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sábado, 22 de novembro de 2008

Inspiração


Então, aparece do nada. Seguindo o fluxo das notas que passam por meus tímpanos. Uma sensação, o lampejo de uma idéia. Vejo algo se mover ao meu lado. A cortina oscila com o vento. Algo passa na televisão, não sei o que é. Pouco importa. Sinto como se tudo convergisse para um único ponto: o exato local onde estou. Tudo ao meu redor trabalha apenas em função daquilo que transita pela minha mente. Ajudando, estimulando, exigindo que eu manifeste isto de alguma forma. É um pedido de tamanha força que chega a ser incontrolável. Sinto-me como uma pessoa sentada na praia diante de um maremoto. Impotente. Incapaz de evitar ser levado. Aquilo que idealizei tem vontade. E sua vontade ordena que eu sirva de intermédio para que ela se expresse.

No fim das contas, nada sou além de um mensageiro.

segunda-feira, 30 de julho de 2007

Eletric Funeral



Ok, ok, os fãs de jazz vão gostar dessa. Quem está pronto para morrer levanta a mão!

É, quase ninguém levantou a mão. Na verdade, só aquele cara estranho que sempre está por ali quando você menos espera. Ainda assim, fiquem todos cientes: você pode ter um funeral regado a jazz! “You cry when you are born, so REJOICE WHEN YOU DIE!” é um dos lemas do jazz funeral de New Orleans.

O “jazz funeral” começou com a fusão de duas culturas, basicamente: a européia e a africana (assim como o próprio jazz, em si). A européia contribuiu no sentido de que sempre teve o costume de fazer marchas musicadas em funerais de militares (lembrar de ouvir Chopin, Mendelssohn e Beethoven), e a prática foi transmitida aos americanos, que continuaram a praticando até depois da guerra civil. Por coincidência, nessa época houve um surto de bandas de metais que se apresentavam em uma série de coisas como paradas, festivais de dança e casamentos. Como foram se tornando populares, foram cada vez mais sendo convidadas para tocar em eventos tais como funerais.

A cultura africana, por sua vez, teve outra contribuição peculiar e talvez mais importante. Antes, preciso dizer que nas culturas do oeste africano o sistema de crenças, de modo geral, é monoteísta, e prega uma estrutura hierárquica que põe deus acima de tudo, e, em seqüência, espíritos, homens, animais e plantas. Neste sistema, a morte não representa o fim de uma vida, mas a transição para um plano de espíritos ativos que providenciará almas para as gerações seguintes, e estes espíritos teriam maior autoridade que humanos e seriam capazes de ter controle sobre os vivos. A morte seria a triunfante redenção do status espiritual e liberação do ser de sua triste situação. Logo, ritos funerais simbolizam, para eles, o clímax da vida de um indivíduo. Além disso, quando os africanos foram levados para os EUA, eles passaram a acreditar que, com sua morte, seriam levados de volta à sua terra. Aquela também passou a ser vista como libertação da escravidão e opressão.

Enquanto os franceses nos EUA saíam às ruas tocando os metais, os africanos celebravam seus deuses escondidos. Não demorou para que as duas culturas se fundissem.

Num “jazz funeral” tradicional, a banda se encontra na igreja ou casa funerária de onde cerimônia será conduzida. Depois das obrigações da cerimônia, o caixão geralmente é transportado para o cemitério por uma carruagem e cavalos enfeitados com flores, seguido diretamente pela banda, familiares e demais amigos e colegas. Ao som de músicas e hinos, a “procissão segue”. Chegado ao local de enterro, todos se despedem, o finado é enterrado, a banda conduz a procissão para fora do cemitério sem tocar. Quando alcançam uma distância respeitável do lugar, o trompetista principal sopra um riff de duas notas preparatórias. Os percursionistas, então, começam a tocar uma marcha conhecida como “segunda fileira”, que tem o nome da fileira dos que ficam, na procissão, atrás das fileiras de amigos, familiares e outros celebrantes que seguem os membros da banda, que, por sua vez, estão produzindo um som mais alegre e comemorativo. O “mestre” da cerimônia, também conhecido como “grand marshal”, dá o tom para a banda e os membros da segunda fileira, que também dançam com guarda-chuvas coloridos abertos, anunciado a notícia: “uma alma voltou para casa”.







Há uma curiosidade. Muitas vezes, turistas pela região entram na festa: "OOH! A PARADE!". Quando vêem o caixão, muitos deles pensam "que horror!", outros apontam... E eles só respodem: "calma, é assim que nós nos despedimos dos nossos músicos".


Louis Armstrong (que também recebeu um jazz funeral) comenta sobre o prório (se não sabe inglês, aperte o botão de "skip"): " And, speaking of real beautiful music, if you ever witnessed a funeral in New Orleans and they have one of those brass bands playing this funeral, you really have a bunch of musicians playing from the heart, because as they go to the cemetery they play in a funeral march, they play "Flee As a Bird," "Nearer My God Today," and they express themselves in those instruments singing those notes the same as a singer would, you know. And, they take this body to the cemetery and they put this body in the ground. While he's doin' that the snare drummer takes the handkerchief from under the drum, from under the snare, and they say "Ashes to Ashes" and put him away and everything, and the drummer rolls up the drum real loud. And, outside the cemetery they form and they start swinging "Didn't He Ramble." And, all the members, the Oddfellows, whatever lodge it is, they are on this side. And on this (other) side is a bunch of raggedy guys, you know, old hustlers and cats and Good-time Charlies and everything. Well, they right with the parade too. And, when they get to wailin' this "Didn't He Ramble," and finish, seems as though they have more fun than anybody, because they applaud for Joe Oliver, and Manny Perez, with the brass band, to play it over again, so they got to give this second line, they call it, an encore. So, that makes them have a lot of fun too, and it's really something to see.".


Diz um site tradicional sobre o jazz funeral que é para aqueles que desejam ter um é mais uma questão de estar no lugar certo na hora certa. “Esperamos ver poucos desses no futuro. Nós precisamos guardar para os Grandes que ainda estão vivos”.



Para os que ficaram curiosos, aqui um vídeo-exemplo:

Jazz Funeral de Hellen Hill

sexta-feira, 13 de julho de 2007

A arte pop

(este é um texto com o selo "SOCIEDADE AMANTES DA LEITURA")


(Pop Art, por Mel Ramos)

Chega de Andy Warhol! O que nós queremos é a utopia dos artistas! Um lugar onde todos nós, escritores, músicos, compositores, cantores, pintores, escultores, desenhistas, atores, diretores, e, claro, poetas, teriam seu lugarzinho reservado! Nada de leis para prender poetas boêmios, tomar violões de cancioneiros da meia-noite! Deles seria a noite, e ai daquele que se incomodasse com isso!

Queremos um lugar onde a arte seja pop, onde a arte seja valorizada pelas massas. Não a arte comercial, a arte como ela é. Não aquela gigantesca empresa que promove aquele CD com qualidade irrisória, mas aquele desenhista-de-folha-de-trás-de-caderno-de-escola que virou advogado por pressão dos pais. Queremos uma arte pop decente!

Queremos que todos apreciem arte pelo que a arte é, queremos que todos sintam-se tocados pela arte. Queremos ser inspirados pela poesia! Eis o nosso mundo.

Andaríamos pelas esquinas recitando poesia. “Eu, filho do carbono e do amoníaco...”, recitaria um transeunte. Um taxista que observava a cena prosseguiria: “... monstro de escuridão e rutilância!”. O pedestre viraria para o taxista, sorriria, e prosseguiria feliz sua caminhada, sabendo que o mundo está mais feliz porque todos gostam de poesia.

Haveria música toda noite. Algumas noites iríamos pro Bach, outras, pro Chopin, mas sempre terminaríamos com Nelson Rodrigues. Admiraríamos o artista que pinta a amada na sacada, e o infeliz que diz à namorada que só ela existe a seus olhos (afinal, retórica também é uma arte).

Teríamos exposições de arte, e verdadeiros entendidos para apreciá-las. Não aquele que diz que o traço tem um estilo suavemente impressionista, muito embora a coloração pareça surrealista, e o pintor se encaixe num novo movimento que mistura... Não, isso não. Teríamos quem dissesse “é bom” e sentisse o trabalho.

Ah!, os festivais de dança! Grupos e casais que dançariam a noite toda como se a noite fosse uma vida inteira, não para competir, mas pela elegância e o prazer que a dança proporciona. E teríamos expectadores: os que dançaram nas noites anteriores e os que dançarão nas noites seguintes.

Não nos esqueçamos que cozinhar é uma arte. Todos comeriam bem nesse mundo. Não há necessidade de se empanturrar: a boa arte sempre deixa um “gostinho de quero-mais”. Os pratos seriam preciosos em todos os sentidos: aspecto, textura, sabor, cheiro, fineza... E todos saberiam apreciá-lo.

Todos gostariam de literatura: adeus ao analfabetismo, e, finalmente, grupos de leitura que realmente lêem! Com a leitura, conhecimento, e até os tediosos debates políticos tornar-se-iam encontros curiosos de repentistas.

Num mundo baseado na arte, até aprenderíamos a observar a arte natural, a natureza em si. Saciaríamos nossos sentidos com as artes que impressionam cada um deles individualmente ou em conjunto. Depois de um dia cansativo de trabalho, seus sentidos estariam todos plenamente satisfeitos. Você dormiria feliz, acordaria feliz. O mundo seria feliz. Talvez nem morrêssemos. A morte tem pena de tomar uma vida plena. Ou seríamos tão impressionados pela arte que nós revelaríamos a obra perfeita que somos. E a arte a morte não toma.


(Bocage, poeta português)