segunda-feira, 16 de novembro de 2009
Mais das flores
- Uma flor?
- Colhi pra você.
- Mas por quê?
- Como por quê?
- Ela agora perecerá rapidamente até a morte.
- Mas você não gostou?
- Acho que, se você quisesse me agradar, poderia ter me dado outra coisa.
- Desculpa.
- Tudo bem.
- Tipo chocolate?
- Desculpa tipo chocolate?
- Não -- quis dizer, chocolate teria sido bom?
- Se chocolate teria sido bom...Talvez. É, até que sim.
- Mas, se não isso, o quê então?
- Podia ter me dado um beijo, que é manifestação de vida.
- Ah. Mas, assim, então... Podia ter pulado pro sexo. É "tão" vida que até "faz" mais vida, né.
- Não, obrigada. E eu fico com a flor.
segunda-feira, 19 de outubro de 2009
Do futuro da tentativa de recriar o homem
quinta-feira, 15 de outubro de 2009
Exoesqueleto
sábado, 29 de agosto de 2009
Quote-dian
É verdade, esta está longe de ser uma história emocionante. Está mais para uma aventura do real. Também não é uma história longa: o tempo passa rápido demais para aqueles que dormem profundamente um sono leve e perturbado. E, ainda por cima, curto. Ele acorda primeiro. Mente vazia. Essa é a melhor maneira de se pegar os sonhos.
Os sonhos começam grandes e complexos, cheios de detalhes, e, à medida que o tempo de sono vai passando e a hora de acordar, se aproximando, ele vai se afunilando, até que, no instante que representa o transe entre viver um mundo e outro, que começa quando certas partes do cérebro diminuem o ritmo de trabalho e termina quando os olhos estão definitivamente abertos, o sonho é representado por apenas um curto fio. Ele segue seu rumo até passar por debaixo da porta que leva para além da consciência, definitivamente trancada com todas as chaves. Os sonhos fogem quando já se sai diretamente do transe a pensar: “está tarde!”, “está cedo!”, ou “preciso lembrar o que sonhei!”.
E, de fato, mantinha a mente vazia, sendo daí capaz de puxar o fio, que ia ficando mais largo, e trazia consigo o sonho, todo fragmentado em pedaços pequenos, imagens congeladas, a pedaços grandes, cenas inteiras, às vezes desfocadas. Poderia costurá-lo novamente, se quisesse. Reviu parte das imagens que perambularam por sua mente nas últimas horas. Cenas que pareciam verdadeiras demais até para a realidade de um dia útil.
Não querendo continuar a rever os caminhos percorridos no sonho, começou a pensar em outras coisas, abriu os olhos, e, com isso, escapou-lhe à mão a corda; dessa forma, o sonho retornou a seu rumo para além da porta inacessível, num movimento tão inevitável como o de um balão de hélio sobe quando a criança se lhe desprende sem querer.
Olhou para os lados com as pálpebras semi-cerradas. Parecia ter sido o primeiro a acordar. Tanto fazia. O sol ainda tímido batia nas cortinas e pedia passagem. Por que tudo aquilo? Tudo isso à noite. Todos esses pensamentos. Todos esses sonhos. Quis crer que a vida era mais simples que o que parecia. Sem qualquer cerimônia, jogou de lado o lençol e, a vestir nada, foi escorregando até o banheiro escovar os dentes. Um novo dia qualquer começava. E como estava quente!
quarta-feira, 19 de agosto de 2009
Feliz dia mundial da fotografia!
- Os buracos negros o fazem há muito mais de 170 anos e duvido que tenha um dia mundial para eles.
- Mas os buracos negros só foram descobertos bem depois da captura da luz. Logo, viva o nitrato de prata!
- A descoberta, feita a posteriori, não muda o fato apriorístico. A teoria da evolução, como a conhecemos, teve seu esqueleto traçado no século XIX, o que não quer dizer que não tenha havido evolução até lá. E as pessoas estão comemorando os 200 anos.
- A fotografia captura mas já devolve a luz. Já o buraco...
- Mas quem sabe os propósitos? Vai que eles têm as melhores fotos. Ninguém que foi lá já voltou para as exposições de fotografia que temos aqui.
- Enfim, feliz dia da fotografia!
- Com ou sem flash?
quarta-feira, 5 de agosto de 2009
The frog conundrum
- Vou te contar uma história, ok?
- Ok.
- Bem, havia um laguinho, onde passava um homem. O homem resolveu atirar uma pedra no laguinho, e atirou. Um sapinho que por ali passava viu um ponto preto voando no ar, esticou sua linguinha e engoliu a pedrinha pensando que era uma mosquinha. Sem saber disto, o sapinho sentiu-se satisfeito.
- Hm...
- Existem muitas maneiras de se analisar essa história. Uma primeira pergunta seria: o sapinho estava errado em sentir-se satisfeito?
- Claro que sim.
- O motivo da pergunta é... Como?
- A pedrinha que ele pensava que era uma mosca era uma mosca só para ele, e não uma mosca real que faz parte de uma verdade universal e absoluta, a qual todos devem aceitar. Que nem o pastor disse lá no culto.
domingo, 19 de julho de 2009
Exame
- Sim, eu sei. Me preparo para este concurso há 15 anos.
- Ótimo. Então, primeira pergunta: você é doido?
- Não.
- Louco?
- Não.
- Insano?
- Não.
- E excêntrico?
- Já me chamaram assim. Mas não.
- Você toma remédio controlado?
- Não. Mais. Não mais.
- Por que suspendeu?
- Enchi.
- Hm. Ok, então, última pergunta: você já consumiu ou consome drogas?
- Sim.
- Vamos tentar de novo: você já consumiu ou consome drogas?
- Sim.
- Drogas ilícitas.
- Sim, já disse.
- Bom...
- Você devia me passar.
- Como?
- Usei outra estratégia.
- Qual?
- Sinceridade. Você devia me passar.
- Por quê?
- Porque isso é uma qualidade em falta no serviço público.
- É verdade. Você não está drogado agora, está?
- Talvez.
- Tá, vou fingir que não ouvi isso...
- Eu estou.
- ... Seja bem vindo ao serviço público!
sábado, 11 de julho de 2009
Papos contemporâneos
Diz: desculpa, tava escrevendo uma resposta na janela da minha filha.
Diz: como assim? a Júlia?
Diz: a única que nasceu até agora.
Diz: mas ela não tem 3 anos?
Diz: é, e eu já tinha pedido pra ela me ensinar a operar esses mecanismos via internet há mais tempo.
Diz: "i see babies cry, i watch them grow..."
Diz: "... they'll learn much more then i'll ever know"
Diz: ao menos a música não muda.
Diz: era um remix.
Diz: entendo.
Diz: olha, recebi uma mensagem da minha filha.
Diz: a Júlia também manda sms?
Diz: não, a Camila. ela já queria avisar que só nasce se o hospital tiver wifi.
segunda-feira, 6 de julho de 2009
O embate entre direito interno e internacional
A situação está estabelecida: ambos, o homem e a mulher, desejam subir. Podem subir juntos ou separados - a ele, não agrada ter que a esperar; a ela, não agrada ir depois dele. Ambos querem operar o elevador, que é o Estado. O homem dentro do elevador é o governo de um Estado, e a senhora representa um outro. O direito internacional é aquele que agiu na cabeça do senhor e o fez ter certo nível de complascência. O direito interno é aquele que o dá a possibilidade de agir da maneira que julgar melhor, apesar de todas as possíveis conseqüências. O direito internacional está expresso no sensor do elevador, que capta a necessidade de ambos, mas privilegia a coordenação da ação dos dois - afinal, o elevador já vai subir mesmo, por que não levar logo a ambos? O direito interno está expresso na vontade realizada do senhor: ele aperta o botão de fechar as portas.
A justiça continua cega. No embate entre as duas esferas, sempre alguém sairá perdendo. Neste caso, a mão.

domingo, 5 de julho de 2009
Pós-contemporaneidade
- O que quer dizer?
- Na época dos meus avós, era comum conhecer a maioria das pessoas que moravam nas vizinhanças, fosse um bairro ou vilarejo.
- É verdade.
- Meus pais, já um pouco avançados em idade, falam, saudosos, que conheciam todos os vizinhos com cachorro.
- Pelo fato de que saíam à rua pra passear, e encontravam e davam-se bom dia, né?
- No caso do meu pai, sim. Minha mãe não tinha cachorro, mas tinha o sono leve. Cada noite ela lembrava de todos os vizinhos que tinham cachorro.
- Meus pais criavam peixe.
- Ao menos conheciam o cara da venda que fornecia a ração.
- De fato.
- Ninguém hoje costuma lembrar que tem vizinho. Só quando ele dá festa, e só para ficar amargurado ou reclamar do barulho.
- É, as coisas mudam...
- O que quer dizer?
- Antigamente, quando nossos avós eram jovens, era romântico e bonito dizer “eu te amo”.
- Com a revolução sexual, isso passou a ser “eu te desejo”, e, depois das militâncias feministas, “eu te respeito”.
- O que você acha de hoje?
- Me incomodo com tanto pragmatismo.
- Eu também. Minha filha decidiu morar com o namorado quando ele falou: “tudo bem, eu posso comprar o pão hoje, já que você vai trabalhar até mais tarde”.
quinta-feira, 18 de junho de 2009
Pequenas transgressões
(imagem de Mateus Massa: http://www.flickr.com/photos/mateusmassa/)
domingo, 31 de maio de 2009
Aniversário
- Vai, ela é mulher também, me dá uma ajuda.
- Você gosta dela?
- Sim, somos amigos há muito tempo. Isso que é o problema: já dei todo tipo de presente pra ela, e não sei mais o que dar nesse ano.
- Flores?
- Já foi.
- Chocolate?
- Já.
- Roupa?
- Muitas.
- Coisas pra cama? Enfeites? Pelúcia? CD? Dvd? Livro? Cartão?
- Todos. Até cartão. E ela odiou. Foi, aliás, ano passado. Por isso que tem que ser algo bom nesse ano.
- Com homem é tão mais fácil.
- Como assim? É mais fácil dar presente?
- Não, falei de sexo. Nunca viu? Não sabe o que dar pra um homem, dá uma noite especial.
- É, já tinha acontecido, mas eu nem notei. Tou acostumado a não ganhar nada. Meu aniversário sempre passa em branco.
- Comigo também. Só os amigos mais íntimos sabem.
- Eu não sei o seu.
- É...
- Mas você também não sabe o meu.
- Então estamos quites.
- Quer trocar as datas e subir um degrau na amizade?
- Pode ser. Vou ganhar presente com isso?
- Depende. Sexo conta?
- Conta.
- Bom. Então, o meu é 6 de março. Quando é o seu?
- Toda sexta à noite. Comemoro lá em casa com uma garrafa de vinho.
quinta-feira, 14 de maio de 2009
Liberdades

segunda-feira, 11 de maio de 2009
Orgia filmada por padre resulta em cooperação bilateral

quarta-feira, 6 de maio de 2009
Relato cotidiano
- É aqui que tem vacina pra raiva?
- É sim.
- Tá aqui minha carteira de vacinação. Pode me dar umas três logo de uma vez aí.
- Mas, senhor, aqui só vacinamos animais!
Boatos das fontes mais confiáveis confirmam que o homem, incomumente peludo, ostentando espessa barba, levantou-se, e, desferindo contra a mesa um único golpe, partiu-a em dois. Em seguida, teria pulado sobre o funcionário que o atendia e quebrado todos os seus membros. Diminuiu o ritmo quando um enfermeiro aplicou-lhe uma injeção. Só parou de vez na sexta.
Com a boca espumando, prostrou-se, a se contorcer, chamando a gritos pelo nome “Lola”. Como não sabendo o que fazer, os presentes à cena encaminharam-no a um canil, onde fez questão de terminar seus dias.
segunda-feira, 4 de maio de 2009
Partir
quarta-feira, 29 de abril de 2009
Humor negro
- Saúde! - outro alguém grita.
segunda-feira, 27 de abril de 2009
Contramão
quarta-feira, 15 de abril de 2009
Pós-venda
- Quanto que tá o celular?
- Ó, malandro, esse aqui tem TV e mp-10. Tá 700.
- 700? Só dou 400.
- 400? Ahhh, moleque... Mas aí vai ter que ser sem pós-venda.
- Qué que cê quer dizer com pós-venda?
- Que depois que eu vender eu não sou mais teu vendedor.
- Na hora, mermão. Toma.
- Valeu.
- Agora eu não sou mais teu vendedor, né?
- Foi o que cê falou.
- Então agora eu sou teu assaltante, porra! Passa a merda do celular!
quarta-feira, 8 de abril de 2009
Sósia
- Como cê tá?
- Bem, bem. Olha só, vi um cara igualzinho a tu ontem.
- Foi?
- Tão igual que até confundi.
- Toda vez que alguém chega "vi alguém parecido contigo" e eu vou atrás descubro que é um careca, um cara sem perna... Vai te lascar!
- Não, velho, eu te conheço faz tempo, não ia fazer isso contigo.
- Sei não. Vai, diz aí, como ele era?
- Bem, tinha o cabelo castanho, né, mais ou menos que nem o teu.
- Tinha os dois olhos ao menos?
- Tinha, tinha. Tou dizendo, era a tua cara.
- Quê mais?
- Quando o vi ele tava com uma camiseta vermelha, eu sei que você tem um bocado delas...
- Ele tinha os dentes?
- Ahm, quase todos.
- Tu tá de sacanagem, velho!
- Não, mas eram quase todos, assim, que nem os teus, meio tortos, saca?
- Onde cê viu esse sujeito?
- Tava perto daquela boate, barzinho, sei lá, que tu freqüenta.
- Sei. Fazendo o quê?
- Acho que tava dormindo.
- Como assim, dormindo?
- No chão, ué, dormindo; dormindo.
- Vai te lascar! Cê me confundiu com um mendigo?!
- Mas era igualzinho! Só um pouco mais velho...
- Claro que não!
- Tá, era muito parecido.
- Não.
- Lembrava.
- Lembrava o quê, homem?
- Que nem tu, ele era meio agressivo, quase batia em mim, e também usa tua frase registrada.
- Que frase?
- "Vai te lascar".
- Ah, vai te lascar.
- Tá vendo?
- Como você sabe tanto desse cara?
- Falando com ele.
- E você falou como?
- Ele parecia estar descansando, aí eu cheguei por trás, dei uns bons tapões nas costas dele e falei: "Noitada, hein, Bilolinha?".