. Este luta , num certo dia, com um anjo de Deus e tem seu nome mudado para Israel. Os doze filhos de Jacó dão origem as doze tribos que formavam o povo judeu. Por volta de 1700 AC, o povo judeu migra para o Egito, porém são escravizados pelos faraós por aproximadamente 400 anos. A libertação do povo judeu ocorre por volta de 1300 AC. A fuga do Egito foi comandada por Moisés, que recebe as tábuas dos Dez Mandamentos no monte Sinai. Durante 40 anos ficam peregrinando pelo deserto, até receber um sinal de Deus para voltarem para a terra prometida, Canaã.
Jerusalém é transformada num centro religioso pelo rei Davi.

Após o reinado de Salomão, filho de Davi, as tribos dividem-se em dois reinos : Reino de Israel e Reino de Judá. Neste momento de separação, aparece a crença da vinda de um messias que iria juntar o povo de Israel e restaurar o poder de Deus sobre o mundo.

Em 721 começa a diáspora judaica com a invasão babilônica. O imperador da Babilônia após invadir o reino de Israel, destrói o templo de Jerusalém e deporta grande parte da população judaica.

No século I, os romanos invadem a Palestina e destroem o templo de Jerusalém. No século seguinte, destroem a cidade de Jerusalém, provocando a segunda diáspora judaica. Após estes episódios, os judeus espalham-se pelo mundo, mantendo a cultura e a religião. Em 1948, o povo judeu retoma o caráter de unidade após a criação do estado de Israel.

1.2) Subdivisões

Judaísmo Conservador

Esta corrente defende a idéia de que o Judaísmo resulta do desenvolvimento da cultura de um povo que podia assimilar as influências de outras civilizações, sem, no entanto, perder suas características próprias. Assim, o Judaísmo Conservador não admite modificações profundas na essência de suas liturgias e crenças, mas permite a adaptação de alguns hábitos, conforme a necessidade do fiel.

Judaísmo Ortodoxo

Corrente que se caracteriza pela observação rigorosa dos costumes e rituais em sua forma mais tradicional, segundo as regras estabelecidas pelas leis escritas e na forma oral. É a mais radical das vertentes judaicas.

Judaísmo Reformista

O Movimento Reformista defende a introdução de novos conceitos e idéias nas práticas judaicas, com o objetivo de adaptá-las ao momento atual. Para esta corrente, a missão do judeu é espiritualizar o gênero humano - a partir deste ponto de vista, torna-se obsoleto qualquer preceito que vise separar o judeu de seu próximo, independentemente de crença ou nação.


1.3) Símbolos do Judaísmo

- O Muro das Lamentações – em Jerusalém, é o que resta do templo de Herodes, destruído pelos romanos no ano 70 d.C. Aqui os hebreus vêm rezar. É o único lugar sagrado de todo o Judaísmo.

- O Candelabro dos sete braços – A "Menorah" é o símbolo do Judaísmo. O 7 é para os Judeus o número da plenitude, da perfeição.
- A Sinagoga – É o lugar de oração, de estudo e de reunião.
- O Rabino – Os hebreus não têm sacerdotes. O Rabino é só um mestre, um guia espiritual para os fiéis na interpretação da Bíblia.
- O Sábado – É o dia semanal festivo dos judeus. Começa ao pôr-do-sol de Sexta-feira e vai até ao pôr-do-sol de Sábado. É um dia dedicado à oração e ao descanso.

1.4) As festas

- O dia do perdão – «Yom Kippur
» – festa de jejum e de expiação. Cada judeu deve estender ao seu inimigo a mão da reconciliação, esquecendo as ofensas e pedindo desculpas.
- A festa da Páscoa – «Pessah» – recorda a saída do povo hebraico do Egipto, guiado por Moisés. Prolonga-se por oito dias.
- A festa do Pentecostes – «Shavuot» – recorda a Dom da Torá (Dez Mandamentos), dada por Deus a Moisés, no monte Sinai.

1.5 ) Crenças

Conceitos de vida e morte: O entendimento dos conceitos de corpo, alma e espírito no judaísmo varia conforme as épocas e as diversas seitas judaicas. O Tanakh não faz uma distinção teológica destes, usando o termo que geralmente é traduzido como alma (néfesh) para se referir à vida e o termo geralmente traduzido como espírito (ruach) para se referir à fôlego. Deste modo, as interpretações dos diversos grupos são muitas vezes conflitantes, e muitos estudiosos preferem não discorrer sobre o tema.

Ressurreição e a vida além-morte: O Tanach, excetuando alguns pontos poéticos e controversos, jamais faz referência à uma vida além da morte, nem à um céu ou inferno, pelo que os saduceus posteriormente rejeitavam estas doutrinas. Porém após o exílio em Babilônia, os judeus assimilaram as doutrinas da imortalidade da alma, da ressurreição e do juízo final, e constituiam em importante ensino por parte dos fariseus.

Nas atuais correntes do judaísmo, as afirmações sobre o que acontece após a morte são postulados e não afirmações, e varia-se a interpretação dada ao que ocorre na morte e se existe ou não ressurreição. A maioria das correntes crê em uma ressurreição no mundo vindouro (Olam Habá), incluindo os caraítas, enquanto outra parcela do judaísmo crê na reencarnação, e o sentido do que seja ressurreição ou reencarnação varia de acordo com a ramificação.

Deus: Deus é o Criador. Eterno, omnisciente, omnipotente, infinito e incorpóreo. Deus não tem género no sentido humano do termo, o pronome masculino é-Lhe atribuído apenas por convenção. Deus é único. Deus é um e não composto por diferentes personalidades.

O Bem e o Mal: Deus é o Criador de todas as coisas. O judaísmo não tem o conceito de Diabo. Enquanto em hebraico existe a palavra satan, e ela de facto é mencionada várias vezes na Bíblia Hebraica, o seu significado é completamente diferente do atribuído pelos cristãos – em hebraico satan quer dizer oponente, referido por regra no contexto da luta interior individual entre dois opostos. O “Mal” é produto exclusivo das acções, individuais e colectivas, do Homem, assumindo-se como o resultado de um processo cósmico de “causa e efeito” equiparável às teorias da física newtoniana.

Messias: A palavra hebraica moshiach (משיח - messias) não tem a mesma conotação que lhe é atribuida pelo cristianismo. No judaismo não existem homens-deus, semideuses ou filhos literais de Deus. Uma pessoa não pode tomar ou absolver os pecados de outra. Os judeus não estão à espera da vinda de alguém. O Futuro chegará através das acções do conjunto da Humanidade. Um dos sinais contidos na Bíblia Hebraica para a chegada da era messiânica é a paz universal.

Povo Eleito: A Bíblia Hebraica (Antigo Testamento) refere-se poucas vezes aos judeus como “o povo eleito”, mas a expressão tem sido destorcida ao ponto de se fazer crer que os judeus se julgam intrinsecamente superiores aos não-judeus. Esta leitura é completamente falsa. Os judeus são “escolhidos” apenas enquanto portadores da Mensagem (Instrução), e seus guardiões através dos séculos. Não existe qualquer sentimento de superioridade ou inferioridade implicita.

Sacrifício e Expiação: O sacrifício não é necessário para a expiação. O propósito do sacrifício é expressar o sentimento de afinidade pessoal para com o Criador. Na ausência do sacrifício, o mesmo sentimento pode ser expresso através da oração (meditação) e correcção dos erros cometidos.

Dez Mandamentos: Os conhecidos “Dez Mandamentos” são apenas uma parte da Instrução, ainda que importante. A palavra hebraica usada significa literalmente “declaração” (“dez declarações”). No judaísmo, em vez de apenas dez, existem 613 mandamentos (mitzvot).

A Torá ou Pentateuco – De acordo com os judeus, é considerado o livro sagrado que foi revelado diretamente por Deus. Fazem parte da Torá : Gênesis, o Êxodo, o Levítico, os Números e o Deuteronômio. O Talmude é o livro que reúne muitas tradições orais e é dividido em quatro livros: Mishnah, Targumin, Midrashim e Comentários.


quinta-feira, 19 de julho de 2007

Uma Breve História da Religião - Parte I

Etimologia:
Embora seja bastante controverso, o termo religião pode ser interpretado, do latim, re (novamente) + ligare (se ligar) como uma forma de unir a relação entre o homem e deus.
Tornando a religião, essencialmente, culto de um para outro.

Definição:
Segundo o Aurélio:
  • 1. Crença na existência de força ou forças sobrenaturais;
  • 2. Manifestação de tal crença pela doutrina e ritual próprios;
  • 3. Devoção;
Disso partimos em busca do conceito de crença, e encontramos algo intimamente ligado à fé. Essa última que pode ser interpretada como uma resposta de forma “inocente” àquilo que nos é superior, sobrenatural ou inexplicável (mesmo que apenas um intervalo de tempo). A crença por si é uma resposta sistematizada da fé. Onde são feitas, metodicamente, as atribuições, origens e explicações (Mitos, do grego mythos = fábulas; geralmente explicações atribuídas aos deuses, sendo esses seres ativos que definiam o destino da vida na terra) para as respostas metafísicas e existencialistas, empregadas por qualquer massa cinzenta, quando se depara com algo que lhe quebra a habitualidade dos acontecimentos (um milagre, por exemplo). Partindo da premissa que a religião é baseada na crença, a própria pode ser tomada como a imposição e aceitação de dogmas, “doutrina e ritual próprios”.
Porém, o estudo da religião, é em primeiro lugar, uma filosofia engajada no questionamento crítico, a fim de estabelecer uma tese, baseado em provas efetivas, que assemelham-se às respostas especulativas à cerca do mundo e suas origens para melhor ser aceito pelos seus adeptos. Muito embora, na maioria das vezes esse estudo seja colocado de lado (e retomado pelos filósofos). Sobra então aos religiosos, seguir com o “único” objetivo da dita religião: a doutrinação.Os muçulmanos consideram a Caaba, ao centro da grande mesquita de Meca, o lugar mais sagrado da Terra

Pregação:
Seguindo o raciocínio, quando a religião deixa de lado o questionamento à cerca de uma verdade, e passa a propagar apenas idéias já feitas e fundamentadas nos seus próprios dogmas, essa vai ganhando força na sua essência, que é a devoção em cima da fé.
Quando se é aceito uma premissa, vinda de um pregador, ou doutrinador, como verdadeira, e se é convertido, nomear-se-á como prosélito (do grego prosélitos = aderente; ato que consiste em conquistar aderentes à doutrina). Como já foi dito, a religião, como um grupo de dogmas, geralmente se torna tema somente de doutrinação e proselitismo.
“O doutrinador, que faz proselitismo, não mais se propõe a rever sua posição; convencido de uma doutrina, a propaga, com vistas a obter prosélitos. Ele interpreta a si mesmo como apóstolo de uma verdade. Quando pesquisa apenas procura novas provas para esta sua verdade. Quando discute, não mais busca a verdade, mas quer apenas refutar seus adversários.” (Enciclopédia Simpozio)
Com isso, temos a origens das pregações em massa, quando essa aceita as palavras do apóstolo como verdadeiras, sem se questionar, uma vez que a massa não tem erudição suficiente. Logo um pregador estuda a retórica (podemos comparar a religião à política, nesse aspecto), treina a demagogia, “procura novas provas para esta sua verdade” a fim de persuadir seus ouvintes, e impondo seus dogmas como verdadeiros, ganha a adoração dos mesmos.
Porém, quando se prega às massas e quebra-se a liberdade de consciência, esses tornar-se-ão fanáticos e passarão a condenar todas as outras doutrinas. Afinal, "Não é possível convencer um crente de coisa alguma, pois suas crenças não se baseiam em evidências, baseiam-se numa profunda necessidade de acreditar” (Carl Sagan)


Origem:
A necessidade de explicar fenômenos (como o ciclo do sol, da lua e dos astros) é tão antiga quanto a humanidade e isso nos levou a diversas especulações que foram negadas e aceitas com o passar do tempo. Entre essas especulações foram surgindo grandes casualidades que observadas sempre após um determinado evento iam sendo tidas como verdadeiras (como um trovão seguido do relâmpago). Muito embora alguns fossem corretamente relacionados, a maioria não seguia uma explicação lógica (pensamentos pré-lógicos, ou seja, instintivos). Nascem as superstições.
“A religião do homem primitivo encontra-se cheia de superstições, cuja origem poderá ter sido a falsa observação de relações de causa e efeito. Quer porque uma coisa venha depois da outra, quer simultaneamente quando um fato acontece, a relação é fixada como sendo efetiva.” (Enciclopédia Simpozio)
Dessas “explicações” também derivam uma outra classe de pensamento adotado pelas religiões: os mitos. Base do folclore, das tradições e cultura de um povo.
Com o passar do tempo, a necessidade de controle da sociedade cresceu bastante, e a hierarquia foi se fortalecendo até que os mais altos postos de poder foram ocupados por pessoas tidas como intermediários entre os deuses e a Terra (podemos ver isso nos faraós, nos sacerdotes dos templos gregos – que decidiam o destino da população), e influenciavam fortemente toda a cultura local, com ordens de sacrifícios, rituais, e com isso estruturavam as organizações sociais, econômicas e políticas. Nesse estado, a pregação foi aumentando exponencialmente.
“A religião é vista pelas pessoas comuns como verdadeira, pelos inteligentes como falsa, e pelos governantes como útil.” (Sêneca)

Histórico:
As principais religiões do mundo contemporâneo tiveram suas origens na Idade Antiga, baseada quase que toda vez, no folclore local. Por isso, abordaremos um rápido resumo dos principais povos:

  • 1) Povos Indo-Europeus: Os indo-europeus, que há cerca de 4 mil anos começaram a migrar e a ocupar as mais diversas regiões da Ásia (povos Indos-Arianos – Iranianos (Irã) e indos-arianos (Índia) –, Hititas, Tocarianos) e da Europa (demais povos, como: baltos-eslavos, celtas, itálicos, gregos, germânicos), podem ser considerados como originários das principais culturas posteriores. Estes, todavia, nunca formaram uma unidade sólida, uma raça, um império organizado e nem mesmo uma civilização material comum. A única coisa em comum desses grupos seria a unidade lingüística e a unidade religiosa. Unidade esta que pode ser visualizada como uma semelhança presente nas religiões posteriores. Por hora, podemos citar os exemplos: o aspecto dos mitos (lutas dos deuses contras as forças do caos), a história narrada em forma cíclica, e a crença em diversos deuses (politeísmo).
  • 2) Povos Semitas:Os semitas originários da península arábica, também se expandiram em diversos locais do mundo, levando consigo a cultura local.Embora alguns povos de origem semítica tenham adotado a crença politeísta, os principais (que são a raiz das grandes religiões monoteístas) adotaram um único deus (monoteísmo), característica que difere bastante dos indo-europeus. De origem semítica temos os seguintes povos: árabes, egípcios, hebraicos, acadianos, fenícios, aramaicos. Os hebreus, caracterizavam-se por definir a história de uma forma linear e ter o deus como ser criador de tudo, responsável pela vida. A origem semítica pode ser interpretada a partir da bíblia, no gêneses, com a linhagem dos descendentes de Sem, filho de Noé.

Depois de fazer essa pequena distinção desses dois povos, poderemos partir pra uma classificação regional e então falar resumidamente de cada religião em si.

quinta-feira, 12 de julho de 2007

Breves comentários sobre os princípios das relações extrapessoais e da sociedade em função de nós mesmos

Amor: segundo Nietzsche, os amantes amam mais o amor que a pessoa amada, transformando o amor em sujeito e o amado em objeto; amar é definido quase que unicamente pelo interesse de satisfazer nossas vontades próprias, como saciar a solidão, o desejo sexual e a necessidade inerente do animal, reprodução. Segundo Camões,

Transforma-se o amador na cousa amada,
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho logo mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.

Além disso, está inserido nos valores apregoados no inconsciente coletivo através da...

... Convenção social: extremamente necessário para a manutenção das relações extrapessoais; momentos em que se abandona, aparentemente, o próprio ego e cumprem-se tarefas em função de outro ego; existe para que possamos alimentar o nosso ego social, e fazer-nos sentir bons e justos, o que estabelece um...

... Padrão: um dos exemplos de convenção social, e é predefinir o que cada indivíduo da sociedade, separadamente, deve seguir, baseado em valores e princípios morais que se foram transformando ao longo dos séculos, sempre partindo, na escala social, de cima para baixo; numa relação, padrões moderados tendem a ser criados para pacificar a interação entre os membros que os adotam; ajuda a destruir os...

... Valores individuais: prioridades psicológicas de cada indivíduo da sociedade; é impossível que sejam plenamente ignorados, mas vão cada vez mais sendo corrompidos por meios coletivistas como a globalização, agregando cada vez mais membros à massa e ironicamente delineando os desejos do nosso próprio ego, transformando tudo num gosto comum ; para uma boa convivência, ainda que a dois, é necessário que permaneçam em segundo plano, como sugere a coletividade; surgiu de nada menos que uma...

... Concessão de direitos: para o que chamavam e ainda chamam de “bem coletivo”, os homens foram gradativamente abdicando de seus poderes, liberdades e vontades para que um ser ‘superior’ em algum aspecto pudesse decidir o que lhes era melhor ou pior; surgiu ainda nas primitivas sociedades pré-históricas com o primeiro chefe militar da história, e, desde então, vem nada mais que destruindo externa e internamente cada ser, através de, simploriamente exemplificando, as guerras e o estabelecimento de valores como a moda (por conseguinte, o culto ao padrão na estética, cerceando a liberdade individual de ser como quiser); foi, ao longo do tempo, e ainda é manipulada através do...

... Medo: este ainda é um bem “privado”, embora só surja em cada homem por este ter contatos sociais; é o instrumento que aglomera e, ao mesmo tempo, controla as massas e sua inter-relação, podendo, dialeticamente, construir e, ao mesmo tempo, destruir a sociedade; para controlá-lo em sociedade, os superiores criaram a...

... Justiça: meio de estabelecer padrões para o que é sério e correto, julgando, de maneira positivista, o que é bom e o que é ruim para a sociedade, esquecendo-se de que, em verdade, são membros individuais aglomerados por valores impostos. Como podem decidir o que é melhor para cada um se, ainda que pouco, somos todos diferentes?

O individualismo pleno não existe em prática, mas foi brilhantemente descrito (voltando a Nietzsche, citado na primeira parte deste texto) na forma de Übermensch, algo equivalente a “super-homem” (de onde a DC Comics tirou a idéia para o super-homem, apenas transformando o poder psicológico em físico), um ser que vive independente de outros, de medos, de valores comuns, vive apenas em função de saciar a si próprio, sem escrúpulos de reificar a outro, caso lhe convenha, em benefício próprio. Seria a definição de anti-social perfeita.

Por que, desde sempre, precisamos nos relacionar? E por que essa necessidade gerou a sociedade? Esta será tão e mais imperfeita que o homem, vez que sempre sugará o pior de cada um. A sociedade nunca poderá ser comum, como trabalhada na “Teoria da Complementação Humana”, em que todos poderíamos ser, “liquefeitos”, um só; será eternamente composta por indivíduos que são e não são sociais em todos os seus aspectos. A reposta para a pergunta é simples: somos fracos. Somos imperfeitos cacos de vidro suspensos, ligados um ao outro por traços irrisórios de papel, que, se se romperem, farão com que caiamos e nos despedacemos. Somos um organismo que se encarrega de eliminar as células diferentes. Somos animais. Somos carne que interage com carne.

Mas a carne envelhece, morre, apodrece... E todas as células têm seu fim. Nosso organismo, por sua vez, é mentecapto e decadente. O princípio de relacionar-se é o caos. Para solucionar o caos do relacionamento a poucos, criou-se o relacionamento comum, com todos, que deveria prover condições para a sobrevivência, e nada mais faz além de germinar a semente que, em longo prazo, será o princípio da auto-destruição da raça humana.