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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Let's talk about PCs


Um indivíduo chamado Gordon Moore publicou um artigo em 1965, que fundamentou o que viria a ser chamada de Lei de Moore. Esta lei diz que a cada 18 meses a potência dos chips dobra, enquanto seu preço permanece inalterado. Em 1968, Moore e um outro indivíduo chamado Bob Noyce criaram uma empresa chamada Intel.

Até hoje a Lei de Moore continua válida. E a precisão que ela atinge é decerto impressionante. É possível comprar-se um Desktop ou Notebook de razoável potência em qualquer loja de eletrodomésticos e/ou eletro-eletrônicos hoje em dia, por um preço relativamente acessível. O intrigante é que se você adquirir um destes produtos em janeiro, e no mesmo mês do ano seguinte for na mesma loja onde comprou o seu computador, verá que eles estarão oferecendo uma máquina com duas ou três vezes mais potência por um preço semelhante.

Quando os computadores pessoais começaram a se popularizar no ambiente familiar(por volta dos anos 90), saindo dos escritórios e empresas, e tornando-se centros de entretenimento graças ao advento da internet, que permitia a troca de mensagens instantânea e o download de vídeos, músicas e jogos (embora tudo isto estivesse apenas começando), as máquinas eram caras e costumavam ser mantidas por anos a fio pelos donos, dado que realizar um up-grade significativo nos recursos destas custava mais que as próprias . Mas, graças a Lei de Moore, a potência dos componentes eletrônicos aumentou exponencialmente, e desde o início do século XXI estamos encarando uma nova situação.

Agora, as máquinas tornam-se obsoletas em no máximo alguns meses. Há 10 anos, era difícil imaginar que um usuário popular poderia adquirir um HD externo para seu pc com 1 Terabyte de capacidade. Sendo realista, a velocidade da troca de informações nas redes há 10 anos tornava o espaço de tal produto excessivo para as necessidades do usuário.

Tudo isso mostra que estamos, agora, após o computador ter se tornado popular no ambiente doméstico, servindo como ferramenta útil de lazer, e não apenas de trabalho, presenciando o início de um processo de banalização tecnológica, onde a evolução pode ultrapassar a necessidade da maioria dos usuários.

Como exemplo prático, basta apenas imaginar que se você possui uma maçã, e dobra sua quantidade, você fica com duas. Mas se você seguir essa regra de dobrar as maçãs, gerando então o chamado aumento exponencial, você teria quatro, oito, dezesseis, trinta e duas, e assim por diante. A questão, em termos de tecnologia, é visualizar quando esse aumento vai se tornar desimportante para o consumidor. Para o usuário comum, o tipo de usuário majoritário na população, que deseja apenas checar e-mails, ver fotos, assistir vídeos e, eventualmente, jogar, o já referido e acessível espaço de 1 Terabyte é muito mais do que o suficiente. Daqui a dez ou vinte anos vamos estar lidando com uma escala de tamanho, em termos de armazenamento, muito maior. E quando esta escala, já imensa, aumentar, ela vai dobrar seu poderio, já seguindo a citada Lei de Moore.

Em suma, se você pensar que o valor das máquinas a princípio era caro demais para o uso doméstico,logo, elas estavam limitadas ao ambiente empresarial, servindo como ferramentas de trabalho, o ponto de equilíbrio foi encontrado quando o preço destas tornou-se acessível e sua potência razoável para o consumidor genérico. Foi aí que o computador tornou-se popular como meio de lazer.

Agora, temos um ponto onde o preço permanece estático, mas a potência continua crescendo, fazendo com que mais uma vez a pesquisa para desenvolver novos recursos nessa área se distancie do usuário comum, e volte ao ambiente empresarial, que necessita destes recursos.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Da teoria da teoria política

A modernidade filosófica trouxe consigo a tripartição em Bem, Belo e Verdade daquilo que, no monismo cristão medieval, era tido como coisa una. Se a moral encarregou-se de tratar do Bem, e a Arte, do Belo, à Ciência coube trabalhar a verdade, muito embora estes três conceitos, em si, fossem estáticos, imutáveis. Para a Ciência especialmente, por ser nosso objeto de estudo, por vezes é necessária uma renovação – ou revisão – daquilo que antes era tido como verdade, e esse exercício filosófico de metaciência cabe à teoria. Assim sendo, a teoria política pode, antes de tudo, estabelecer as verdades sobre as quais se condicionará o fazer político. O policy-making de um país inclui, em seu ciclo, o encarregado propriamente da política, o intelectual nacionalmente consagrado e também a academia, que contribui com teorias e os conceitos que delas advêm; isto fica particularmente mais claro na elaboração da Política Externa.
Sendo possível a definição de premissas básicas por parte da teoria, que deveria carregar em si, a priori, a imparcialidade weberiana, é bem fato que, no nível pessoal de análise, as preferências do teórico serão refletidas na elaboração de sua teoria e, mais, a adoção desta por um grupo, grupos ou unanimemente implica também um processo valorativo inconsciente como aquele que pode ser visto na tendência de uma comunidade a acolher melhor teorias de fundamentos liberais – como nos Eua – ou marxistas – como em Cuba –, o que pode acontecer por interesses de grupos, continuidade da política interior de um Estado ou até mesmo aspectos culturais. Existe apenas, portanto, a pretensão da imparcialidade a acarretar conseqüências políticas por vezes impensadas pelo teórico ou pela própria comunidade. Se por vezes é possível vislumbrar o lado positivo de uma teoria, podem ficar obnubilados seus outros efeitos. A teoria do espaço vital (lebensraum) desenvolvida por Friedrich Ratzel dava à Alemanha de sua época a fundamentação teórica para lançar-se ao Imperialismo, sem conseguir vislumbrar, por outro lado, que viria isto, no futuro, a ser uma das causas da Primeira Guerra Mundial, que trouxe derrota e sanções para o país.
Se pode a teoria política justificar uma ação, pode também ela sugerir a ação. Nicolau Maquiavel, em sua obra “O Príncipe”, refletia sobre a realidade política de sua época e sugeria aos príncipes italianos modelos de manutenção do status quo e de boa governança, indicando melhores e piores alternativas para que a ação possa ser planejada. Entretanto, a teoria também pode se aventurar a expor os erros de uma ação passada, o que explica a força e a urgência com que as teorias são invocadas em tempos de crise. Planejar, justificar, sugerir ou corrigir uma ação, portanto, são tarefas cabíveis à teoria política frente ao aperfeiçoamento dos sistemas políticos. Para Karl Marx, em sua juventude, o mundo já havia sido estudado, estando as teorias, portanto, desenvolvidas, e caberia agora transformá-lo a partir delas; algumas correntes de pensamento mais atuais já colocam o oposto: o mundo deve transformar as teorias para que estas sirvam para o mundo. São acrescentadas, assim, à importância da teoria política, duas intensidades – ou visões – diferentes sobre o poder transformador desta. Considerando-se todos os fatores expostos, faz-se ímpar a procura pela adoção de uma teoria política para o mais planejado e meticuloso seguimento da política e estabilidade de uma região ou nação.
Vemos, contudo, que a teoria política não se projeta como salvação dos povos. Com efeito, a teoria por vezes se reconhece insuficiente. É nesta instância que se comete o equívoco de pensar em teorias políticas universais: se não há homogeneidade, não será possível estabelecer uma política que sirva igualmente a todos – fica evidente neste caso a idéia de valores e interesses por trás da adoção de uma teoria. A reflexão teórica deve partir, portanto, de realidades locais e similares para se chegar às ações de aperfeiçoamento efetivas. A mesma teoria funciona diferentemente em realidades distintas, para melhor ou certamente para pior, ao passo que teorias regionais competem mais eficazmente a tais locais. Além do critério espacial, a teoria política deve compreender um critério temporal: as mudanças de cenário – local, regional e internacional – passam a requerer medidas novas e mais cabíveis. Respeitados esses dois filtros, a teoria política torna-se mais capaz de fato, o que, em momento algum, implica a sua infalibilidade. A teoria não deixa de estar localizada num plano ideal, sendo uma positivação, necessária para o estudo, do ambiente real, naturalmente difuso. Levando-se em conta que a teoria pode ocultar efeitos colaterais indesejados e imprevistos, a teoria pode levar à frustração do ideal de sistema político. Em grande parte das vezes, o acolhimento de um modelo teórico para a resolução de um problema particular gera, em determinado espaço de tempo, outro problema. Para a resolução deste, pois, requer-se outra teoria, que provavelmente trará consigo conseqüências danosas não consideradas antes; este movimento segue-se indefinidamente, de modo a que uma teoria sempre trará em si a semente de outra. Minorará danos a comunidade que antevir as conseqüências negativas da teoria em vigor, logo a substituindo. Esse ciclo também reflete a necessidade constante de redefinição de verdades pela teoria.
Da mesma maneira em que teorias se sucedem, teorias também concorrem. A variabilidade de construções e entendimentos no e do plano teórico gera distintos níveis de análise, cada um deles possibilitando perspectivas de trabalho ao mesmo tempo para o mesmo tema. Assim sendo, é conferida ao objeto em questão uma multidimensionalidade que permite uma análise mais complexa e mais completa, podendo caminhar em direção a um entendimento holístico, ou, ao menos, mais abrangente. A concorrência de várias teorias no lugar da existência de um “monopólio teórico” também pode ser útil no sentido de viabilizar a escolha mais salutar à realidade do binômio momento-local.
De acordo com o visto, ainda que consideremos as hipóteses contrárias, mostrou-se que a teoria é indispensável para o bom desenvolvimento de sistemas políticos. É, porém, relevante ressaltar que, para tal, a ponderação torna-se indispensável; premissas básicas – ideal de liberdade ou eqüidade, por exemplo –, considerações espaciais e temporais, fins determinados e valores previamente adotados diferentes levarão a resultados diferentes, podendo ou não ser satisfatórios – na construção de sistemas políticos melhores.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Do fim da Guerra Fria


Sem necessidade de lutar contra a crise social, o ocidente europeu passara a viver, entre as décadas de 1950 e 1960, uma inadvertida era de ouro, marcada pelo progresso econômico e relativa estabilidade. O mundo havia sobrevivido às ameaças de guerra dos anos anteriores, que passaram pela Revolução Chinesa e pela Guerra da Coréia. Houve, então, nesse lado da Europa, um afrouxamento da tensão. Para a diplomacia de então, criou-se o jargão détente para marcar a época, tendo sido apenas questionada no período turbulento entre 1960 e 1963, com a política externa do presidente norte-americano Kennedy, a Revolução em Cuba e a Crise dos Mísseis. Depois desse evento, houve um reconhecimento soviético-estadunidense sobre a necessidade não só de conter conflitos como a ameaça deles, que poderia vir a manter um estado freqüente de medo, tendo a enorme instabilidade como conseqüência – fator que sempre potencializou conflitos. Nesse contexto, passaram a ser feitos vários acordos nos anos seguintes, como tratados de não-proliferação nuclear e, ainda em 1963, a criação de uma “linha-quente” Casa Branca-Kremlin de Moscou.
A détente surgia para mostrar a falibilidade da lógica dicotômica propagada pela Guerra Fria, especialmente pelo lado estadunidense. No meio das possibilidades de ruínas e conflitos, de um mundo dividido, havia prosperidade. Fora concluída a construção do Muro de Berlim, que bem delineava as fronteiras entre os ditos dois lados do mundo, que, em suas diplomacias, haviam concordado em respeitar a fronteira e as respectivas áreas de influência de cada um. Porém, a década de 1960 e as seguintes mostra uma continuidade do processo fora da lógica dialética: séries de revoluções no Terceiro Mundo se sucedem. A luta ideológica passa, então, a se dar fora do cenário tradicional e figura no plano da disputa pela influência nesse “mundo mais fraco”, a mostrar a pouca abrangência da teoria dos dois campos – a mostrar um etnocentrismo ideológico e epistemológico, que, nessa época, trazia consigo em grande escala interesses políticos de um lado ou do outro. Mas, ainda assim, a competição se dava fora do plano central da guerra, o que já mostra significativas mudanças. A Guerra Fria falhou em tentar congelar um sistema de funcionamento estabelecido no pós-segunda guerra e prezar para que pudesse funcionar por sobre as mesmas estruturas em todos os anos subseqüentes, ignorando todas as mudanças instauradas no mundo. O exercício forçado de manter uma filosofia que não mais condizia à realidade mundial era desgastante.
Questiona-se post facto, o que, à época, então, fundamentava o discurso belicista, militarista, com seus tons apocalípticos. De fato, a presidência norte-americana, fundada sobre premissas ditas democráticas, precisava justificar sua política externa de caça às bruxas, uma espécie de cruzada anti-soviética (o que os fez, futuramente, aliar-se até à China comunista). O mesmo não se passava na cúpula da administração soviética. O discurso belicista era, então, predominantemente ocidental, fomentado pela busca do apoio popular. Mas a corrida armamentista nem tanto. A União Soviética investia altos recursos em tecnologia militar – bancando o custo sozinha –, bem como os Estados Unidos – que contava com todo o sistema capitalista para assegurar sua dívida externa altíssima. A corrida espacial – deslanchada pelos soviéticos – mostrava a disputa das duas superpotências no âmbito de soft power, mas também o desvio do plano de ameaças reais de conflito nuclear. O afastamento de Krushev, defensor da coexistência pacífica, da liderança soviética fez assumir Brejnev, líder particularmente otimista – caracterizando, por isso, na visão dos reformistas soviéticos, um período enorme de estagnação da URSS –, que achava salutar manter – ou aumentar – os investimentos bélicos na União Soviética para gerar confiança e estabilidade – bens virtuais – dentro do sistema comunista e fora, no sistema internacional, muito embora a própria URSS não fosse favorável ao conflito armado ou nuclear dentro da Guerra Fria, ciente da possibilidade iminente de destruição mútua. O otimismo de Brejnev também se deu nas crises do petróleo, que conferiram relevância ao Terceiro Mundo e valorizaram em quatro vezes as jazidas petrolíferas descobertas em territórios soviéticos na década de 1960. A aparente queda de influência norte-americana no mundo com o triunfo da Revolução Cubana e com derrota no Vietnã conferia ao sistema internacional certo quê de estabilidade. Teria sido um arrefecimento internacional dos moldes da Guerra Fria um dos fatores mais apontados para o fim da própria.
Desde o começo do embate, estava claro que era uma batalha de desiguais. A URSS fundamentava-se como grande centro – embora emergente – responsável por diversas áreas fundamentalmente fracas em desenvolvimento industrial, mas tinha de enfrentar os EUA, que exerciam grande influência em áreas já desenvolvidas do mundo, especialmente no ocidente europeu. O sistema financeiro internacional estava à disposição destes para bancar as dívidas feitas na corrida armamentista e especial que viria a acontecer, enquanto as repúblicas soviéticas tinham somente a si mesmas. Na década de 1980, o atraso começava a deixar suas marcas – ainda leves; o governo norte-americano sequer suspeitava da possível queda dos “inimigos” que justificavam sua política mundial – na URSS, que ainda era vista pelo lado ocidental como empenhada numa ofensiva global. Foi somente com Gorbachev na liderança soviética que foi possível uma mudança nesse sentido.
Diz-se que efetivamente acabou a Guerra Fria quando “uma ou ambas as superpotências reconheceram o sinistro absurdo da corrida nuclear”, o que já havia se dado, ao menos no lado soviético, há bons anos, e “quando uma acreditou na sinceridade do desejo da outra de acabar com a ameaça nuclear”. Gorbachev pôde reconhecer esse fato publicamente, com a diferença que, em sua área de influência, a Guerra Fria nunca apresentou um ideal de cruzada, mas num ideal globalista de luta contra o capitalismo, que se cria vir a ruir, e que, até o momento, não havia dado verdadeiros sinais de fraqueza. O presidente Reagan, nos Estados Unidos, em seu sincero idealismo e crença num mundo sem armas nucleares, acreditou no afirmado pelo líder soviético. Com as conferências de cúpula de Reykjavik (1986) e Washington (1987), foi dado, para fins práticos, o fim da Guerra Fria. Por outro lado, só é aceito, no mundo ocidental, o fim da guerra quando há, entre 1989 e 1991, o – pouco esperando – colapso da URSS, influenciado por e influenciando o fim da Guerra.


quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Religião como capital político

A palavra “religião”, do latim, relaciona-se às idéias de pacto, aliança, laço, contrato, relação que deve nortear os elos entre deuses e homens, e, por isso mesmo, dos homens entre si. A religião, além desses aspectos, é um modo de se entender e ordenar o mundo, dando respostas mais satisfatórias que as incertezas da ciência e da filosofia. A linguagem religiosa é uma linguagem da relação, da ligação. Um idioma que busca o meio-termo, a possibilidade de salvar a todos e de sempre se poder ver algo bom. Atinge especialmente o povo destituído de tudo, incapaz de estabelecer uma comunicação com seus representantes legais, falar e ser ouvido. A experiência religiosa pode alcançar altos graus de complexidade. Nesses casos, faz-se necessário o surgimento de um organismo dotado de estrutura jurídica própria que defende, como instituição, os valores que adota, seus modos de pensar e suas autoridades. A sociedade religiosa que integra esse grupo poderá ser um exemplo de comunidade.

            O conceito de comunidade pode ser utilizado como um recurso instrumental ideológico e político que visa a produzir e reproduzir a reificação e um sistema moral. Quando se institui a idéia de comunidade a um conjunto de pessoas, presume-se que há um conjunto de crenças e valores diferentes dos demais e assumido por todos os membros desse conjunto, legitimando, com isso, um posicionamento político pela busca da realização desses interesses comuns. É a construção de uma idéia de nós. Considerando-se a existência de um nós e dos interesses comuns que defendem, surge a necessidade de uma atuação política de mediação entre indivíduo (que também é eleitor), comunidade e o fazer político, funcionando, pois, como uma espécie de ouvidor. Mas, para exercer tal papel, é requerido ao político o uso de enorme carisma. Esse carisma, entretanto, diferentemente dos demais tipos, é um carisma de função (ou de instituição), que tem caráter transmissível, estável, durável e independe das – embora possa ser complementada por – qualidades individuais do seu detentor. Cabe a ele, então, reproduzir a mensagem e as exigências da instituição que representa – nesse sentido, podendo ser visto como um funcionário.

            Reconheçamos, pois, o que leva um político a recorrer a essa alternativa, que o torna mais subordinado a certos parâmetros que o que o personalismo da política brasileira usual e informalmente estabelece. Para efetivamente chegar a ser eleito, é requerido de todo aspirante o capital político. Alguns o possuem de origem familiar – sucessores são criados entre os pares consangüíneos. Os que não, precisam buscar o capital político de outras formas, e constituí-lo numa comunidade é uma delas. Sendo um líder ou mesmo somente membro de uma comunidade religiosa, valer-se de discursos de cunho religioso – ou requerer, por esse meio, o apoio de seus semelhantes – é um método de que tem se mostrado surpreendentemente efetivo, ainda mais depois do reconhecimento por parte das instituições religiosas do seu potencial político se se convergisse uma organização nesse sentido. Lamentavelmente, algumas releituras fundamentalistas têm sido feitas de obras religiosas, e estas também conseguem movimentar certa força política. Ainda assim, desconsiderando a potencialidade da ideologia religiosa como falsas representação e motivação, a possibilidade de se pôr à frente um líder que represente um segmento é valorização do ideal democrático por tantos defendido.

            Os políticos que se valem desse sistema também têm em mente o funcionamento de um sistema de corrupção pós-moderno (porque joga no plano das imagens), que se baseia efetivamente na busca do poder pelo poder, num ciclo a se auto-alimentar.  Os que a praticam têm por finalidade (re)elegerem-se, precisando sempre serem competitivos no próximo pleito; reconhecem, igualmente, que os eleitores de hoje não formulam seu voto de maneira racionalista, pelo exame de propostas, e, sim, movidos pelo afeto. Sendo que é, de fato, legítimo o voto pelo afeto, porque o que se decide pelos votos são, essencialmente, valores, escolher um projeto individualista ou social ou, então, de fundamento religioso. A questão – percebida pelos políticos – reside no seqüestro desse afeto, o que mostra marcas profundas de uma dominação carismática.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Notas sobre ecopolítica



É corrente entre os cientistas a atitude de deplorar a “politização” da política internacional ambientalista, a intrusão tida como ilegítima de considerações políticas sobre os problemas considerados de sobrevivência – tendo como base os próprios argumentos científicos irrefutáveis. Constatamos os fatos das degradações ambientais e suas implicações, mas deve-se reconhecer que resultam de atividades econômicas e sociais. É daí, então, que começa a surgir a conexão estabelecida entre os problemas ambientais e a necessidade de intervenção da área política, criando o que poderíamos chamar de ecopolítica, que faz referência ao conjunto das dimensões políticas da identificação e da resolução de questões ambientais (Prestr e, 2001).


A constatação que devemos fazer para um primeiro contato é que, se “os problemas do meio ambiente refletem, ao mesmo tempo, preocupações científicas e certa hierarquia de valores” e “não existe melhor decisão; o que existe é uma direção” (Prestre, 2001), também considerando a afirmação de Pierre Mendes-France em que “governar é escolher”, essa direção, portanto, caberia à política dar. Para selecionar a direção que será tomada como a mais própria, a política pode recorrer às suas fontes regularmente tidas como principais nesse caso, que são a ciência, as vontades e necessidades sociais, a conjuntura regional da atuação das ações políticas.


Norberto Bobbio (2001) estabelece, em seus escritos sobre política e moral, distinções fundamentais, ambas domínios da práxis humana. Para ele, diferem-se, pois, no critério de justificação e de avaliação das respectivas ações. Lembra-se a convincente distinção weberiana entre ética da convicção e ética da responsabilidade, em que, respectivamente, uma lida com o meio – equivalente à procura única pela preservação, sem ter em mente suas decorrências –, e a outra, com o fim – o desenvolvimento econômico, por assim dizer. Chegamos, analisando de modo maniqueísta, no que Prestre (2001) lembra ser um refrão comumente repetido em discussões que dizem respeito ao meio ambiente: “se o político soubesse! Se o ecologista pudesse!”. Se, por um lado, o ambientalista, que preza pela defesa incondicional do meio ambiente, o político, pertencente ao jogo de Estado, obrigado a lidar com a hierarquia das prioridades nacionais, definidas por Prestre como sendo: segurança nacional, saúde pública, crescimento econômico e emprego, desenvolvimento regional, redistribuição de renda, igualdade de oportunidades e, só então, qualidade do meio ambiente. A qualidade do meio ambiente só se encontraria com as categorias mais prioritárias nesse aspecto se se relacionasse com alguma delas, ficando subordinadas ou sublevadas.


Inicialmente, a criação de políticas ambientais nacionais vai surgir mais intimamente ligada, na terminologia de Weber, a uma ética da convicção, e é exatamente por isso que serão bem menos atuantes e efetivas em suas aplicações. A formulação dessas políticas estava mais ligada à fonte científica e mais desligada das outras, estando, portanto, também mais longe da realidade regional. Com o desenvolvimento de novas técnicas, novos estudos e o surgimento de novas exigências sociais – o que inclui os grupos que “perdiam” com essas políticas, como os industriais, mais diretamente afetados –, houve a necessidade de readaptação dessas políticas. Provou-se que essa preservação hoje seria, de certo modo, um investimento que atrasaria em três meses a economia até o ano de 2049, e que, caso não fosse feito, poderia vir a custar quase uma década de paralisação econômica para se tentar chegar a um mesmo nível de redução de poluentes. Seria, assim, um investimento muito falido; ainda, constatou-se a rentabilidade de vários processos econômicos que envolviam a preservação ambiental, tal qual o ecoturismo. Essas constatações reaproximam a ação política ambiental com a ética de responsabilidade, que vai, mesmo pregando uma ética de convicção, almejar conter o possível refreamento econômico, levantando, possivelmente, as bandeiras da distribuição de renda e outras similares.


Assim, fica resolvido o aparente paradoxo de misturar éticas inerentes à formulação das políticas ambientais, que necessariamente passa por julgamentos éticos – bioética. É esse o filtro que define algumas linhas de prioridade dentro do campo do meio ambiente, bem como conceitos e normatizações pelas quais se deve prezar. As questões ambientais não se podem deixar de vincular da política – ecopolítica –, e é nesse âmbito cuja efetividade é questionada, embora seja o político o único meio em que se pode efetivamente aplicar mudanças. A ecopolítica se coloca como essencial na ação de conter os impactos ambientais, garantir o bem-estar e a vida dos seres humanos, mobilizar a máquina pública, e, em seu sentido internacional, reaproximar o mundo pela cooperação nesses aspectos. Por fim, para Prestre, nem mesmo os mais indiferentes podem ignorar as questões ambientais, sua relação com moral, ética, política, e suas implicações para, além de outros fatores cruciais, segurança interna e externa dos Estados e a vida do homem.


quarta-feira, 1 de outubro de 2008

O HD humano


Memória significa, segundo dicionários, faculdade de reter as idéias, impressões e conhecimentos adquiridos anteriormente; lembrança; recordação. Como precisamos lembrar ou recordar alguma informação ou alguma idéia, faz-se necessário saber como a informação entra na memória, como ela é mantida na memória e como ela é resgatada da memória. Ou seja, além da codificação dos estímulos sensoriais há um armazenamento– que funciona como manutenção - e, como o armazenamento não é o suficiente para garantir que haverá lembrança, há o processo de recuperação que age no resgate do que foi armazenado na memória.

Para que se tenha uma codificação satisfatória do estímulo é indispensável uma atenção consciente de uma classe distinta de estímulos ou eventos. Essa atenção funciona de forma seletiva, ou seja, como um filtro que trabalha retendo as informações não desejadas, conscientemente, naquele momento. O interessante é que podemos enfocar diversos aspectos dos estímulos e assim trabalhar níveis de processamentos diferentes, sabendo que a quantidade de atenção dada ao estímulo qualifica o processo de codificação da informação e que as teorias de níveis de processamento propõem que os mais profundos níveis de processamento resultam em códigos de memória mais duráveis.

A entrada das informações pode ser feita através de três níveis: a codificação estrutural, a fonética e a semântica. A primeira delas trabalha mais com o campo visual por ser focada no físico, na estrutura; já a segunda é voltada para o campo auditivo diferente da terceira que abrange um nível mais profundo, o significado do estímulo. Dentro desse processo de codificação há a teoria da codificação dupla que consiste na utilização de meios semânticos e visuais almejando melhor lembrança. Outro fator que enriquece a codificação é a elaboração que funciona como uma associação entre o estímulo e outra informação com a finalidade de conseguir melhor fixação; essa facilidade acontece porque há um segundo tipo código para memorização.

Depois de feita a codificação o segundo passo é o armazenamento que é conhecido, erroneamente, como sinônimo de memória e tem seu primeiro modelo na Grécia antiga postulado por Platão e Aristóteles. Esses dois filósofos comparavam a memória à um bloco de cera que diferia em dimensão e dureza de uma pessoa para outra. Essa analogia aconteceu pela percepção de que quando algo era estampado na cera lá permaneceria e, para eles, assim funcionava a memória. Entretanto, com o avanço da tecnologia, acharam outros pontos de similitude para melhor explicação do armazenamento da memória, como a teoria que compara a memória humana a de um computador e para uma dessas teorias há três tipos de armazenagem de memória, que são descritos à seguir.

A memória sensorial preserva as informações em sua forma sensorial original por um curto período de tempo, geralmente por uma fração de segundos. É a informação processada, por exemplo, por fogos de artifícios – vê-se por um pequeno período uma figura fechada e não pontos separados de luz. Apesar de possuir um espaço limitado de tempo, a memória sensorial tem uma grande capacidade de armazenar estímulos no campo visual; podendo chegar a um armazenamento de 25 estímulos.

O segundo tipo é a memória de curto prazo (MCP), caracterizada por ter uma capacidade limitada de reter estímulos – em media sete - e por manter a informação não reprocessada em um tempo de 20 segundos. Entretanto, se houver reprocessamento da informação, ou seja, se a informação for reciclada e repetidas vezes verbalizada, poderá permanecer na MCP por um tempo maior. A capacidade limitada da MCP dificulta a habilidade das pessoas de realizarem tarefas nas quais elas têm de usar malabarismo mental com várias partes das informações, pois quando o número de estímulos passa dos sete, algum dos existentes nela será deletado para que o novo seja incorporado.

Através de estudos sobre a memória de curto prazo, George Miller(1956) definiu seus parâmetros desse tipo de memória com o livro O mágico número sete, mais ou menos dois. Assim, ele demonstrou que temos a capacidade de armazenar de cinco à nove informações, o que pode ser explicado por, geralmente, não conseguirmos lembrar de algumas algarismos de telefones se for preciso acrescentar o número do código de área.

Já a memória de longo prazo (MLP) têm como característica a capacidade ilimitada de manter informações por um longo período de tempo. Essas informações são transmitidas da memória de curto prazo para a memória de longo prazo quando há ensaio. Um dos pontos de vista diz que toda informação armazenada na MLP é armazenada permanentemente, assim sendo, o esquecimento ocorre apenas porque as pessoas às vezes não conseguem reter a informação necessária. As memórias-relâmpago fornecem exemplos de armazenamento aparentemente permanente. O outro ponto de vista presume que algumas lembranças armazenadas desaparecem para sempre.

Uma coisa é essencial para a memória de longo prazo: a organização, pois essa guarda um volume imenso de informação e caracteriza-se pela confusão de sistemas organizacionais sobrepostos; o conhecimento das pessoas é organizado como uma rede semântica, redes essas que consistem em pontos que representam conceitos interligados. O processo de ativação irradiada caracterizado por Collins e Loftus diz que quando uma pessoa pensa numa palavra seus pensamentos se dirigem diretamente para palavras relacionadas. O que também acontece no campo visual com os esquemas que são conjuntos organizados de conhecimentos a respeito de um objeto em particular ou de uma seqüência de eventos. As pessoas lembram mais daquilo que parecem com seus esquemas. A informação armazenada na memória é freqüentemente organizada em esquemas. Assim, a lembrança de um objeto ou esquema será influenciada pelos detalhes reais observados e pelos esquemas que a pessoa tem para estes objetos ou eventos.

Terminado o processo de armazenamento o próximo é o de resgate, pois para realmente ter uma boa memória é necessária a atenção para o estímulo, o armazenamento da informação e a evocação desta quando necessária. O resgate não nos permite detalhes, até certo ponto nossas lembranças são reconstruções grosseiras do passado que podem estar distorcidas e incluir detalhes que, na verdade, não ocorreram. Uma das falhas mais comuns de resgate é conhecida como fenômeno da ponta da língua - incapacidade temporária de lembrarmos algo que já sabemos, o que causa uma sensação de que a informação está bem ao nosso alcance. Um passo importante para estabelecer o resgate pode ser o contexto, o fato de imaginar o local ou ir até o local onde determinada ação aconteceu facilita o resgate da informação.

Se há esse sistema organizado de memória por que esquecemos, até mesmo, de informações que gostaríamos de lembrar? Para alguns teóricos as falhas estão na complexa e multifacetada natureza da memória. Eles afirmam que o esquecimento pode ser causado por deficiências na codificação, armazenamento, resgate ou alguma combinação desses processos.

O primeiro a realizar estudos científicos sobre o esquecimento o fez consigo mesmo e conseguiu elaborar um diagrama chamado de curva de esquecimento, que ilustra a retenção e o esquecimento através do tempo. Ebbinghaus praticou 14 mil repetições de silabas sem nexo e memorizou 420 listas de silabas em vários intervalos de tempo e percebeu que “fatos decorados às vésperas de exames logo desaparecem.”. Entretanto, o diagrama dele é atípico e o problema foi o material analisado, já que foram feitos experimentos com material dotado de sentido e as curvas de esquecimento não foram tão acentuadas. Assim, há três possibilidades para medir o esquecimento nos dias de hoje: o resgate, o reconhecimento e o reaprendizado.

Quando é pedido que os participantes reproduzam informações por si próprios sem nenhum auxilio sugestivo, é medido o resgate de retenção. Já quando há uma variedade de opções e dentre elas existem algumas já conhecidas pelos participantes e é pedido para que as informações conhecidas sejam selecionadas, é medido o reconhecimento de retenção. Bem diferente desses dois métodos, o terceiro é baseado na memorização da informação uma segunda vez para que seja determinado quanto tempo e esforço são economizados uma vez que ele já havia aprendido isso antes, e é chamado de reaprendizado de retenção. O segundo passo para saber os motivos do esquecimento está em observar os fatores que podem afetar os processos de codificação, armazenamento e resgate.

Em primeiro lugar a informação em questão pode nunca ter sido inserida na memória e não podemos esquecer algo que, realmente, nunca aprendemos. Esse fenômeno, às vezes, é chamado de psudo-esquecimento e deve-se usualmente as falhas de atenção. Há, também, um processo de codificação ineficiente, já que algumas abordagens de codificação levam a um maio esquecimento que outras.

Como falha no armazenamento há a teoria da decadência que atribui o esquecimento a simples passagem do tempo, diz que os traços da memória desvanecem com o tempo. Entretanto, em estudos com memórias de longo prazo foi descoberto que a passagem do tempo não é tão importante quanto o que acontece durante os intervalos de tempo. Culpa-se, então, a interferência da informação externa. A teoria da interferência propõe que pessoas esquecem informações por causa da competição com outros materiais, sendo essa interferência de dois tipos: a retroativa – que ocorre quando a informação anteriormente aprendida interfere com a retenção da nova informação – e a proativa – que ocorre quando a informação previamente aprendida interfere na retenção da nova informação e está enraizada na aprendizagem que acontece antes da exposição ao material de teste.

Grande parte do esquecimento pode ser atribuída a falhas no processo de resgate, por exemplo, quando há desacordo entre as sugestões de regaste e a codificação da informação que se está procurando. O principio da especificidade da codificação estabelece que o valor de uma sugestão de resgate depende de quão bem ela corresponde a memória. Há outro tipo de esquecimento que está ligado à repressão tratada por Freud. É o esquecimento motivado, a tendência a esquecer coisas em que não se quer pensar, refere-se à manutenção dos pensamentos e sentimentos tristes enterrados no subconsciente.

Há controvérsias sobre um sistema múltiplo de memória, mas evidências como a descoberta da memória implícita dão apoio a essa visão. Essa memória é aparente quando a retenção é exibida em uma tarefa que não requer lembrança intencional, ao contrário da explicita, que envolve memória intencional e experiências anteriores. Esta última é consciente, acessada diretamente e pode ser mais bem avaliadas com medidas de retenção para o resgate ou reconhecimento. Já a implícita é inconsciente, acessada indiretamente e pode ser mais bem avaliada com variações de medidas de retenção de reaprendizagem, e não muito afetada pela amnésia, idade ou certas drogas, como o álcool – ao contrário da explicita.

O sistema da memória declarativa lida com informações factuais – palavras, definições, nomes, datas, rostos, eventos, conceitos, idéias, etc. O sistema da memória processual guarda as lembranças para ações, habilidades e operações. O sistema de memória episódica constitui-se de fatos cronológicos, ou temporariamente datados, de experiências pessoais. O sistema de memória semântica contém conhecimentos gerais que não estão vinculados ao tempo quando a informação foi aprendida. A memória prospectiva envolve o lembrar para efetuar ações futuras e a memória retrospectiva envolve lembrar exemplos do passado ou informações previamente aprendidas.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Considerações em torno do ato de estudar


Todo livro tem uma intenção fundamental de quem o elabora que é o desejo de despertar em quem ler o interesse pelo tema abordado de maneira que facilite, assim, o aprendizado. Entretanto, a relação entre o estudo-aprendizado é mais uma relação de interesse e do despertar deste nos leitores do que apenas a leitura pura e seca; já que, se assim for, a bibliografia tornar-se-á inútil.

A observação dos títulos citados ou a leitura só com olhos deixa a desejar, pois quem recebe o que foi escrito deve tê-lo como uma fonte de pesquisa e de desafio. Pesquisa porque ele é a fonte primária de onde nascem os interesses para busca de outros títulos que apresentem o mesmo tema só que abordado de maneira diferente. Desafio porque quem estuda sente-se desafiado a apropriar-se de seu significado.

O ato de estudar não está apenas em responder questionamentos, fazer resumos e leituras, mas sim em apresentar uma postura crítica sobre todos os temas estudados, pois só assim o conteúdo é fixado com idéias próprias e não copiadas. A disciplina intelectual que é exigida no estudo só se ganha praticando.

Esse princípio de deixar o estudante livre à críticas e pronto para montar sua própria resposta é o contrário do que a “educação bancária” estimula, já que esta mata a curiosidade e não propõe crítica, mas sim um conhecimento “ctrl C, ctrl v”, diminuindo o papel do individuo frente aos textos, disciplinando-os para a ingenuidade. Na “educação bancária” o estudo torna-se mecânico porque o que é pedido não é a compreensão do conteúdo, mas sim sua memorização.

Então, o estudo que desafia não deixa o estudante magnetizado às palavras do autor, ele não é uma “vasilha” que guarda apenas as palavras do autor. Quem estuda seriamente, recria, reinventa, reescreve. A atitude crítica do estudo deve assemelhar-se a da realidade, pois nela o sujeito deve adentrar-se de maneira a tornar o que é estudo lúcido.

Nesse universo, os livros são mediadores dos indivíduos com o mundo, expressam as idéias e criam novas; E esse é o ponto fundamental, o molde do pensamento para que este nasça livre e com o propósito de criar um novo.

Outro fato interessante é a junca da teoria com a prática visto que a teoria pura funciona apenas como conhecimento mecânico – e com isso volta-se para uma educação bancária. O instrumento da prática possibilita a percepção e a união das idéias em torno da realidade e, assim, capacita o individuo a fazer questionamentos e participar destes enriquecendo a todos.

Frente à realidade o individuo deve ter um estudo de uma bibliografia a cerca do tema abordado para que, junto a outros que também tenham, possa jogar as idéias e uni-las formando um pensamento concreto e, o mais importante, com fundamentos. Para que as idéias retiradas da teoria sejam postas em prática de maneira clara e correta, deve-se estabelecer uma discussão com o autor do texto, ou seja, uma interação crítica feita durante a leitura.

E, lembrar-se de que desde outros tempos foi dito em relação ao ato de estudar, a humildade que se faz necessária para tal. Se não devemos nos sentir diminuídos ou envergonhados para com o conhecimento apresentado nos textos, também não é coerente sentirmos maiores. O entendimento nem sempre acontece rapidamente, mas se o fizer devemos ver nisso apenas o prazer de saber um pouco mais do assunto e não achar que alcançamos um patamar mais elevado apenas pelo rápido entendimento de algo.

“Estudar não é um ato de consumir idéias, mas de criá-las e recriá-las.”

FREIRE, P. R. N. Considerações em torno do ato de estudar. IN: Ação cultural para a liberdade e outros escritos. 5. Ed. Rio de Janeiro: Paz e terra, 1981.

sábado, 16 de agosto de 2008

A necessidade de reconhecimento do outro

O direito de cada um termina onde o do vizinho começa. Certamente não foi baseado nesse princípio que o Novo Mundo foi colonizado pelo Velho Continente. Mas é baseado num princípio de filosofia da história que afirmo que a lógica de funcionamento de todo sistema social enquadrado numa era difere completamente de outro somente por estar num contexto de outra era; e vivendo hoje numa era da vitória da democracia liberal, princípios kantianos e direitos humanos, não deveríamos cogitar o genocídio cultural. Se é função do Estado Logístico [1], além de outras coisas, que os acordos sejam cumpridos, voltamos ao primeiro princípio desse texto. Sendo assim, já não estamos sós: passa a nos ser obrigatório conhecer os limites dos direitos alheios - que, em conjunto, definirão o nosso próprio.

Cada ser vive, contudo, em busca de satisfação própria; não se pode nem deve crer que se possa viver em busca de um ideal de satisfação geral. Até a busca pela concretização do comunismo como ele é pra ser é uma busca de cada um por todos, mas, novamente, de cada um pra si, no sentido de que esse sistema visa a propiciar a cada um tudo aquilo que lhe é necessário e lhe apraz, permitindo a todos - mas principalmente a cada um - que possam ser quem são de fato. E não é esse, afinal, o princípio e o fim da existência em sociedade, garantir que possamos, individualmente, viver melhor e ter mais acesso ao conjunto das nossas satisfações? Para isso, vivemos num universo de concessões: só podemos ter ou fazer ou ser algo se deixarmos isso ou aquilo de lado.

Os tempos são de razão, ainda que positiva. Não cabe aqui julgar, cada um pode - e não seria mal que o fizesse - conceber suas idéias de justiça, contanto que não a execute por sobre as justiças alheias. É assim que a idéia de justiça - bem como outras idéias que permeiam, mesmo que não de maneira clara, a nossa (con)vivência - deixa de ser teoria (universal em essência e prática; visa ao bem geral; positivo) e vira conceito (particular; vinculado a um meio; assumidamente visando ao bem desse meio)[2]. A existência e, talvez e principalmente, o embate entre teorias e uniões de conceitos é inevitável, e útil no sentido de produzir conhecimento voltado para a prática. Assim, não é aceitável para a Lógica[3] que alguém, em busca de um ideal que é seu, dizendo-o maior e universal, romantizado, busque a realização dessa proposta, porque ela inevitavelmente passará por cima de outras propostas. As forças sociais respondem negativamente a toda tentativa similar. Idealizaram o Contrato Social, em que cada indivíduo cede direitos pela esperança de receber o que ele precisa de volta; e é o Estado, beneficiado das cessões de cada um, quem vai definir, em cada caso, o que é teoria, o que é conceito individual e o que é conceito de Estado, sendo a diferença entre os dois que o de Estado, por supostamente representar a sociedade, vale para todos e consegue abranger todo o universo do contexto em que foi produzido, e o individual, se fugir aos ditames do outro, é passível de punição.

Considerando o que já foi dito, não podemos falar que vivemos plenamente em sociedade ou plenamente em estado natural; esses são apenas - o que já é muito - dois níveis de análise; e, tomando um pouco de cada, somos seres aparentemente onipotentes, mas que, posto dessa maneira, dependemos da onipotência alheia - e que ambas estão sobre a onipotência real do Estado. Não é mais somente questão de força - na Lógica, somos aparentementes detentores de poder semelhante-, mas passa a ser uma questão de legitimidade, o que requer, antes de tudo, que respeitemos a questão do espaço de atuação de cada força[4]. Requer também, em seguida, que os demais poderes (demais pessoas; também representam o Estado) concordem com o que se propõe fazer (ou tenham concordado previamente). Deve-se lembrar que cada vez em que se legitima um ato, perde-se espaço no espaço de atuação do poder próprio, o que é feito em busca de um bem maior - a satisfação própria.

Tendo tudo isso em vista, o que sobra para cada um? Não tanto, mas o interesse inicial - o da auto-satisfação - permanece inteiro. Podemos dizer, então, que caminhar nesse sentido pode tornar-se uma corrida num campo minado no sentido de que é uma estrada que se deve seguir com bastante cautela; fica comparável a um jogo de xadrez pelo que requer de estratégia e concentração. Jogamos com essas forças - dos indivíduos que definem nosso direito, com a sociedade como um todo e como o Estado, força acima de tudo. Um ser que busca a plenitude própria não pode deixar de agir com ponderação e capacidade crítico-reflexiva porque ele está em constante clima de ameaça com as forças que o cercam - já que ele também contribui para definir os limites das outras forças - para poder aproveitar da melhor maneira possível o seu campo de possibilidades. Por fim, neste raciocínio, a Lógica não aceita exceções: tudo aquilo que foge ao que é estabelecido será posto à margem dos bens proporcionados pela vida em sociedade / sob um Estado. As forças sociais garantem que aquele que se marginalizar dos mecanismos sociais inevitavelmente perderá.

Fazendo rápida menção a outro ponto de vista, que também devemos tratar não como total, único ou certo, e sim como nível de análise, e se entendêssemos que nós, realmente, não nos sentimos atraídos por todas essas propostas? É algo que nos é passado desde a educação primária - saber se encaixar na sociedade para aproveitar o que ela tem a oferecer, ou que não o fazer nos traria prejuízos. É um raciocínio que se reproduz e enraíza. Percebe-se que a base de conhecimento de cada um advém da infância: desde o contato que tem com os pais até a influência (não absoluta) do meio em que viveu; se não fosse, entretanto, esse contato, o que seríamos? Como as duas meninas que, jogadas na selva, criadas no meio lupino, passaram a comportar-se como lobas. Podemos, também, então, dizer que vivemos em sociedade porque é a partir dela que não viramos um um com o mundo natural, e podemos passar a nos distinguir de maneira tripla: do meio natural, da sociedade e de nós mesmos, que passamos a ser capazes de nos reconhecer e repensar. A proposta, à medida que vamos envelhecendo, é que aumentemos esses graus de diferenciação, em movimentos especializadores, de modo a que aumenta, também, a nossa definição partindo da definição dos outros, em que tomamos para nós elementos dos vários outros para que sejamos um só. Nessa perspectiva, definimo-nos nos outros, ao menos parte de nossos traços, por interesse - que poderíamos até caracterizar como fetiche.

Para exemplificar, voltemos ao caso da colonização européia da América Latina. Isso será, em algum grau de intensidade, um processo de desconstrução de uma idéia que se defendeu até agora - o que me faz reforçar a idéia da não-completude de cada teoria, mas no seu bom encaixe como nível de análise - : não há, na verdade, um maniqueísmo em nenhum dos pares antitéticos levantados anteriormente; um se define e se completa no outro. Na historiografia, costuma se falar em uma sociedade conquistadora, marcada pelo massacre, e outra, indígena, marcada pelo sangue do sacrifício. Para esta, era aceitável fazer um sacrifício diário de um ser humano para que o sol nascesse no outro dia, o que é uma prática (reiterada) de reafirmação dessa sociedade específica enquanto diferente das outras. Para aquela, fazer sacrifícios para deuses era uma monstruosidade (auto-definição pela diferenciação), mas cometer genocídios físicos (matar pessoas) e genocídios culturais nos diversos povos (reafirmação) era o aceitável, o normal. Ainda assim, mesmo que não vejamos, nas narrativas tradicionais, nenhuma história de português que tenha passado a adorar Tupã, são inúmeras as histórias de europeus que largaram o que tinham pra tentar a vida na América Latina, sentindo-se atraídos pelo que a "nova" terra tinha a oferecer e chegaram a ajudar na criação de nações, aprendendo o idioma local e interagindo com os indígenas, como o caso de Inés de Suarez. No outro sentido, também os americanos (nascidos na América) que se interessavam pelo bens, pelos animais, enfim, pelo novo. É um jogo de sedução que tem mão-dupla. Dessa forma, passa a ser do interesse individual o relacionamento com o outro porque isso traz coisas novas para as partes. E, ainda no exemplo dado, são discursos de laços fortes que se repetem, de europeus que manifestam pulsante vontade de vir à América Latina (se) conhecer.

De maneira similar a tudo o que foi demonstado, funciona o jogo de relações entre os Estados. Consideramos apenas que os níveis de análise (chamemos de imagens) passam a ser o de anarquia e sociedade internacional e que não são regidos por um órgão supraestatal[5]mas concessões são feitas entre os Estados para a criação de normas de direitos humanos, direito internacional e o bom funcionamento de influentes organizações internacionais (sem querer mencionar o Conselho de Segurança da ONU). As teorias procuram fundamentar aspectos que deveriam funcionar para todas as realidades, e os conceitos são os formuladores de políticas exteriores e externas; os Estados têm de respeitar os acordos firmados e, enquanto soberanos interna e externamente, têm, teoricamente, o mesmo peso em decisões, de modo a que um não possa se sobrepor aos conceitos dos outros. Tendo todos esses percalços em vista, a diplomacia - que falta nas relações interpessoais - existe pra ,entre outras coisas, diminuir os atritos do lado do seu país-mãe (que ajuda a definir quem ele próprio é). Os Estados precisam fazer planos pela busca dos seus interesses que levem em consideração todos os outros Estados, que ajudam a definir seu próprio espaço de atuação. Que nem a Rússia, que não considerou a soberania (garantia de autonomia) da Geórgia, e dos EUA, que aspiram à delegacia do mundo. E do mesmo modo que atuam as forças sociais para punir os que fogem ao sistema, todos os Estados com pretensões hegemônicas começam a juntar inimigos demais, o que, inevitavelmente, levaria a seu fim. É por isso que dizem que todo império perecerá. É isso.



[1] Estado Logístico é, dentro do paradigma neoliberal, aquele que não funciona exatamente como um welfare state, gerenciando mais fortemente e provendo serviços, mas aquele que deve conduzir (auxiliar) a sociedade na busca de seus interesses e satisfação, o que justifica, dentro dessa corrente, a existência de um Estado que não seja nem mínimo nem interventor demais.
[2] A existência e, talvez e principalmente, o embate entre teorias e uniões de conceitos é inevitável, e útil no sentido de produzir conhecimento voltado para a prática.
[3] Entende-se Lógica, com a maiúscula alegorizante, nesse texto, como a lógica de funcionamento do atual sistema.
[4]Devemos entender espaço de atuação de cada força como a amplitude do direito de cada um.
[5] Essas relações interestatais estariam, no equivalente humano, na fase de organização social anterior à criação de um Estado, já que estão ainda engatinhando, de tão jovens (têm como marco inicial o ano de 1648).

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Benkyo Suru*



No Japão existem três alfabetos. São chamados de Hiragana, Katakana e Kanji.

O Hiragana e o Katakana são alfabetos auxiliares. O primeiro é usado para se escrever de forma fácil em japonês, enquanto o segundo serve para palavras estrangeiras e onomatopéias. A construção deles é ,em sua maioria, silábica(os símbolos representam sílabas) e cada sinal possui apenas o som da sílaba correspondente. Juntos, eles possuem algo em torno de noventa símbolos.

Já o Kanji, proveniente da China, é um alfabeto simbólico. Então os ideogramas possuem uma tendência a serem muito mais complexos. Existe mais de um modo de leitura, e dependendo do contexto, e de outros tantos fatores, palavras escritas de modo diferente podem ter sons iguais, ou o inverso, já que a maioria dos símbolos possui mais de um fonema associado.

O Kanji possui cerca de cinco mil símbolos.

O alfabeto usado no Brasil é constituído de vinte e seis letras.

Pense numa sala de alfabetização. Lá estão a professora e os alunos. Aqui no Brasil, eles reclamam que é difícil escrever e decorar o que significa cada letra. No Japão também fazem isso, só que o número de ideogramas a decorar (considerando apenas o Hiragana e o Katakana) é quatro vezes maior. Fora que a representação gráfica que a nossa.

Vamos um pouco adiante, para o Ensino Fundamental e o Ensino Médio no sistema [educacional] brasileiro. E visível que nossos governantes acharam uma boa idéia que mesmo tirando notas longe da meta necessária para a aprovação, os alunos, praticamente analfabetos, devem seguir para a próxima série. No Japão, o ingresso em cada etapa de ensino é feito por meio de uma prova. É como se eles fizessem o nosso vestibular, mas alguns anos antes. As melhores escolas pegam apenas as melhores notas, e não tem acordo. Em cada prova é exigido o conhecimento sobre um certo número de Kanjis, e se você não souber, está fora.

É importante frisar que lá, desde 1947, são obrigatórios a Educação Infantil e o Ensino Fundamental.

O ingresso no Ensino Superior de lá é um dos mais competitivos do mundo. Até seu tipo sangüíneo conta nessa hora. E, mesmo com todo este rigor, em 2005 75,9% dos formandos cursaram universidade ou um curso de valor similar. No Brasil, em vários cursos sobram vagas, outros são lotados. E com tudo isso, cria-se um sistema de cotas para que os já citados analfabetos criados pelo nosso sistema de ensino público ingressem em um curso superior.

Além disto, um último dado. Chineses, Japoneses e Coreanos possuem, segundo pesquisas, a média de Quociente de Inteligência(Q.I.), mais alta da humanidade: 105.O Brasil possui o mediano valor de 87.

Será que alguém consegue ver onde está a diferença? Não é na genética, não é no alfabeto, e nem sequer nas escolas em si.

É algo mais fundamental: "Laissez faire, laissez passer"**


* "Estudar", em japonês.

** "Deixai fazer, deixai passar.", em francês.

domingo, 3 de agosto de 2008

Bioética - Três questões emergentes

Destinação de recursos a pesquisas

Observa-se a concentração das pesquisas em áreas mais rentáveis para grandes empresas farmacêuticas e de biotecnologia. Para os terceiromundistas, o problema torna-se ainda maior: cientistas, médicos e organizações não-governamentais reclamam da falta de interesse econômico na cura das doenças típicas desses países, enquanto outras linhas de pesquisa, ditas de áreas privilegiadas, recebem a verba. Também afetam os países desenvolvidos a legitimidade da destinação: questiona-se se, de fato, as áreas beneficiadas são necessariamente as de maior interesse ou bem coletivo. Coloca-se, então, o Estado e sua obrigação de promover a igualdade dos serviços de saúde, com respaldo no princípio bioético da justiça e na própria constituição.

Manipulação de células germinativas humanas

A dificuldade em convergir opiniões sobre quando é o início da vida (se com a nidação, se com o desenvolvimento dos órgãos, se com o surgimento de um sistema cognitivo), ou seja, de separar o que é aglomerado de células e o que é um ser vivo, leva o Estado a, de acordo com o sistema de valores vigente, direcionar suas políticas. Nos EUA, por exemplo, os não-nascidos não são considerados vida, assim como os embriões congelados, na Inglaterra, enquanto na Alemanha consideram a vida a partir da fecundação. As discussões giram em torno da definição de vida – sendo, nesse caso, possuidores de direitos – em contraste com células totipotenciais com potencialidade de se converter em humano se e somente se num útero e da potencial comercialização – já prevista nos princípios bioéticos.

O caso do cristianismo

Diversos autores, entre eles White, Amerx, Kabe e Cobb, atribuem ao cristianismo uma essência depredadora, irreconciliável com qualquer preocupação ética e meio-ambiental. Os autores afirmam que ser cristão e manifestar uma atitude responsável perante o meio-ambiente é evidência de não se haver compreendido o sentido da fé, afirmam os autores. Segundo Gafo, é possível, mesmo com os antecedentes históricos da relação humana com a natureza, fundamentar uma ética ecológica cristã, se, ao mandamento “dominai a Terra”, acrescentarmos “e guardai e cultivai o jardim”, e se considerarmos a manutenção do estado da natureza como um dever de solidariedade com os humildes. Segundo Sariego, estando-se de acordo com uma visão ou com outra, é certo que ambas se mantêm firme ao antropocentrismo cristão, mas sendo um antropocentrismo diferente, humilde, que se separa dos nobres e responsabiliza o homem como único ser consciente de sua obrigação moral com o destino do dom da vida. No aspecto prático, vemos correntes cristãs não-católicas que chegam a defender o uso de células-tronco por serem favoráveis, em toda instância, à vida. Sariego coloca, ainda, o processo de “cristianização cultural” do mundo grego-latino levando a um duplo sistema de valores, o que facilitou a Igreja, da medieval à moderna, até certo ponto, em sua luta pelo poder, notável até hoje pela sua opinião forte e influenciável. Quando a aprovação da lei de biossegurança foi divulgada, a CNBB ( Conferência Nacional do Bispos do Brasil) apresentou uma nota a 29 de maio lamentando a decisão do STF (ver Anexo 2), o que produziu alguma repercussão

sábado, 2 de agosto de 2008

Bioética - Princípios e políticas públicas


Na Nova Ciência Política, de enfoque terceiromundista, a ética constitui um substrato necessário em especial para a formação de políticas públicas. Em conseqüência, as relacionadas com a ética da vida adquirem uma relevância maior, porque seu objeto transcende aos agora considerados como tais. As novas realidades obrigam os estudiosos a trabalharem com duas ciências de níveis diferentes: o caráter tecnológico da Ciência Política, que remete ao final do século XX, e a globalidade filosófica da bioética (Fung, 2004).


Para aqueles que advogam por uma Ciência Política alternativa, assumir a bioética como ética da vida assume um espaço de excepcional importância, porque não seria possível pautar comportamentos e cenários políticos sem levar em conta a relação da propriedade privada e pública e a existência da vida (a); o papel dos Estados na destruição dos patrimônios estruturais e da sustentabilidade para a biodiversidade e sociodiversidade (b); os direitos humanos e ambientais à ampliação da sua reprodução (c); e os considerados princípios da bioética (d). Estes podem ser internos, conhecidos como fundamentais, (beneficência, autonomia, não-maleficência ou sacralidade da vida humana e justiça) ou externos (pluralismo, tolerância, responsabilidade social, e, novamente, justiça). Estes últimos são, para Garrafa, os pilares da bioética no mundo atual; os primeiros, por outro lado, são de grande importância para a elaboração de políticas públicas, motivo pelo qual serão mais abordados neste trabalho. O princípio da beneficência, no tocante às pesquisas científicas, seria aplicado sempre em benefício da sociedade, dos seres, em não os fazer sofrer de forma desnecessária em pesquisas; o princípio da autonomia refere-se à capacidade de autogoverno do homem, de tomar suas próprias decisões, de o cientista saber ponderar, avaliar e decidir sobre qual método será utilizado para atingir os fins desejados da pesquisa; por outro lado, também, o centro das decisões deve deixar de ser o cientista ou o médico, e passar a ser do binômio médico-paciente, relativizando as relações entre os sujeitos participantes; já o princípio da sacralidade da vida a considera como inviolável e que não se justifica o sofrimento e a dor desnecessários e a imputação de um ônus superior ao que a pessoa possa suportar, ainda que por decisão sua; e, por fim, o princípio da justiça refere-se à distribuição justa e eqüitativa dos recursos financeiros e técnicos da atividade científica e dos serviços de saúde. No caso das células-tronco e demais questões referentes aos desenvolvimentos da crescente área da biogenética, outros princípios bioéticos estão sendo construídos, que seriam, por exemplo, a não comercialização de órgãos humanos, a gratuidade geral na doação de materiais para toda atividade científica, a oposição ao comércio de embriões. Todas essas são considerações que devem estar encaixadas dentro de políticas públicas, mas faz-se essencial ressaltar a subjetividade desses princípios, impossibilitando reduzir os julgamentos a dados frios, concretos, pois a própria essência dos princípios citados já é subjetiva por si. Para Sariego (2004), a Ciência Política de hoje, partindo de qualquer âmbito ou enfoque para se produzir, e, de um modo ou de outro, tenderá a assumir os valores bioéticos, que mudarão a ética das suas relações.


Durante a Modernidade, recorrentemente se aceitou que a luta pelo poder, sua manutenção e exercício não podiam se subordinar a um ideal ético sem tender a uma utopia irrealizável (Sariego, 2004). Por outro lado, tem-se o Estado como concretização da classe dominante, que impõe um sistema de valores – não podemos caracterizar, então, a política moderna como value free. Nesse sentido, é o Estado, e, por ele, entendem-se a classe dominante e seus interesses – sejam eles equivalentes ou não aos da maioria –, que vai determinar o objeto dado como empecilho ou auxílio, interessante ou desinteressante. Vê-se, qualquer que seja o posicionamento de cada Estado, a natureza ascendendo de meio a fim moral.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Bioética - Conceito e origem


Bioética – ou, como preferem alguns autores, ética global – é, segundo Reich, o “estudo sistemático da conduta humana no âmbito das ciências da vida e da saúde, enquanto essa conduta é examinada sob a ótica dos valores e princípios morais” (Pessini, 1996), e tem se tornado questão de cada vez maior relevância no âmbito do homem e da ciência. Uma vez que foi desenvolvida por médicos, filósofos e cientistas, o principal fator a ser considerado pela bioética é o homem; essa concepção, porém, tente a descer aos novos rumos científicos e ser mais inclusiva com relação ao seu objeto. O termo surge com Potter (1970), que o usou para expressar a relação da ética com a ciência, a tecnologia e os processos econômicos e sociais. Como um dos fundamentadores da bioética, o autor considera: “que tipo de futuro temos adiante? Temos opção? Por conseguinte, a bioética virou uma disciplina que guiará a humanidade ao futuro”.

Com as mudanças tecnológicas, novos mecanismos de exigência social do cumprimento dos valores começam a se desenvolver, e são criados novos códigos de conduta, que têm dupla função: tranqüilizar a sociedade, que se vê respeitada e segura, e orientar os médicos e cientistas, que já não precisariam se preocupar com o aspecto ético de suas pesquisas, sendo obrigados a reavaliar constantemente os conceitos subjetivos do que é anti-ético e imoral. Apesar de inicialmente ter sido desenvolvida por profissionais da área médica para debater temas polêmicos como aborto e eutanásia, atualmente a disciplina aborda uma variedade muito maior de assuntos, como, e talvez principalmente, os avanços da engenharia genética, colocando em voga os limites éticos da pesquisa científica. Dessa maneira, acompanhando também as mudanças tecnológicas, a bioética propõe diversas questões e sugere diversas respostas. Assim posto, o biodireito se coloca como instrumento moralizador da ciência.

No século XX, quando nasce a disciplina, além das consideráveis revoluções técnico-científicas, o exponencial desenvolvimento da física subatômica e da biologia molecular permitem ao homem uma compreensão absolutamente maior dos mecanismos naturais. Mais fortemente a partir daí, o homem, a fim de contribuir para o aumento da qualidade de vida, acabada intervindo decisivamente na destruição do meio-ambiente, e, com isso, na sua própria. Para esse problema, Francis Capra sugere a adoção de modelos ecoéticos para as ciências; a primeira manifestação do surgimento de uma nova consciência foi a crise moral dos físicos, que, na década de 1950, protagonizaram um movimento que exigia a proibição do manuseio nuclear para fins bélicos e levantavam as conseqüências do seu uso indiscriminado (Sariego, 2004). Já se fala, nas últimas décadas, de maneira similar, tomando como referência o progresso científico da biologia molecular e seu impacto ao meio-ambiente e a tecnologias associadas a ele, em um processo de conscientização semelhante por parte dos estudiosos dessa área. Enquanto a ética dita pré-moderna, majoritariamente, era tida como uma disciplina ligada ao presente, possuía uma visão imediatista, por assim dizer, com a bioética, nota-se um grande avanço nesse aspecto: a nova ética considera e se preocupa com a terceira geração.

sábado, 29 de março de 2008

Ciberespaço e liberdade na escrita


Philipe Moura



O aparecimento da internet e de ferramentas de comunicação instantânea em seu seio são uma revolução em vários aspectos - alguns anos atrás, ninguém pensaria em tanta facilidade para estabelecer um diálogo com alguém que você sequer viu e está do outro lado do país. Também podemos considerar carbonária uma mudança que vem se tornando mais comum, um grande reforço aos elementos retóricos, antes inimaginável: o uso da estruturação frasal ideológica.


O que poderíamos entender como estruturação frasal? Adotemos, para o seguimento deste raciocínio, a estrutura frasal compreendendo fatores como iniciar frases com letra maíuscula, pontuação regular, palavras de uma mesma frase separadas apenas por um espaço, separação silábica se necessário. Não pretendo discutir o mérito de questões como concordância, regência e ortografia - deixarei tal ponto para os estruturalistas assumidos.


Hoje vemos que a estruturação frasal nesses instrumentos de comunicação não segue esses preceitos; seria tolice, por outro lado, crermos, partindo da faculdade da razão, que não há lógica na maneira como as sentenças são sistematizadas. Há lógica - mas a questão torna-se tão subjetiva quanto é subjetivo e discutível e imprevisível a lógica do pensamento individual, mesmo se considerássemos indivíduos ideologicamente parecidos pertencentes a um mesmo grupo, como estudantes de uma mesma sala, amigos ou familiares próximos. Da mesma forma que cada um procura pensar diferente, a tendência é que, dando-lhes liberdade, cada um tenda a escrever diferente.


Sendo o que foi posto acima verdadeiro, podemos observar nessa tendência uma face um tanto quanto interessante para estudo, mas, mais que isso, rica; se a tendência é que a frase - e por "frase", neste caso, entendamos a manifestação gráfica, já que estamos lidando com escrita, de uma idéia, que necessariamente possui sentido completo, é auto-suficiente - seja estruturada conforme a lógica individual, poderíamos dizer que esta estruturação frasal obedeceria a uma concordância ideológica com as nossas idéias, nossa forma de sistematizar/construir o pensamento antes de expô-lo, e não necessariamente concordância com as normas estabelecidos pela ABTN ou pela gramática ortodoxa.


Uma frase como a que fiz no parágrafo de cima (perceba que só coloquei um ponto nele) num meio de comunicação como o Msn seria quase impensável. A tendência seria fragmentá-la em várias idéias, ou separando pedaços da frase em linhas diferentes com o intuito de valorizar uma construção ou mesmo palavra dentro de cada parte da unidade frasal. De um jeito, de outro ou ainda de um terceiro, a forma de estruturar dependeria tão somente da nossa maneira de enxergar e preferir a construção da idéia. O que vale para a comunicação (e aqui assumimos uma postura preferencialmente funcionalista da gramática) é que ela seja alcançada, independente de que, para isto, eu tenha que me valer de elementos que escapam à normatividade, o que também explicaria o uso de imagens e/ou emoticons. O fenômeno estudado seria comparável à divisão de um texto em parágrafos, com a diferença de que comportaria, no referido caso, fragmentos de idéias com a intenção de ganharem maior relevância, ao invés de serem idéias completas, defendidas e fechadas.


É importante ressaltar que não é a primeira vez que surge um movimento que assuma a estruturação ideológica de frases como mandamento. Veja o caso abaixo:



Erro de português


Quando o português chegou
Debaixo de uma bruta chuva
Vestiu o índio
Que pena!
Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
O português.



O poema, de autoria de Oswald de Andrade, exemplifica bem a idéia que sustentamos. A poesia, principalmente a modernista, adota dois princípios similares: a negação da gramática estruturalista e a forma de criar os versos sendo completamente livre. Da maneira clássica, vemos somente três frases no poema: "Quando o português chegou, debaixo de uma bruta chuva, vestiu o índio.", "Que pena!" e "Fosse uma manhã de sol, o índio tinha despido o português". Percebe-se que o espaçamento de uma linha faz com que não se torne necessária a colocação de vírgulas, e, em outros casos, separa partes da frase que não necessariamente seriam divididas por pontuação. Além disso, vemos que o primeiro verso do poema não possui sentido completo, não constituindo, portanto, uma frase sozinho: precisa dos dois versos seguintes. Para o estudo literário, diz-se que quando a idéia de um verso está incompleta e continua no verso seguinte é constituído um cavalgamento. Não estamos defendendo que a estruturação frasal no ciberespaço siga o princípio do cavalgamento - até porque a linguagem utilizada neste não se utilize da função poética da língua, apenas que o processo é semelhante - e não é radicalmente inovador. Defendemos, entretanto, que o processo, antes mais restrito ao uso poético, já é observável no meio informal com bastante freqüência.


E por que, enfim, essa mudança mostra-se como uma novo aspecto da retórica? Não é difícil de entender: a partir do momento em que somos livres para escrever e estruturamos o pensamento, este é feito da maneira que nos é mais conveniente. Lidamos com a idéia da maneira como realmente gostaríamos de lidar: não é presa à necessidade de falar continuamente como no discurso oral, nem às necessidades normativa do discurso escrito regular. Isso faz com que vá se tornando mais fácil para nós trabalhar a idéia; transmiti-la torna-se também algo bem menos impedido, já que somos livres para enfatizar idéias e aproximar o interlocutor da sistematização do nosso pensamento quando deixamos que ele entre em contato mais direto com a nossa mais sincera forma de estruturar o pensamento numa frase - sem, novamente, esta estar presa aos requerimentos do discurso oral e do escrito normativo. A utilização de elementos multimídia como sons e imagens (emoticons), também disponíveis neste meio e compreendidos pelas possibilidades de estruturação, pode formalizar ou informalizar o discurso, dependendo da essência do recurso utilizado; um discurso agressivo pode parecer mais brando, se for nossa intenção que pareça, se, ao final dele, acrescentarmos alguma imagem que deixe transparecer leveza ou se façamos com que o interlocutor releve algumas palavras e irreleve outras.


Conclui-se, pois, a existência deste processo de (des)estruturação frasal, refletindo a tendência da liberdade na escrita no meio do ciberespaço, como sendo crescentemente flagrante. Como pontos positivos, vemos que é mais um recurso da retórica que passa a existir e o melhor relacionamento do escritor com seu próprio sistema lógico; como negativos, pode-se alegar que a não-uniformidade da estruturação frasal vá, no futuro, impedir a boa compreensão das idéias de um por outro, e que, portanto, é necessário que exista um sistema que delineie a construção de idéias. E o caro leitor, como se posiciona?

quarta-feira, 26 de março de 2008

Che Guevara: A consciência do homem no centro da transformação da sociedade

“A revolução se faz através do homem, mas o homem deve forjar, dia-a-dia, seu espírito revolucionário.” (Che Guevara, “O socialismo e o homem em Cuba”.)
Este artigo é uma contribuição ao estudo do pensamento de Che Guevara acerca do papel do homem na transformação histórica. Seus escritos salientam que a construção do socialismo não pode avançar somente pelas transformações no modo de produção, na base econômica. E ressaltam: “Para construir o comunismo, simultaneamente com a base material tem que se fazer o homem novo” (GUEVARA, 2005: 51). Sua concepção elucida, sobretudo, o papel do homem como sujeito da transformação histórica, entendido como ser social que transforma a si mesmo concomitantemente com a transformação da sociedade.
A temática do “homem novo” é discutida por Che Guevara em vários artigos e discursos, mas é especialmente num texto intitulado “O socialismo e o homem em Cuba” que as premissas fundamentais de sua concepção sobre essa temática aparecem de maneira mais elaborada:
“Acredito que o mais simples é reconhecer sua qualidade de não-feito, de produto não-acabado. As taras do passado são transmitidas, no presente, na consciência individual e há necessidade de se fazer um trabalho contínuo para erradicá-las. (…) É necessário que se desenvolva uma consciência na qual os valores adquiram categorias novas. A sociedade em seu conjunto deve transformar-se em uma gigantesca escola.” (GUEVARA, 2005: 50-51)
Na passagem citada acima, Che elucidou, em princípio, três elementos centrais. Primeiro, ele afirma que a construção do “homem novo” não confere um processo finalizado – nem poderia, já que a construção do novo homem se dá concomitantemente às transformações do modo de produção. Ou seja, junto com a nova base econômica, com o desenvolvimento das forças produtivas e as novas relações de produção, deve-se ir desenvolvendo a consciência de um homem comunista.
Segundo, seu pensamento elucida que a transição é marcada pelo antagonismo e pelo conflito entre as novas relações sociais que subsistem ao mesmo tempo com as antigas taras do capitalismo. No socialismo, deve-se suprir o legado da velha sociedade, negá-la e superá-la. Os mais terríveis adversários, para a conscientização das massas, são a ambição demasiada e os hábitos egoístas do capitalismo; a força do costume individualista burguês, que busca satisfazer apenas interesses individuais. Esse legado é o maior inimigo da nova sociedade, um gigantesco oponente no processo de construção do “homem novo” e da sociedade socialista. Che explica esse processo, mediante o exemplo de uma pessoa que se recupera de uma enfermidade:
“É como um mal que tivera, inconscientemente, uma pessoa. Quando acaba o mal, o cérebro recupera a claridade mental, mas os membros não coordenam bem seus movimentos. Nos primeiros dias, após sair do leito, o andar é inseguro; e, pouco a pouco, vai adquirindo a nova segurança. É neste caminho que estamos.” (GUEVARA, 2005: 22).
Nesse trecho, Che Guevara diz que a estrutura social de um regime em transição possui diversos defeitos e não está inteiramente liberta das seqüelas herdadas da antiga sociedade. Essa fase de transição é, em sua essência, contraditória, pois traz consigo o conflito direto entre o novo e o velho que permanece.
Quanto à terceira questão, Guevara ressalta a necessidade de trabalhar a consciência de cada indivíduo para que adquira novos hábitos e valores. Sua concepção atenta de que o homem deve sobrepujar suas ambições individualistas burguesas em favor de interesses coletivos que representem verdadeiramente todo um grupo e não interesses particulares.
“Nós não podemos estimular e sequer permitir atitudes egoístas nos homens, se não quisermos que os homens sigam o instinto do egoísmo, da individualidade. (…) O conceito de uma sociedade superior pressupõe um homem desprovido desses sentimentos, um homem que tenha subjugado esses instintos.” (CASTRO, apud FERNANDES, 1979: 154).
Fidel compartilha das mesmas convicções de Che. Essa citação repousa sobre a análise da necessidade de sobrepor aos homens novos sentimentos, valores e ideais que contemplem o coletivo. Isso implica que o homem que veio de uma sociedade individualista deve alcançar um alto grau de consciência social; em outras palavras, ele deve estar impregnado de sentimentos de amizade, fraternidade, compreensão, etc. Che salienta: “Deixe-me dizer, com o risco de parecer ridículo, que o revolucionário verdadeiro está guiado por grandes sentimentos de amor. É impossível pensar num revolucionário autêntico sem esta qualidade” (GUEVARA, 2005: 62). Nesse sentido, o comunismo constitui uma sociedade de irmãos. O pensamento de Che Guevara defende o valor do humanismo, do homem que compreende e cumpre seu compromisso e dever perante a sociedade em construção e transformação.
O cubano Fernando Martinez Heredia, em sua obra Ché, el socialismo y el comunismo, afirma que: “En la concepción del Che la conciencia es la palanca fundamental, el arma para lograr que las fuerzas productivas y las relaciones de producción sociales dejen de ser medios para perpetuar la dominación, como era en el capitalismo” (HEREDIA, 1989: 70). E Luiz Bernardo Pericás, em sua tese Che Guevara e o debate econômico em Cuba, acrescenta que “O importante seria, portanto, transformar esse homem individualizado no homem socialista, que precisaria da comunidade para desenvolver sua individualidade” (PERICÁS, 2004: 170).
A concepção de Guevara retoma o pensamento de Marx, segundo o qual a consciência não é pura, mas influenciada pelo meio social, pela relação dos homens com outros homens. “A consciência é, antes de tudo, mera consciência do meio sensível mais próximo e consciência de uma interdependência limitada com as demais pessoas e coisas que estão situadas fora do indivíduo que se torna consciente” (MARX; ENGELS, 2004: 23). A consciência é, em sua origem, um produto social, nascido das relações humanas, ou seja, do seu meio sensível mais próximo. Partindo dessa afirmação exposta por Marx, Che argumenta em favor de uma transformação da consciência desse homem que vem do capitalismo, mediante a produção da vida material, por meio de suas relações sociais com outros homens, atuando em sociedade.
O homem socialista aparece, para Guevara, como uma superação dialética do homem capitalista. É a negação do homem alienado pelas relações de produção regidas pelas leis do Capital. As características desse homem estranhado foram bem-colocadas por István Mészáros: “O ‘verdadeiro homem’ – a ‘verdadeira pessoa humana’ – não existe realmente na sociedade capitalista, salvo em uma forma alienada e reificada na qual o encontramos como ‘trabalho’ e ‘capital’ (propriedade privada) opondo-se antagonicamente” (MÉZÁROS, 2006: 106).
Portanto, é importante elucidar que Guevara segue a concepção marxista que rejeita a idéia de que as características e os valores dos homens são dados, fixados pela natureza humana. Dessa maneira, “o homem não é, ele se torna” pela produção e reprodução da sua atividade material. Marx parte do pressuposto ontológico de que o homem é uma parte específica da Natureza. E, assim, a consciência do homem está em revolução constante, por meio de ações práticas que estão estreitamente ligadas à sua atividade. Cabe aqui citar, novamente, uma passagem clássica de A ideologia Alemã: “Os homens, ao desenvolverem sua produção material e relações materiais, transformam, a partir da sua realidade, também o seu pensar e os produtos do seu pensar. Não é a consciência que determina a vida, é a vida que determina a consciência” (MARX; ENGELS, 2004: 52).
É essa ação humana, do homem entendido como “ser social transformador”, que modifica as condições objetivas, que muda a realidade concreta, que muda as relações de produção e reprodução. Portanto, mediante o antagonismo existente entre a classe burguesa e proletária, as contradições das relações de produção e das forças produtivas e o malogro do Estado dominante, os homens transformam a sociedade, a base econômica e, concomitantemente, seu pensamento, suas idéias; ou seja, sua consciência também ganha nova forma.
Se o homem é sujeito da transformação histórica, a revolução proletária só pode se concretizar como um ato consciente. Essa condição parte de uma premissa fundamental do socialismo científico, exposta por Engels:
“A própria existência social do homem, que até aqui era enfrentado com algo imposto pela Natureza e a História, é, de agora em diante, obra livre sua. Os poderes objetivos e estranhos que até aqui vinham imperando na História, colocam-se sob o controle do próprio homem. Só a partir de então ele começa a traçar a sua história com plena consciência do que faz. E só daí em diante as causas sociais postas em ação por ele começam a produzir predominantemente, e cada vez em maior medida, os efeitos desejados. É o salto da humanidade do reino da necessidade para o reino da liberdade” (ENGELS, 2003: 65).
Sobre essa importante problemática em discussão, Michel Löwy acrescenta que “A especificidade histórica da revolução proletária – não como um ato único, mas como processo permanente que conduz da luta pelo poder à instauração do comunismo – é que ela é, pela primeira vez, um empreendimento humano plenamente consciente” (LÖWY, 2003: 37).
O entendimento dessa premissa é extremamente importante para a compreensão da ênfase dada por Che Guevara à construção de uma nova consciência. Assim, a construção do socialismo, negação e superação do capitalismo, só é possível por meio da atuação consciente de um “homem novo”. O homem socialista transforma a Natureza, a sociedade e a si mesmo num plano que almeja, como fim último, sua plena libertação como ser social.
Verificamos, então, que Che Guevara ressalta, em seus estudos, o papel decisivo da ação consciente e organizada do homem para o desenvolvimento do projeto socialista. Sem o “homem novo”, uma nova sociedade não pode surgir. Novas idéias e valores são fundamentais para a construção de uma nova sociedade, que somente dessa forma pode avançar no processo de emancipação do homem, e romper definitivamente as correntes da alienação.

Bibliografia

ENGELS, Friedrich. Do socialismo utópico ao socialismo científico. São Paulo: Moraes, 2003.
FERNANDES, Florestan. Da guerrilha ao socialismo: A Revolução Cubana. São Paulo: Tao, 1979.
GUEVARA, Che. Socialismo e juventude. São Paulo: Anita Garibaldi, 2005.
HEREDIA, Fernando Martinez. Ché, el socialismo y el comunismo. Casa de las Américas: Habana, 1989.
LÖWY, Michel. O pensamento de Che Guevara. 5ª ed. São Paulo: Expressão Popular, 2003.
MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. São Paulo: Martin Claret, 2004.
MARX, Karl. O dezoito brumário de Louis Bonaparte. 2ª ed. São Paulo: Centauro, 2000.
MÉSZÁROS, István. A teoria da alienação em Marx. São Paulo: Boitempo, 2006.
PERICÁS, Luiz Bernardo. Che Guevara e o debate econômico em Cuba. São Paulo: Xamã, 2004.
Fonte: http://www.espacoacademico.com.br/066/66prado.htm
Esta página faz parte do sítio Pausa para a Filosofia.
Trata-se de um texto dirigido a Carlos Guijano, do semanário Marcha, Montevidéu, Uruguai, 12 de março de 1965.
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“Na visão de Marx, o homem não é nem ‘humano’, nem ‘natural’ apenas, mas ambas as coisas: isto é, ‘humanamente natural’ e ‘naturalmente humano’, ao mesmo tempo. Ou, ainda, num nível mais elevado de abstração, ‘específico’ e ‘universal’ não são opostos entre si, mas constituem uma unidade dialética. Ou seja, o homem é o ‘ser universal da Natureza’ somente porque ele é o ‘ser específico da Natureza, cuja especificidade singular consiste precisamente em sua universalidade singular, em oposição à parcialidade limitada de todos os outros seres da natureza’. (…) O ‘ser-por-si-mesmo da natureza do homem’ marxista (…) não é, por natureza, nem bom, nem mau; nem benevolente, nem malevolente; nem altruísta nem egoísta; nem sublime, nem bestial etc.; mas, simplesmente, um ser natural cujo atributo é a ‘automediação’. Isso significa que ele pode fazer com que ele mesmo se torne o que é em qualquer momento dado – de acordo com as circunstâncias predominantes” (MÉSZÁROS, 2006: 19; 151).
Sobre essa questão, nunca é demais citar Marx, em O dezoito brumário de Louis Bonaparte: “Os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem segundo a sua livre vontade; não a fazem sob circunstância de sua escolha, mas sob aquelas circunstâncias com que defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado” (MARX, 2000: 15).

Autor: Carlos Batista Prado
Graduado em História pela Universidade Católica Dom Bosco.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Falando em leitura...

Falando em Leitura, podemos ter em mente alguém lendo jornal, revista, folheto, mas o mais comum é pensarmos em leitura de livros. E quando se diz que uma pessoa gosta de ler, “vive lendo”, talvez seja rato de biblioteca ou consumidor de romance, histórias em quadrinhos, fotonovelas. Se “passa em cima de livros”, via de regra estuda muito. Sem dúvida, o ato de ler é usualmente relacionado com a escrita, e o leitor visto como decodificador da letra. Bastará, porém decifrar palavras para acontecer a leitura? Como explicaríamos as expressões de uso corrente “fazer a leitura” de um gesto, de uma situação; “ler o olhar de alguém”, “ler o tempo”, “ler o espaço”, indicando que o ato de ler vai além da escrita?
Se alguém na rua me dá um encontro, minha reação pode ser de mero desagrado, diante de uma batida causal, ou de franca defesa, diante de um empurrão proposital. Minha resposta a esse incidente revela meu modo de lê-lo. Outra coisa: às vezes passamos anos vendo objetos comuns, um vaso, um cinzeiro, sem jamais tê-lo de fato enxergado; limitamo-los à sua função decorativa ou utilitária. Um dia, por motivos os mais diversos, encontramo-nos diante de um deles como se fosse algo totalmente novo. O formato, a cor, a figura que representa, seu conteúdo passam a ter sentido, melhor, a fazer sentido para nós.
Só então se estabeleceu uma ligação efetiva entre nós e esse objeto. E consideramos sua beleza ou feiúra, o ridículo ou adequação, ao ambiente em que se encontra. O material e as partes que o compõem. Podemos mesmo pensar a sua história, as circunstâncias de sua criação, as intenções do autor ou fabricantes ao fazê-lo, o trabalho de sua realização, as pessoas que o manipularam no decorrer de sua produção e, depois de pronto aquelas ligadas a ele e as que o ignoram ou a quem desagrada. Perguntamo-nos por que não tínhamos enxergado isso antes, às vezes essa questão nos ocorre por um segundo, noutras ela é douradora, mas dificilmente voltamos a olhá-lo da mesma maneira, não importa com que intensidade.
O que acontece? Até aquele momento o objeto era apenas algo mais na parafernália de coisas ao nosso redor, com as quais temos familiaridade sem dar atenção, porque não dizem nada em particular, ou das quais temos uma visão preconcebida. De repente se descobre um sentido, não o sentido, mas apenas uma maneira de ser desse objeto que nos provocou determinada reação, um modo especial de vê-lo, enxergá-lo, percebê-lo enfim. Podemos dizer que afinal lemos o vaso ou o cinzeiro, tudo ocorreu talvez de modo casual, sem intenção consciente, mas porque houve uma conjunção de fatores pessoais com o momento e o lugar, com as circunstâncias.
Isso pode acontecer também com relação a pessoas com quem convivemos, ambientes e situações cotidianas, causando um impacto, uma surpresa, até uma revelação. Nada de sobrenatural. Apenas nossos sentidos, nossa psique, nossa razão responderam a algo para o que já estavam potencialmente aptos e só então se tornaram disponíveis. Será assim também que acontece com a leitura de um texto escrito?
Com freqüência nos contentamos, por economia ou preguiça, em ler superficialmente, “passar os olhos”, como se diz. Não acrescentamos ao ato de ler algo mais de nós além do gesto mecânico de decifrar os sinais. Sobretudo se esses sinais não se ligam de imediato a uma experiência, uma fantasia, uma necessidade nossa. Reagimos assim ao que não nos interessa no momento. Um discurso político, uma conversa, uma linguagem estrangeira, uma aula expositiva, um quadro, uma peça musical, um livro. Sentimo-nos isolados do processo de comunicação que essas mensagens instauram – desligados. E a tendência natural é ignorá-las ou rejeitá-las como nada tendo a ver com a gente. Se o texto é visual, ficamos cegos a ele, ainda que nossos olhos continuem a fixar os sinais gráficos, as imagens. Se é sonoro, surdos. Quer dizer: não o lemos, não o compreendemos, impossível dar-lhe sentido porque ele diz muito pouco ou nada para nós.
Por essas razões, ao começarmos, a pensar a questão da leitura, fica um mote que agradeço a Paulo Freire: “a leitura do mundo precede a leitura da palavra e a leitura desta implica a continuidade da leitura daquela”.




MARTINS, Maria Helena. (1986). O que é Leitura. 7ª ed. São Paulo: Brasiliense. p.7-10