Mostrando postagens com marcador Crônica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Crônica. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Mais das flores

- Pra você.
- Uma flor?
- Colhi pra você.
- Mas por quê?
- Como por quê?
- Ela agora perecerá rapidamente até a morte.
- Mas você não gostou?
- Acho que, se você quisesse me agradar, poderia ter me dado outra coisa.
- Desculpa.
- Tudo bem.
- Tipo chocolate?
- Desculpa tipo chocolate?
- Não -- quis dizer, chocolate teria sido bom?
- Se chocolate teria sido bom...Talvez. É, até que sim.
- Mas, se não isso, o quê então?
- Podia ter me dado um beijo, que é manifestação de vida.
- Ah. Mas, assim, então... Podia ter pulado pro sexo. É "tão" vida que até "faz" mais vida, né.
- Não, obrigada. E eu fico com a flor.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Do futuro da tentativa de recriar o homem

Tentam e continuarão tentando os doutores da ciência reproduzir um ser humano em laboratório. Mas, é fácil perceber, falharão sistematicamente por séculos. Não descobrirão de que o homem é feito até que parem de se afastar dele. E ora se propõe outra visão: a de que um homem é feito da aglutinção (inter)subjetiva dos seus afetos.
Se um dia de fato o perceberem, não tardarão a usar seus métodos positivos. No primeiro experimento, reunião cuidadosamente, depois de demorada e detalhada pesquisa, todos os afetos de um dito indivíduo. Expremerão todos, sugando-lhes o que lhes for possível extrair; tudo porão num grande liquidificador, do qual sairá algo mais ou menos próximo do homem que tentavam reproduzir. Não sairá obviamente o mesmo. O primeiro erro fora tratar-lhe "indivíduo", mas não cabe aqui discorrer mais sobre isso. Mas, igualmente importante, tratou-se de objetivar um espaço indescritível, inenarrável, (inter)subjetivo. Reconhecê-lo é uma experiência mística. Conviver com ele, uma experiência mágica.
Com efeito, partindo da premissa de que é um ser a união dos seus, eliminá-los poderia levar à descaracterização daquele. É assim com quem perde um amigo, um pai, perde parte de si; aquele que sente saudades se sente incompleto. Mas esse movimento de incorporação é mútuo: faz-se, mas se é feito. Um ser que de vários é constituído também haverá de constituir vários; de modo que, se se tira um, parece afetar toda a cadeia - quiçá romper o equilíbrio. Nesse ponto, diria, está a mágica. Assim, o apaixonado encontra em si mais vida que antes - e há certamente de propiciar o mesmo. E dê muitos séculos mais para a ciência.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Exoesqueleto

- O que você está olhando?
Era aquele besouro que vinha voando em alta velocidade, e, devido a um erro qualquer de percurso, aterrisara mal, tendo caído emborcado no chão, que consumia minha atenção e meus pensamentos. Não era tão grande, era amarronzado, cor-de-fezes, de onde, na verdade, parecia ter acabado de sair. Se contorcia, balançando de um lado para o outro, mas não conseguia se virar. Terminei esquecendo de responder, mas meu olhar compenetrado me acusou.
- É isso que te faz divagar? É mais interessante que a história que eu tava contando? Neguei. Embora de fato fosse. Senti-me vivendo uma narrativa de Kafka. Talvez revivendo. Penso que nossos exoesqueletos nos fazem parecer todos um pouco besouros, ou besourescos - não é a melhor das qualidades, mas o humano também não parece ser o melhor que a teoria evolutiva poderia apresentar. E, afinal de contas, os besouros passaram centenas de milhares de anos na linha evolutiva e ainda não conseguiram superar o problema do formato do casco que o impede de se virar, ou talvez a falta de força para inverter a realidade que se encontram. Afinal, tudo seria apenas um problema de perspectiva - definir o que seria enxergar de cabeça para baixo -, não fosse o problema de não conseguir andar. Assim, virar-se de volta era necessário, ou seria a morte. E, ainda assim, é incontável a quantidade de besouros que morrem a cada instante devido a não conseguir se desvirar.
- Mais interessante que a Flavinha?
Por que eu tinha que ser interrompido enquanto estava pensando?
- Por que você não faz algo?
- Como o quê?
- Sopra.
Não era má idéia. Assoprei com força, pensando em ajudar. Ele se levantou, mas a continuidade do sopro e sua força fizeram com que o inseto se desvirasse, mas tornasse imediatamente à posição anterior.
- Assim que se sopra, olha.
A corrente dessa vez criada permitiu que ele se desvirasse. Olhei a situação toda. Sem hesitar muito - e igualmente sem cerimônia -, eu o pisoteei.
- Por que fez isso?
Disse não saber. Mas, de verdade, também acho que nossos exoesqueletos escondem dentro de nós o pequeno deus que cada um quer ser.

sábado, 29 de agosto de 2009

Quote-dian

O sexo acabara de acabar. Não ficaram juntinhos. Ela ligou a televisão. Ele tentou ficar na posição em que estava, um pouco mais próximo, mas estava particularmente frio, então ele virou de lado e se cobriu. Foi tentar dormir apesar de qualquer coisa que passava e que ela, embora não conseguisse, tentava assistir. Absortos por seus turbilhões de pensamentos de fim de dia que preferiam não ter, adormeciam.
É verdade, esta está longe de ser uma história emocionante. Está mais para uma aventura do real. Também não é uma história longa: o tempo passa rápido demais para aqueles que dormem profundamente um sono leve e perturbado. E, ainda por cima, curto. Ele acorda primeiro. Mente vazia. Essa é a melhor maneira de se pegar os sonhos.
Os sonhos começam grandes e complexos, cheios de detalhes, e, à medida que o tempo de sono vai passando e a hora de acordar, se aproximando, ele vai se afunilando, até que, no instante que representa o transe entre viver um mundo e outro, que começa quando certas partes do cérebro diminuem o ritmo de trabalho e termina quando os olhos estão definitivamente abertos, o sonho é representado por apenas um curto fio. Ele segue seu rumo até passar por debaixo da porta que leva para além da consciência, definitivamente trancada com todas as chaves. Os sonhos fogem quando já se sai diretamente do transe a pensar: “está tarde!”, “está cedo!”, ou “preciso lembrar o que sonhei!”.
E, de fato, mantinha a mente vazia, sendo daí capaz de puxar o fio, que ia ficando mais largo, e trazia consigo o sonho, todo fragmentado em pedaços pequenos, imagens congeladas, a pedaços grandes, cenas inteiras, às vezes desfocadas. Poderia costurá-lo novamente, se quisesse. Reviu parte das imagens que perambularam por sua mente nas últimas horas. Cenas que pareciam verdadeiras demais até para a realidade de um dia útil.
Não querendo continuar a rever os caminhos percorridos no sonho, começou a pensar em outras coisas, abriu os olhos, e, com isso, escapou-lhe à mão a corda; dessa forma, o sonho retornou a seu rumo para além da porta inacessível, num movimento tão inevitável como o de um balão de hélio sobe quando a criança se lhe desprende sem querer.
Olhou para os lados com as pálpebras semi-cerradas. Parecia ter sido o primeiro a acordar. Tanto fazia. O sol ainda tímido batia nas cortinas e pedia passagem. Por que tudo aquilo? Tudo isso à noite. Todos esses pensamentos. Todos esses sonhos. Quis crer que a vida era mais simples que o que parecia. Sem qualquer cerimônia, jogou de lado o lençol e, a vestir nada, foi escorregando até o banheiro escovar os dentes. Um novo dia qualquer começava. E como estava quente!

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Feliz dia mundial da fotografia!

- Hoje se comemoram 170 anos da captura da luz.
- Os buracos negros o fazem há muito mais de 170 anos e duvido que tenha um dia mundial para eles.
- Mas os buracos negros só foram descobertos bem depois da captura da luz. Logo, viva o nitrato de prata!
- A descoberta, feita a posteriori, não muda o fato apriorístico. A teoria da evolução, como a conhecemos, teve seu esqueleto traçado no século XIX, o que não quer dizer que não tenha havido evolução até lá. E as pessoas estão comemorando os 200 anos.
- A fotografia captura mas já devolve a luz. Já o buraco...
- Mas quem sabe os propósitos? Vai que eles têm as melhores fotos. Ninguém que foi lá já voltou para as exposições de fotografia que temos aqui.
- Enfim, feliz dia da fotografia!
- Com ou sem flash?

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

The frog conundrum


- Vou te contar uma história, ok?

- Ok.

- Bem, havia um laguinho, onde passava um homem. O homem resolveu atirar uma pedra no laguinho, e atirou. Um sapinho que por ali passava viu um ponto preto voando no ar, esticou sua linguinha e engoliu a pedrinha pensando que era uma mosquinha. Sem saber disto, o sapinho sentiu-se satisfeito.

- Hm...

- Existem muitas maneiras de se analisar essa história. Uma primeira pergunta seria: o sapinho estava errado em sentir-se satisfeito?

- Claro que sim.

- O motivo da pergunta é... Como?

- A pedrinha que ele pensava que era uma mosca era uma mosca só para ele, e não uma mosca real que faz parte de uma verdade universal e absoluta, a qual todos devem aceitar. Que nem o pastor disse lá no culto.

domingo, 19 de julho de 2009

Exame

- Bom, meus parabéns, você chegou na última etapa. Como você já deve saber, esse é o exame psicológico.
- Sim, eu sei. Me preparo para este concurso há 15 anos.
- Ótimo. Então, primeira pergunta: você é doido?
- Não.
- Louco?
- Não.
- Insano?
- Não.
- E excêntrico?
- Já me chamaram assim. Mas não.
- Você toma remédio controlado?
- Não. Mais. Não mais.
- Por que suspendeu?
- Enchi.
- Hm. Ok, então, última pergunta: você já consumiu ou consome drogas?
- Sim.
- Vamos tentar de novo: você já consumiu ou consome drogas?
- Sim.
- Drogas ilícitas.
- Sim, já disse.
- Bom...
- Você devia me passar.
- Como?
- Usei outra estratégia.
- Qual?
- Sinceridade. Você devia me passar.
- Por quê?
- Porque isso é uma qualidade em falta no serviço público.
- É verdade. Você não está drogado agora, está?
- Talvez.
- Tá, vou fingir que não ouvi isso...
- Eu estou.
- ... Seja bem vindo ao serviço público!

sábado, 11 de julho de 2009

Papos contemporâneos

Diz: responde!!
Diz: desculpa, tava escrevendo uma resposta na janela da minha filha.
Diz: como assim? a Júlia?
Diz: a única que nasceu até agora.
Diz: mas ela não tem 3 anos?
Diz: é, e eu já tinha pedido pra ela me ensinar a operar esses mecanismos via internet há mais tempo.
Diz: "i see babies cry, i watch them grow..."
Diz: "... they'll learn much more then i'll ever know"
Diz: ao menos a música não muda.
Diz: era um remix.
Diz: entendo.
Diz: olha, recebi uma mensagem da minha filha.
Diz: a Júlia também manda sms?
Diz: não, a Camila. ela já queria avisar que só nasce se o hospital tiver wifi.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

O embate entre direito interno e internacional

A questão que se põe entre o direito interno e o internacional pode ser comparada a um problema no elevador. Num prédio público, um senhor impaciente aguarda as portas se fecharem para seguir subir ao último andar. À distância, ele vê duas senhoras se aproximando, a passos rápidos, na tentativa de evitar perder a viagem. Em parte por consideração, em parte por educação, ele, que também gostaria que outros agissem da mesma forma com ele, não aperta o botão de fechar, embora também não aperte o de manter as portas abertas. Uma das senhoras chega e põe a mão na frente do sensor do elavador.
A situação está estabelecida: ambos, o homem e a mulher, desejam subir. Podem subir juntos ou separados - a ele, não agrada ter que a esperar; a ela, não agrada ir depois dele. Ambos querem operar o elevador, que é o Estado. O homem dentro do elevador é o governo de um Estado, e a senhora representa um outro. O direito internacional é aquele que agiu na cabeça do senhor e o fez ter certo nível de complascência. O direito interno é aquele que o dá a possibilidade de agir da maneira que julgar melhor, apesar de todas as possíveis conseqüências. O direito internacional está expresso no sensor do elevador, que capta a necessidade de ambos, mas privilegia a coordenação da ação dos dois - afinal, o elevador já vai subir mesmo, por que não levar logo a ambos? O direito interno está expresso na vontade realizada do senhor: ele aperta o botão de fechar as portas.
A justiça continua cega. No embate entre as duas esferas, sempre alguém sairá perdendo. Neste caso, a mão.



domingo, 5 de julho de 2009

Pós-contemporaneidade

- As coisas mudam...
- O que quer dizer?
- Na época dos meus avós, era comum conhecer a maioria das pessoas que moravam nas vizinhanças, fosse um bairro ou vilarejo.
- É verdade.
- Meus pais, já um pouco avançados em idade, falam, saudosos, que conheciam todos os vizinhos com cachorro.
- Pelo fato de que saíam à rua pra passear, e encontravam e davam-se bom dia, né?
- No caso do meu pai, sim. Minha mãe não tinha cachorro, mas tinha o sono leve. Cada noite ela lembrava de todos os vizinhos que tinham cachorro.
- Meus pais criavam peixe.
- Ao menos conheciam o cara da venda que fornecia a ração.
- De fato.
- Ninguém hoje costuma lembrar que tem vizinho. Só quando ele dá festa, e só para ficar amargurado ou reclamar do barulho.
- É, as coisas mudam...
- O que quer dizer?
- Antigamente, quando nossos avós eram jovens, era romântico e bonito dizer “eu te amo”.
- Com a revolução sexual, isso passou a ser “eu te desejo”, e, depois das militâncias feministas, “eu te respeito”.
- O que você acha de hoje?
- Me incomodo com tanto pragmatismo.
- Eu também. Minha filha decidiu morar com o namorado quando ele falou: “tudo bem, eu posso comprar o pão hoje, já que você vai trabalhar até mais tarde”.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Pequenas transgressões


São muitos os palhaços que, ao final de um dia de espetáculos, engavetam o nariz vermelho.

Viver numa cidade formal permite observar alguns fenômenos no mínimo curiosos, e o que descreverei é um desses. Pude observar, o que não me custou muito tempo nem capacidade interpretativa, que há, dentre os cidadãos que trabalham vestindo o que vocabulário comum chama de roupa formal - ou costume completo, terno e gravata -: são os que o fazem por elegância, os que o fazem por obrigação e os fantasiados.

Em verdade, quase todos os que se encaixam nesse grupo o fazem por obrigação de trabalho. O segundo grupo, de fato, é aquele que veste a camisa sem se importar; faz porque tem que fazer e tudo bem por isso. O primeiro grupo se sente bem na vestimenta; está elegante e auto-confiante; volta para casa no seu carro com um condicionador de ar ligado em alta potência. O terceiro grupo, que mais chama a atenção, é o grupo dos, como dito, fantasiados.

Esses não vêem diferença entre uma fantasia de Halloween e a roupa de trabalho - excetuando-se que o primeiro certamente há de ser mais divertido. Se lhes impusessem ir ao trabalho trajando-se de Noel, daria na mesma. Usam o que usam por falta de opção. Em especial a gravata; há poucas peças tão inúteis e anti-práticas como as gravatas. São tão desconfortáveis que boa parte dos homens opta por prendê-las.

Essas pessoas passam o dia presos numa jaula que só cabe o próprio corpo - e muitas vezes nem isso. Até que dá a hora de sair.

Mal atravessam a porta, e muitas vezes antes disso, afrouxam a gravata; voltam uma casa do cinto; desabotoam um ou dois dos primeiros botões da camisa; desencam-na; o terno vai parar dobrado no braço, ou, no caso da mão que se deita sobre o ombro, apoiado sobre um par de dedos - típica cena de fim de trabalho. Para a sociedade, são deselegantes, e eles sabem disso. Mas, numa cidade sempre cheia, também sabem que não tem ninguém olhando - todos estão voltados para seus pequenos problemas no fim de um dia normal de trabalho. E assim saem à rua, voltando para casa geralmente a pé, de bicicleta ou ônibus. Felizes com suas pequenas transgressões.

(imagem de Mateus Massa: http://www.flickr.com/photos/mateusmassa/)

domingo, 31 de maio de 2009

Aniversário

- Preciso de uma dica. Quero dar um presente pra uma amiga. É aniversário dela e não faço idéia do que dar.
- Não dá nada.
- Vai, ela é mulher também, me dá uma ajuda.
- Você gosta dela?
- Sim, somos amigos há muito tempo. Isso que é o problema: já dei todo tipo de presente pra ela, e não sei mais o que dar nesse ano.
- Flores?
- Já foi.
- Chocolate?
- Já.
- Roupa?
- Muitas.
- Coisas pra cama? Enfeites? Pelúcia? CD? Dvd? Livro? Cartão?
- Todos. Até cartão. E ela odiou. Foi, aliás, ano passado. Por isso que tem que ser algo bom nesse ano.
- Com homem é tão mais fácil.
- Como assim? É mais fácil dar presente?
- Não, falei de sexo. Nunca viu? Não sabe o que dar pra um homem, dá uma noite especial.
- É, já tinha acontecido, mas eu nem notei. Tou acostumado a não ganhar nada. Meu aniversário sempre passa em branco.
- Comigo também. Só os amigos mais íntimos sabem.
- Eu não sei o seu.
- É...
- Mas você também não sabe o meu.
- Então estamos quites.
- Quer trocar as datas e subir um degrau na amizade?
- Pode ser. Vou ganhar presente com isso?
- Depende. Sexo conta?
- Conta.
- Bom. Então, o meu é 6 de março. Quando é o seu?
- Toda sexta à noite. Comemoro lá em casa com uma garrafa de vinho.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Liberdades


Quando criança, muito me entretinha caçar ateus convictos e enchê-los de perguntas clichês sobre suas convicções. Gostava disso primeiro porque às vezes provocava irritação, imagino que, em parte, por vir de alguém tão jovem, e isso os levava a não responder. Às vezes divagavam com algum comentário engraçado, nem sempre inteligente, às vezes respondiam com ignorância. Tinha dois terços de chance de me divertir com a reação. Das perguntas que fazia, a que mais provocava reações adversas era o "então, por que não matar?".

Mais que pela brincadeira, realmente queria saber o que os impedia de, numa situação adversa, potencializada por um acesso de raiva maior que o comum, desferisse um golpe letal contra seu oponente. Talvez por esperar por uma resposta grandiosa, era a única que não conseguia ser respondida. Algumas reações como as acima já eram esperadas e se repetiam. Em outros casos, a conversa tendia a rumar para "não são os ateus que matam, e sim os religiosos fanáticos". Mas nunca recebia nada a contento. E isso tudo me intrigava. Essa liberdade que eles tinham - e eu não.

O tempo me trouxe amadurecimento e consciência, e, com eles, essa liberdade de que hoje gozo. E o que fazer dela? Uso? Num mundo onde é possível eliminar fisicamente o adversário, fazê-lo? Não. Até poderia; se quisesse, teceria para mim mesmo um conjunto de preceitos morais que mo permitisse fazer. Mas, mais uma vez, não. Ninguém escala ao cume de uma montanha para respirar o ar doce, puro - e rarefeito - e dela se atirar em direção ao chão. É a liberdade; e o melhor uso que se faz dela é reconhecê-la e facultá-la, para, assim, senti-la.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Orgia filmada por padre resulta em cooperação bilateral

O padre, que exercia suas atividades no interior do Estado da Paraíba, gravou dois vídeos em que aparecia a fornicar com um casal do seu círculo de amizade.
O menàge teria sido disponibilizado no blog pessoal do padre.


Depois de 49 minutos de exibição pornô contínua e muitas visualizações anônimas da comunidade cristã da região, interessada em averiguar a integridade moral do sa, os vídeos teriam sido retirados do site da morsa.
A arquidiocese local manifestou publicamente, ao lançar um texto num jornal que abrange todo o estado, dizendo-se embaraçada com o fato.

A questão, entretanto, atravessou fronteiras.
Fontes mais recentes* afirmam que no jogo de xadrez da política sulamericana (o Peão, a Dama, o Cavalo...), o Bispo, presidente paraguaio Fernando Lugo, teria feito uma ligação e se comunicado diretamente com o sacerdote brasileiro.


Entrando em contato com a arquidiocese local, teria conseguido concluir a remoção do padre para assumir uma arquidiocese no Paraguai. Depois, já se fala em um acordo proposto pelo presidente paraguaio para, com ajuda do padre paraibano, incentivar a construção de escolas para meninas que desejam ingressar na vida religiosa. Com gosto.



* Fontes: Times New Romans e Comic Sans (12).

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Relato cotidiano

Seguiu a direção dos cartazes, adentrou com majestade o recinto e seguiu a um homenzinho encarregado da recepção.
- É aqui que tem vacina pra raiva?
- É sim.
- Tá aqui minha carteira de vacinação. Pode me dar umas três logo de uma vez aí.
- Mas, senhor, aqui só vacinamos animais!
Boatos das fontes mais confiáveis confirmam que o homem, incomumente peludo, ostentando espessa barba, levantou-se, e, desferindo contra a mesa um único golpe, partiu-a em dois. Em seguida, teria pulado sobre o funcionário que o atendia e quebrado todos os seus membros. Diminuiu o ritmo quando um enfermeiro aplicou-lhe uma injeção. Só parou de vez na sexta.
Com a boca espumando, prostrou-se, a se contorcer, chamando a gritos pelo nome “Lola”. Como não sabendo o que fazer, os presentes à cena encaminharam-no a um canil, onde fez questão de terminar seus dias.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Partir

Colocou os pertences que carregava na esteira e seguiu adiante, atravessando o detector de metais. Soa o apito. Volta um passo. Esquecera uma chave no bolso. Passa a chave por uma caixinha e torna a tentar passar. Soa o apito novamente e um guarda se aproxima. Olha logo para o cinto de fivela larga. O guarda puxa um detector manual e constata que o metal detectado pertencia ao cinto. Recolhe os pertences e lhe é dada passagem. Era de se estranhar. Podia ter sido um broche, mas sabia que não importava quantas vezes tentasse passar, o aparelho iria sempre fazer seu alarde. O peito pesava como chumbo. Trazia no coração uma faca cravada pelo destino. Mas ele haveria de retirá-la ele próprio. Disso sabia também.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Humor negro

- Atchim! - alguém espirra no meio de uma multidão que pretendia cruzar a rua.
- Saúde! - outro alguém grita.
- Suína?! - brada um terceiro.
Todos correram. Até hoje não sei se faziam parte da brincadeira ou não.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Contramão


Capital, cidade planejada. Planejada - e sem esquinas. Objetiva, certa, precisa. Toda a lei positiva exposta no concreto. E ainda sem esquinas. Ruim para o pedestre. Pior para o cara que ganha a vida dando um pouco de felicidade aos que saem desmotivados de seus trabalhos e encontram o sentido de suas vidas em um gole ou dois de uma loira gelada e em uma unidade ou duas do famigerado 'espetinho'. Como haveria de viver ele, que depende de esquinas para deixar o nomadismo, se esquinas estão proibidas? Fazendo bom uso da tão dita criatividade brasileira invocada [apenas] em situações difíceis, eis que inexoravelmente surge a figura do espetinho da curva, com suas instalações em frente a um girador ou balão. Não está previsto, mas acontece. E os freqüentadores, representantes de seus respectivos segmentos sociais, sancionam a idéia. Segura essa, Lúcio Costa.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Pós-venda

Parou numa barraca no mercado de importados do centro da cidade.
- Quanto que tá o celular?
- Ó, malandro, esse aqui tem TV e mp-10. Tá 700.
- 700? Só dou 400.
- 400? Ahhh, moleque... Mas aí vai ter que ser sem pós-venda.
- Qué que cê quer dizer com pós-venda?
- Que depois que eu vender eu não sou mais teu vendedor.
- Na hora, mermão. Toma.
- Valeu.
- Agora eu não sou mais teu vendedor, né?
- Foi o que cê falou.
- Então agora eu sou teu assaltante, porra! Passa a merda do celular!

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Sósia

- E aí, rapaz, quanto tempo!
- Como cê tá?
- Bem, bem. Olha só, vi um cara igualzinho a tu ontem.
- Foi?
- Tão igual que até confundi.
- Toda vez que alguém chega "vi alguém parecido contigo" e eu vou atrás descubro que é um careca, um cara sem perna... Vai te lascar!
- Não, velho, eu te conheço faz tempo, não ia fazer isso contigo.
- Sei não. Vai, diz aí, como ele era?
- Bem, tinha o cabelo castanho, né, mais ou menos que nem o teu.
- Tinha os dois olhos ao menos?
- Tinha, tinha. Tou dizendo, era a tua cara.
- Quê mais?
- Quando o vi ele tava com uma camiseta vermelha, eu sei que você tem um bocado delas...
- Ele tinha os dentes?
- Ahm, quase todos.
- Tu tá de sacanagem, velho!
- Não, mas eram quase todos, assim, que nem os teus, meio tortos, saca?
- Onde cê viu esse sujeito?
- Tava perto daquela boate, barzinho, sei lá, que tu freqüenta.
- Sei. Fazendo o quê?
- Acho que tava dormindo.
- Como assim, dormindo?
- No chão, ué, dormindo; dormindo.
- Vai te lascar! Cê me confundiu com um mendigo?!
- Mas era igualzinho! Só um pouco mais velho...
- Claro que não!
- Tá, era muito parecido.
- Não.
- Lembrava.
- Lembrava o quê, homem?
- Que nem tu, ele era meio agressivo, quase batia em mim, e também usa tua frase registrada.
- Que frase?
- "Vai te lascar".
- Ah, vai te lascar.
- Tá vendo?
- Como você sabe tanto desse cara?
- Falando com ele.
- E você falou como?
- Ele parecia estar descansando, aí eu cheguei por trás, dei uns bons tapões nas costas dele e falei: "Noitada, hein, Bilolinha?".