domingo, 7 de setembro de 2008

République Démocratique des Cuillères

Uma por todas e todas por uma!

Não à idéia do Reino dos Garfos! Votemos na República Democrática das Colheres! Não há formas pontiagudas para furar, e todas as formas - mesmo - deveriam ter uma leve curva para evitar o atrito e a dor. E nesse mundo terrível - cheio de poluição, aquecimento global, violência, fome, miséria, oxiúrus, tráfico, tráfego, ginástica... Parem tudo! É hora do cafezinho! - com biscoito, e sem qualquer coisa que lembre adoçante!


A República das Colheres investiria pesado em tecnologia gastronômica que nos traria uma comida sublimável. Quantos problemas da humanidade seriam poupados se cozinhar funcionasse como o vinho que envelhece: quanto mais tempo no fogo, melhor fica. Quanta paz teria o mundo! Se, finda a Segunda Guerra, o presidente americano tivesse oferecido um jantar ao soviético e dito,

- Aproveite, meu caro. Está no fogo há quase um ano.

certamente a Guerra Fria seria coisa pra ficção científica; e corrida armamentista: quem já viu? Muito melhor competir em fornos industriais imensos que preparariam banquetes para as refeições seguintes. E quem tirasse do forno antes perdia.

Questão freqüente para os que tentam desenvolver essa arte é o timing; se tirar antes, poderia ter deixado mais; se tirar depois, queima, e aí já era - e não tem reset pra apertar. Viabilizar uma comida que melhora com o fogo seria, também, solução pra muitos casais - que, na hora de tirar o jantar romântico do fogo, estão mais preocupados com a parte de exercer o "romântico" bem distante da cozinha; fica o romântico, mas perde-se o crevette avec poire au vin blanc.

É de se imaginar que o homem das cavernas tenha pensado nessa tecnologia - bem como havia dado o primeiro passo para a República: os alimentos eram igualmente divididos, sem privilegiar o homem que caçou ou o que foi caçado. Evoluindo do pouco requinte, a descoberta do fogo possibilitou aos pré-históricos conceber o fogão e uma quase infinidade de receitas. Para compensar o tempo das carnes, digamos, mal-passadas, deixar as refeições um pouco mais de tempo sobre o fogo era o padrão de bom-gosto. (Conjectura-se ter surgido a partir daí, na modalidade da fabricação de biscoitos, a prática (in)voluntária de queimar o tareco).

Só temos a perder com o mundo anti-gastronômico de hoje. Estômagos insatisfeitos discutem e guerreiam - a comprovação existe há tempos: o que não fez Eva para satisfazer o desejo por uma maçã? Hoje somente pode-se imaginar, numa realidade paralela em que a comida pode fazer um mundo melhor, (já que vivemos numa época em que o vinho não consegue fazê-lo, apesar das promessas de campanha), um homem, exercendo sua cidadania em algum chiquérrimo restaurante francês,

- Garçon! Traga-me uma petite poule au pot 1956, s'il vous plaît. O vinho? Ah, traz qualquer um.


5 comentários:

Engel disse...

Um brinde às grandes receitas, como a água em pó!

E que venha a ditadura do chantilly!

Kondlike disse...

Se o mundo fosse como na República Democrática das Colheres nós não teríamos que comer em certas ocasiões aqueles ramens instantâneos com gosto da quintescência do substrato de vento, conhecido como nada.

Matteo disse...

finalmente conheci a parte gourmet do Sarau

Fernanda Eggers disse...

Um café e um bolinho!
\o/

Gabriel disse...

Um texto criativo, divertido e que também leva à reflexão: degustação garantida em um mundo permeado por indigestões e privações.