segunda-feira, 5 de novembro de 2007

(em) Minutos




Estava, naquele dia, junto à janela. Não era o costumeiro - queria experimentar novos ares. O passeio ia bem. Regular, na verdade. A mesma velha cidade.
Também não costumava observar os que entravam e saíam. Dessa vez, entretanto, não era uma das mesmas velhas pessoas que entrava. Exalava primaveras e violetas. Sentou-se na minha frente.
Seria indelicadeza não notar que traços suaves - até finos - tinha. Formatos bem calculados, simétricos. Madeixas escarlates, fazendo incendiar até ao mais desavisado. Um quase imperceptível cordão dourado que se perdia em sua candura angelical.
Pensei em tocar-lhe. Dizer-lhe o quanto lhe queria. Não, pensei, não gostaria que me perturbassem, fosse eu.
Era o divino, eu, o profano. Este não ousa aproximar-se daquele. Um teme sua pureza. Sua perfeição. O outro, seu desprezo. Mas como um ímã, atraem-se. Temem-se e vivem em profunda conjunção carnal. Completam-se, enfim.
Assim éramos. Embora provavelmente só eu o percebesse. Pensava em como éramos iguais. Em como pensávamos iguais. Mesmas crenças - ou descrenças, amores, ódios, medos e modos. Em como nos beijaríamos, apaixonados, ao final de uma comédia romântica. Mas essa era minha tragédia grega. Eu estava a ser castigado por um crime que não cometera. Diria Sófocles ter algo a ver com males cometidos pelos meus antepassados. Pois saiba que, naquele momento, sem hesitação, trocaria todos os antigos espíritos que, biologicamente falando, permitiram minha existência por um momento nosso a sós.
Tornar a amar fez-me bem. Amar profundamente; tão profundamente que o ato de fazê-lo torna-se o real adorado; amar o fato de amar. Ou só o poder amar.
Amei, sonhei e pensei o mundo em instantes. Também em instantes o ônibus parou, ela desceu, e me dei conta de ter me apaixonado, sofrido, matado e morrido em tão breve espaço de tempo. O ônibus retomou seu trajeto logo em seguida e levou todo o amor que poderia ter sido - e que não foi.

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